O primeiro campeão do Brasil

A história do Bahia, vencedor da Taça Brasil de 1959 contra Pelé, e a unificação dos títulos brasileiros

Marcello de Vico e Rodolfo Rodrigues Colaboração para o UOL, em São Paulo Bahia, Esporte Clube da Felicidade - Nestor Mendes Jr.

Parar o Santos de Coutinho, Pelé e Pepe nas décadas de 50 e 60 não era uma missão das mais fáceis. Foram poucos os times que conseguiram tal proeza. Um deles foi o Bahia. Há 60 anos, no dia 29 de março de 1960, o tricolor venceu o jogo extra da decisão da Taça Brasil contra o Peixe, por 3 a 1, no Maracanã.

O título é importante não só por ser a primeira conquista nacional do clube baiano. É a primeira conquista nacional de um clube de futebol. A Taça Brasil de 1959 (que teve sua final disputada em 1960) foi a primeira disputa de âmbito nacional organizada no futebol brasileiro.

Para comemorar esse título, o UOL Esporte relembra a história dessa conquista (incluindo uma bebedeira que resultou em goleada e o técnico campeão com um só jogo), conta a história dos campeonatos nacionais de futebol e a polêmica unificação dos títulos nacionais para mostra um ranking inédito: quem será o time que mais pontos somou na história dos Campeonatos Brasileiros unificados?

Bahia, Esporte Clube da Felicidade - Nestor Mendes Jr.
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O título do Bahia

A Taça Brasil de 1959 reuniu os 15 campeões estaduais, além do campeão do Distrito Federal, na época o Rio de Janeiro. Por falta de datas, a competição terminou apenas no ano seguinte, quando o Bahia venceu o Santos por 3 a 1 no Maracanã em jogo desempate.

Aquele foi o terceiro duelo do confronto. O primeiro jogo tinha sido no litoral paulista, em 10 de dezembro; e não é que o time baiano levou a melhor em plena Vila Belmiro? Os gols de Coutinho e Pepe e a presença de Pelé e Dorval não foram suficientes para superar a cascuda equipe baiana, que venceu por 3 a 2 com tentos de Biriba e Alencar (2).

Vinte dias depois, Bahia e Santos voltaram a se enfrentar em Salvador. De acordo com o regulamento da competição, bastava ao time tricolor um empate para levantar a taça. Mas um tal de Pelé estava 'naqueles' dias e, junto com Coutinho, adiou o título dos anfitriões: 2 a 0 Santos, com um gol de cada.

O campeão seria então decidido em um terceiro jogo, a ser disputado no lendário estádio do Maracanã, mas só três meses depois, uma vez que o Santos partiu em excursão pela Europa. "O Bahia costumava jogar bem lá [Maracanã]", contou ao UOL Esporte o jornalista e radialista Antônio Matos, autor do livro "Heróis de 59", obra dedicada ao título lançada no ano passado.

Sem Pelé, que não entrou em campo por conta de uma operação de amígdalas, o Peixe até saiu na frente, com gol de Coutinho, mas o dia era mesmo do Esquadrão. Vicente, Léo e Alencar viraram o placar. "Eu até vi o Pepe dizer depois, em uma entrevista: 'ninguém ganharia do Bahia naquele dia'", acrescentou o jornalista que, apesar de torcedor do Ypiranga-BA, encantou-se com o futebol apresentado pelo Bahia — pentacampeão estadual entre 1958 e 1962 — na época.

Bahia, Esporte Clube da Felicidade - Nestor Mendes Jr.

Campanha teve goleada por bebedeira

Ao olhar os resultados dos jogos do Bahia ao longo do torneio, você pode estranhar um fato: o campeão da Taça Brasil levou um sonoro 6 a 0 do Sport no segundo jogo das quartas de final. Foi a maior derrota de uma equipe naquela edição da competição. Mas, segundo Antônio Melo, a goleada tem, de certa forma, uma explicação.

"Naquela época eles [jogadores em geral] bebiam muito, fumavam... O voo para Recife atrasou e o aeroporto de antes não era que nem o de hoje, né, que parece um shopping... Então, eles ficaram lá perto, tomando, encheram a cara. Chegaram quase em cima da partida, e foram jogar moídos".

E uma explicação: antes daquela partida, o Bahia tinha feito seis jogos e estava invicto no torneio. Passou por CSA com duas vitórias (5 a 0 e 2 a 0), precisou de três jogos contra o Ceará (depois de dois empates, 0 a 0 e 2 a 2, venceu o desempate por 2 a 1) e tinha batido o Sport 3 a 2 no jogo de ida daquele duelo — sorte dos baianos que, naquela época, o empate era definido no jogo extra (2 a 0 sobre o Sport), não no saldo de gols...

A segunda derrota do time veio na fase seguinte, contra o Vasco, no Rio de Janeiro: 2 a 1, após 1 a 0 no jogo de ida — o desempate terminou 1 a 0 para o Bahia.

