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Como é subir um dos prédios mais altos do Brasil correndo pelas escadas

Felipe Pereira

Do UOL, em São Paulo

17/12/2018 04h00

Eu achava que não existia ser humano no planeta que treina para corridas em escadas. Graças ao jornalismo, descobri que há vários e muitos deles estavam no centro de São Paulo neste domingo. Éramos 251 pessoas dispostas a subir os 26 andares do Farol Santander, prédio que durante décadas foi mais altos do Brasil, no menor tempo possível.

O prédio em art decó tem 161 metros de lindeza, mas antes da largada ninguém presta muita atenção nestas coisas. As conversas dos outros participantes reverberavam meus pensamentos: como será que vai ser correr 578 degraus?

Não conheço ninguém no local, mas todos têm aquele jeitão de corredores. Coxas riscadas por centenas de quilômetros percorridos e muito agachamento. Também parece que eles possuem uma válvula no dedão do pé e alguém bombeou ar para deixar as panturrilhas tão redondinhas.

Atletas largam na corrida que sobe as escadas do Farol Santander - Reprodução Instagram - Reprodução Instagram
Imagem: Reprodução Instagram

Minha bateria é chamada e um cara faz alongamentos acrobáticos. Depois, deita no chão com os olhos fechados como quem busca um estágio supremo de concentração. Acho exagerado. Parece um piloto de Fórmula 1 sentado no cockpit antes da largada. 

Depois, descubro que ele é ultramaratonista. Mero jornalista que foi escalado para fazer a matéria porque está treinando para São Silvestre, penso que sou um peixe fora d'água. Ligam o microfone.

Como vivi a prova

Briefing: "Poupem fôlego que o prédio é alto. As largadas são em duplas com intervalos entre vocês. A batalha é contra o relógio, não com a pessoa que larga ao seu lado".

Mas quem tem o bichinho da competição na alma quer chegar antes. Superar o cara com traços orientais que estava ao meu lado seria o primeiro passo para um tempo e uma posição de respeito.

Homem faz contagem regressiva para largada - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Imagem: Felipe Pereira

Largada: Vou sair queimando e já deixo o "rival" para trás. Se eu cansar e ele chegar perto, faço das tripas pulmão para ficar a frente.

1º andar: Abri uns três metros. Agora concentra nos degraus. Aproveita o corrimão à direita, as curvas são para este lado, para dar impulso com o braço e poupar as pernas.

3º andar: Para de contar os andares e se concentra na execução. Cada passo está vencendo três degraus, mantém isso aí.

7º andar: Copo meio cheio. Já passei as duas pessoas que largaram antes e nem sinal do cidadão que começou a corrida ao meu lado. A respiração tá começando a faltar e ainda nem cheguei a um terço da prova. Alerta amarelo.

10º andar: O moço gritou que era o décimo andar (havia uma pessoa da organização em cada andar). Eu estava muito preocupado procurando ar e não sabia quanto faltava para acabar. Descubro que está muito cedo para começar a fazer das tripas pulmão.

15º andar: "Força, força, força", incentiva a mocinha da organização. Palavras bonitas, mas não têm mais como insistir em três degraus por vez. Vai ser de dois em dois de agora em diante.

17º andar: As pernas cansaram e fiz tanta força com o braço direito puxando o corrimão que ele cansou. Vou pelo outro lado um pouco. Mas fazer de degrau em degrau nem pensar.

20º andar: "Não desiste", grita o moço da organização. Diminuir a amplitude da passada fez as pernas melhorarem. Programo um sprint para os três últimos andares. 

23º andar: Pernas pra que te quero. Bora correr.

25º andar: Olho a frente e o último lance de escada é mais que duplo. Parece que tem o triplo de degraus. Socorro. Cabeça vira uma metralhadora de palavrões mentais.

26º andar: A chegada está ali..."beep". Tempo registrado. Minhas pernas gritavam "acabôôôô, acabôôôô", igual Galvão Bueno em 1994.

Vista do Farol Santander - Felipe Pereira - Felipe Pereira
Imagem: Felipe Pereira

A tentação de sentar em uma daquelas cadeiras estofadas e macias era enorme. Mas ensinaram que a gente precisa caminhar um pouco por causa da desaceleração do coração. Enquanto fazia isso, eu olhava para o chão porque a impressão era de que o pulmão havia saltado pela boca.

Lembrei de travar o cronômetro do relógio e vi que passava dos seis minutos. Minha cabeça ficou imaginando qual seria meu tempo, meu corpo, concentrado em beber um copão de água gelada. Depois, fui ao mirante ver a vista de São Paulo e um bando de gente tirava fotos que enfeitaram seus perfis no Instagram.

Sento e penso na subida. A corrida realmente é legal pelo inusitado. A prova fecha o circuito Santander Track&Field de 2018 e me rendeu uma "medalhinha". Ela ficará na redação junto à de primeiro lugar do campeonato de pebolim do UOL Esporte. Mais tarde, meu celular apita, chegou meu tempo: 4min45s - o vencedor geral fez em 2min54s. Fui o 32º no quadro geral e 2º na minha bateria. Nada mal para um estreante. :)

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