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Willian Bigode superou dor por perda de filho e quer ser pai novamente

Willian Bigode, com a esposa Loisy e os filhos Daniel, Filippa e Mariah - Arquivo pessoal/Instagra @loisycoelho1
Willian Bigode, com a esposa Loisy e os filhos Daniel, Filippa e Mariah Imagem: Arquivo pessoal/Instagra @loisycoelho1

Ana Flávia Oliveira e Diego Iwata

Do UOL, em São Paulo

26/12/2021 04h00

Estar em um grande time, ganhar títulos importante, receber um ótimo salário e ter reconhecimento da torcida estão provavelmente no combo do sonho de qualquer jogador de futebol. Willian Bigode, recentemente contratado pelo Fluminense, alcançou tudo isso. Mas o seu maior desejo e que ainda não conseguiu realizar passa longe dos campos de futebol.

Ele ainda quer ter um filho biológico. Pai de duas meninas, Fillippa, de 9 anos, e Mariah, de 7 anos, ele ainda adotou Daniel, atualmente com 12, quando o garoto tinha apenas cinco anos. Mas o sonho de ser pai novamente - desta vez de um menino - ainda segue ativo. Ele esteve perto de realizar esse grande desejo neste ano, quando a esposa Loisy Coelho ficou grávida. Mas o bebê morreu antes de nascer, no sétimo mês de gestação.

"Nós recebemos a pior notícia da nossa vida. O Antônio Miguel já era um desejo nosso desde a primeira gravidez da Loisy. Se viesse menino já teria um nome, Antonio Miguel. Aí veio nossa primogênita, a Filipa, sempre continuamos com esse desejo. Depois veio a segunda gravidez, que é a Mariah, mesmo assim... Mesmo com o Dani, a gente quer ter mais um filho. Para alguns é uma loucura, mas para a gente é um desejo muito grande", contou Willian em entrevista ao UOL.

Willian Bigode e a esposa Loisy grávida de Antônio Miguel - Arquivo Pessoal/Instagram @loisycoelho1 - Arquivo Pessoal/Instagram @loisycoelho1
Willian Bigode e a esposa Loisy grávida de Antônio Miguel
Imagem: Arquivo Pessoal/Instagram @loisycoelho1

O jogador explicou que a esposa teve dificuldades para engravidar e que eles tentaram por seis meses antes de decidir procurar um médico. "Fazia seis meses que ela tinha parado de tomar o remédio e não engravidava. Ela tinha uma impossibilidade, tinha istmocele, que é uma bolsinha que cria [no útero] das duas gestações que ela teve. Tem até uma cirurgia para facilitar a gestação", disse o jogador se referindo à alteração anatômica, formada por uma cicatriz no útero que pode ocorrer devido à sutura em mulheres submetidas à cesariana.

Loisy e o jogador preferiram não recorrer à cirurgia. "A gente decidiu não fazer [a intervenção]. Preferimos orar e dar esse passo, acreditando que Deus ia realizar esse nosso desejo."

Bigode contou ainda que a fé foi tão grande que, antes mesmo de estar grávida, Loisy comprou uma roupinha de bebê. "Em casa, as crianças e eu colocamos as mãos sobre o ventre dela, já agradecendo a Deus pela vida do Antônio Miguel, que ele já estava ali, que ele ia ser gerado de uma forma saudável, que tudo ia correr bem e não deu um mês, a Loisy fez o teste de gravidez, deu positivo. Foi uma alegria muito grande, esse era o nosso sonho." A gravidez foi anunciada em maio deste ano.

A fé é isso, é chamar a existência daquilo que não existe." Willian Bigode

Da fé ao luto

Willian Bigode, atacante do Palmeiras, lamentou morte do filho - Reprodução - Reprodução
Willian Bigode, atacante do Palmeiras, lamentou morte do filho
Imagem: Reprodução

O jogador contou que, diferentemente das duas primeiras gestações, Loisy não sentiu enjoos e teve uma gravidez muito tranquila até o sétimo mês. A família chegou a mudar de apartamento para reformar um quarto para receber Antônio Miguel.

Em outubro, durante um exame de rotina, no entanto, o casal descobriu que o coração de Antônio Miguel não tinha se desenvolvido e que o bebê estava morto.

"Não sabia se eu caia no chão ou se ficava olhando para Loisy, se segurava ela. Não sabia se eu chorava ou se eu ficava firme com a Loisy. [...] Não tinha uma explicação, não tinha um laudo", lamenta o jogador que não sabe a causa da morte. "Dentro de toda uma perfeição, não havia nenhuma demonstração de complicação".

No período de luto, William ficou duas semanas afastado dos treinos e jogos no Palmeiras. "Tive que fazer todo esse processo de contratar um caixão, ir para o cemitério, enterrar meu filho. O clube foi muito humano em entender isso", diz, agradecido.

