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"Vem me secar, não". Ítalo Ferreira conta como venceu Kelly Slater

O surfista Ítalo Ferreira desembarca no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, após ganhar o título do Mundial de Surfe - Leo Franco/AgNews
O surfista Ítalo Ferreira desembarca no Aeroporto Internacional de São Paulo, em Guarulhos, após ganhar o título do Mundial de Surfe Imagem: Leo Franco/AgNews

Talyta Vespa

Do UOL, em São Paulo

22/12/2019 12h36

Ítalo Ferreira desembarcou em São Paulo neste domingo (22) para participar de um evento produzido pela WSL na Japan House, na Avenida Paulista. Durante entrevista coletiva, o surfista, campeão mundial de surfe, se emocionou ao lembrar da avó, que morreu neste ano, fez a plateia cair na risada e revelou a técnica que utilizou para bater Kelly Slater, na semifinal do Billabong Pipe Masters.

"Quando venci o Yago [Dora], o que nunca tinha acontecido antes, encontrei o Kelly na final [no caso, na semifinal]. Um colega de trabalho me contou que ele gosta de colocar pressão, falar contigo na água, bater nas costas para te deixar nervoso, sabe? Então, eu entrei na água e já saí correndo dele, fugi mesmo. Antes, ele veio até mim e me desejou boa sorte; eu só agradeci e já saí de perto. Vem me secar, não", ri Ítalo.

"Ele e o Gabriel [Medina] tentam te empurrar nas ondas e te tirar do pico. Então, mantive o foco para não cair nesse jogo nem deixar que isso acontecesse". Ítalo comenta que evita analisar com quem vai competir em cada bateria. Para ele, a estratégia é focar no próprio desempenho. "O esporte é individual. Treino para ter a melhor performance dentro da água. Gabriel é um atleta muito competitivo. Até no futebol de mesa ele briga para ganhar e, por isso, virou ídolo internacional. Ele faz de tudo para vencer. Eu prefiro, às vezes, não jogar o jogo, mas me preocupar com meu melhor. As pessoas me perguntavam: 'Com quem você está na bateria?', e eu não sabia. Se estivesse preocupado comigo, apenas, poderia vencer qualquer um".

O preparo de Ítalo começou em janeiro deste ano. No ano que vem, ano de Olimpíada, ele conta, vai, de novo, treinar enquanto seus rivais se divertem. "Aí, estarei pronto antes deles", brinca. Ao Havaí, ele chegou um mês antes da competição. Passou as quatro semanas treinando em Pipe, dessa vez, com o apoio e carinho dos amigos e da namorada. "Nos outros anos, desculpa falar, era um saco [ir para o Havaí]. Eu ia disputar com os caras, ficava cinco horas na água... Dessa vez, foi diferente. Estava com as pessoas que eu gostava. Quando os atletas locais conversavam comigo, eu sentia uma energia muito boa. Um deles orou comigo pela minha avó, colocou um colar de flores no meu pescoço e pediu que eu surfasse uma onda por ela. Foi diferente", diz.

O surfista estará nas Olimpíadas de Tóquio e, garante, a ansiedade já bateu à porta. "Não vejo a hora de voltar para casa, para comemorar, claro, mas também para treinar. Quero sempre melhorar. No Japão, não tem tanta onda, então preciso me preparar para tudo o que pode acontecer. Vai ser legal. E mata-mata é sempre mais divertido, né? E vou competir com os caras mais sinistros, vai ser porrada até o final".

Medina estará ao lado do atleta em Tóquio, e ele já prevê o pódio. "O ouro é meu e o Gabriel (Medina) fica com a prata. Queria muito que o Filipe [Toledo] estivesse com a gente, aí ia ser ouro, prata e bronze", ri. "Essa galera mudou o cenário do surfe no Brasil. Antes, era considerado um esporte de maloqueiro. Agora, os pais levam os filhos para a água, filmam, chegam em casa e passam o vídeo na televisão pra dar dicas. É demais".

O ano de Ítalo

Perdas familiares, lesões, altos e baixos. É assim que o surfista analisa o ano de 2019, fechado com chave de ouro pelas conquistas. "As lesões me deixaram inseguro, teve muita coisa envolvida nesse ano. Perdi minha avó, que sonhava em me ver campeão mundial. Mas sei que o assento em que ela está sentada proporciona visão privilegiada de tudo isso. Quando o Gabriel caiu na onda dele, eu entrei na minha pensando nela", conta.

"Perdi, também, meu tio. Minha avó morava comigo e com meus pais, e, meu tio, na casa da frente. Éramos muito próximos. Foi um ano difícil para a minha família. Hoje, a gente pode sorrir de novo. Quando estava no mar, olhei para a praia e vi tanta gente gritando e torcendo por mim, que senti uma força muito grande. Eu não podia decepcionar aquela galera".

Um começo difícil

Ítalo relembra as dificuldades financeiras que enfrentou, junto aos pais, quando começou a surfar, lá em Baía Formosa, no Rio Grande do Norte. "Eu pedia dinheiro no supermercado e em casas para competir nos estaduais. Quando não conseguia, meu pai dava um jeito de vender mais peixes para que eu conseguisse. Me lembro de uma vez que fui até uma pousada e pedi dinheiro ao dono para competir. Só faltava a inscrição. Ele gritou comigo dizendo que não tinha, e que era absurdo que eu fosse pedir dinheiro a ele 'naquela hora da noite'. Voltei chorando para casa e meu pai, como sempre, deu um os pulos dele e eu competi. E ganhei".

"Em alguns sites e canais de surfe, eu era considerado 'apagado'. Até agradeço a eles, já que isso me motivou. Em Portugal, quando cheguei, havia dois caras na briga e um deles podia ser campeão antecipado. Um desses sites colocou esse cara como campeão antes mesmo de a gente competir. Eu estava assistindo a esse vídeo em casa e, quando vi isso, fiquei muito puto e joguei meu telefone na parede, destrocei o telefone", ri. "Mas me deu ainda mais gás para conseguir esse campeonato".

Dor nas costas

Sobre como conciliar o circuito à Olimpíada, Ítalo garante que está preparado, mas que as longas viagens desgastam fisicamente. "Tô acostumado a viajar e ficar fora de casa, longe do bauru da esquina. Vai ser um ano de correria, mas vai ser incrível. O problema é o desgaste físico, mas tenho uma equipe incrível que me ajuda. Tô com muita dor na coluna porque vim de classe econômica para São Paulo, tentei colocar na executiva, mas não deu certo", ri.

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