Aprendizados com os filhos

Willian Bigode com o filho Daniel - Arquivo pessoal/Instagram@williandubgod - Arquivo pessoal/Instagram@williandubgod
Willian Bigode com o filho Daniel
Imagem: Arquivo pessoal/Instagram@williandubgod

Willian gosta de ser pai. Quando fala nos filhos, o olhar se ilumina e o sorriso insiste em brotar dos lábios. Ele diz que aprende muito com as crianças, principalmente com Daniel. O garoto, que tem síndrome de Down, é primo de Loisy e vive com o casal desde 2015.

O Dani é um presente de Deus nas nossas vidas, para minha esposa, para nossas filhas. Realmente ele não foi gerado dentro da Loisy, porém o que ele representa e o que ele nos ensina não têm explicação." Willian Bigode

"[Ele nos ensina] O amor, a pureza.... Não tem mau humor, não tem dia ruim. Quando ele dorme no quarto com a gente, ele acorda e sente que estou saindo, com o olho cheio de remela, cheio de sono, ele [diz]: 'Papai, papai...' Já quer dar beijo... É uma sequência de beijo, é um carinho absurdo. A gente entende hoje o motivo de ele estar com a gente e consegue retribuir todo esse cuidado que ele precisa e merece".

Daniel tem uma dificuldade na fala e precisa de uma equipe multidisciplinar com fonoaudiólogo, educador físico e pedagogo, que ajudam no desenvolvimento do garoto. Devido aos cuidados especiais que o garoto precisa, os pais biológicos concordaram que teria acesso a melhores cuidados vivendo com Willian e Loisy.

"Desde quando o Daniel está conosco, ele teve uma evolução gigantesca, muito especial. A gente crê que ele vai [falar], cada vez mais está desenvolvendo a fala", conta o atacante.

Com Daniel, o jogador também aprendeu a importância da inclusão, tanto que se tornou uma voz importante desse meio e, em 2020, foi convidado a integrar o time de embaixadores da Special Olympics, uma organização internacional criada para apoiar as pessoas com deficiências intelectuais.

"Eu entrei nesse time de campeões, entendi porque a gente tem um adolescente em casa que realmente precisa dessa inclusão. Eles realmente precisam ser vistos. Eles têm uma deficiência intelectual, porém, não são diferentes de ninguém. Eles precisam, sim, dessa inclusão, de oportunidade, de ser importante, como qualquer pessoa. Eles são capazes de desenvolver qualquer papel, qualquer função", sentencia Willian.

400 filhos em Angola

Willian Bigode é cofundador da ONG Baluarte, que atua na Angola desde 2018 - Divulgação/ONG Baluarte - Divulgação/ONG Baluarte
Willian Bigode é cofundador da ONG Baluarte, que atua na Angola desde 2018
Imagem: Divulgação/ONG Baluarte

Além de embaixador da Special Olympics, Willian ainda é cofundador da ONG Baluarte, que dá assistência a famílias carentes na Angola. A instituição, fundada em 2018, pelos irmãos Marcos Freire e Jonnes Queiroz, com a ajuda financeira do jogador, está se expandindo e chegou até o Nordeste brasileiro, prestando assistência a crianças do Cariri, no Ceará, e em Campina Grande, na Paraíba.

"A gente teve o privilégio de conhecer os dois fundadores em uma igreja em Belo Horizonte. Marcos é um cantor gospel, um homem de Deus. O Jonnes, também. A gente pôde entender um pouco da história deles como missionários. Eles foram para o Congo, passaram dois anos, viveram toda uma loucura naquele país de muita escassez. Quando eles compartilharam o que estava no coração deles, de poder alcançar essas pessoas, crianças lá na África, a gente entendeu toda essa visão deles", diz Willian. "Em 2018, iniciamos o projeto. Nós, como cofundadores, como padrinhos, como suporte financeiro para o projeto deles."

Hoje, diz Willian, a Baluarte é mais que um projeto social - sendo reconhecida pelo governo da Angola como uma escola - e presta assistência para cerca de 400 crianças.

Em 2019, o jogador foi com a esposa e com Raphael Veiga, então companheiro de Palmeiras, conhecer o trabalho realizado na Angola e 300 "filhos", como diz ele, atendidos pela ONG.

A gente chega lá achando que vai levar muita coisa, mas na verdade, você que traz muito aprendizado. Foi muito especial porque a gente ouvia há dois anos de todo o fruto que estava acontecendo dentro da Baluarte, de transformação, de crescimento, de expansão... Mas quando você vai pessoalmente, vê toda a estrutura, as pessoas envolvidas, as crianças, o sorriso.... E eles veem você como uma esperança. Foi muito gostoso ter esse contato com eles. Foram dez dias muito intensos. A gente pôde ver nossos 300 filhos - agora mais - aproveitando essa oportunidade. A gente sabe que tudo aquilo que estamos plantando é num terreno fértil, onde pessoas estão tendo a vida transformada.Para a gente foi nossa maior recompensa poder ouvir das crianças que hoje eles têm esperança em ser alguém na vida." Willian Bigode