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Volante, o técnico campeão com um jogo

Outro fato curioso da campanha estava no banco de reservas. O time foi dirigido pelo técnico Geninho (Efigênio Bahiense) durante as 13 partidas do time em 1959. Mas, na final, o técnico foi o argentino Carlos Volante — que, quando jogador, defendeu o Flamengo (foto) e deu nome à função de primeiro homem do meio-campo no futebol brasileiro.

A história é controversa. "A explicação oficial é que Geninho era funcionário público, da polícia, e não vivia exclusivamente da carreira. Ele acumulava e treinava, ficava 'numa perna lá e numa perna cá', e aí foi requisitado pela sua repartição. Eu não acredito nisso. Acredito que foi uma história de dinheiro, que eles [técnico e diretoria] não se acertaram em termos de grana. Não tem sentido. Você está com o vice-campeonato garantido, vai jogar contra aquele Santos. Qual é o sentido de não participar? Ninguém abriria mão facilmente de disputar uma final de Brasileiro, e contra o Santos", conta Nestor Mendes Jr., jornalista e autor do livro "Bahia Esporte Clube da Felicidade - 70 anos de glórias", de 2001, que conta toda a história do clube em 70 anos.

"[Carlos] Volante, então, pega um time em cima da hora, ganha, e depois continua, participa da Libertadores. Volante era muito respeitado na Bahia por tirar o Vitória da seca histórica [com o Campeonato Baiano de 1953]", completa Mendes Jr.

Volante ficou mais quatro meses à frente do Bahia, antes de ser demitido em uma excursão internacional. O único jogo na Taça Brasil, porém, o transformou no único técnico estrangeiro campeão nacional por 59 anos — feito igualado em 2019 pelo português Jorge Jesus com o Flamengo.

Mas o que era a Taça Brasil?

A Taça Brasil foi um torneio criado para dar vaga aos clubes brasileiros na Copa Libertadores do ano subsequente. Valia, também, o status de campeão brasileiro. Ainda assim, nunca foi a competição favorita de clubes, torcedores e até da imprensa, que dividiam suas atenções com outros campeonatos, principalmente no eixo Rio-São Paulo, onde a prioridade eram os estaduais e até o Torneio Rio-São Paulo, embrião do Robertão.

Não que ela tenha sido um fracasso. Em sua primeira edição, teve uma média de público de 10.360 torcedores por jogo em 36 partidas. Pode não parecer muito, mas no Paulistão, o campeonato mais importante daquela época, teve média de 5.875 pessoas nas arquibancadas na edição daquele ano. Disputada no sistema de mata-matas, dava aos campeões paulista e carioca vaga direta na semifinal. Um privilégio aos clubes dos dois estados com as competições mais fortes do país.

Realizada até 1968, a Taça Brasil perdeu força em suas últimas duas edições, quando foi realizada paralelamente com outra competição nacional, o então recém-criado Torneio Roberto Gomes Pedrosa, conhecido também como Taça de Prata ou Robertão.

Taça Brasil é um Brasileirão ou não?

A resposta é complexa. E, para isso, é necessário mergulhar na história do futebol brasileiro. A primeira competição oficial do país foi disputada em 1902: o Campeonato Paulista. Desde então, outros estaduais passaram a ser realizados. Por sua enorme dimensão e grande dificuldade de locomoção nas primeiras décadas de popularização do esporte, o Brasil nem poderia cogitar a criação de um campeonato nacional nos moldes que eram realizados na Europa desde o fim do século XIX.

Em 1922, a CBD até criou o Campeonato Brasileiro de Futebol, mas sem clubes. Quem disputava eram as seleções estaduais, que reuniam os principais jogadores de cada estado. Forte na era do amadorismo, o torneio seguiu com a chegada do profissionalismo e até 1944 foi disputado quase que ininterruptamente (não houve edição em 1932 e 1937). Na década de 1950, com a disputa do Torneio Rio-São Paulo, que contava com os principais times dos dois estados, ele perdeu força e foi realizado apenas em 1952, 1954, 1956 e 1959.

Nessa época, após a realização da Copa do Mundo de 1950 no Brasil, a CBD se reuniu com a Uefa e a Fifa para discutir a criação do torneio mundial de futebol interclubes nos mesmos moldes, com 16 clubes. Devido às dificuldades em trazer clubes europeus para a América do Sul, o torneio, que seria realizado em 1951, foi reduzido para oito clubes. O Brasil, que organizaria a competição no Rio de Janeiro, não contava com um campeão nacional, já que não existia um campeonato brasileiro na época. Assim, entrariam na disputa os campeões do Rio (Vasco) e de São Paulo (Palmeiras), além do campeão português (pelos laços afetivos com o Brasil) e cinco clubes dos países mais bem colocados na Copa do Mundo de 1950 (Uruguai, Espanha, Inglaterra, Suécia e Itália).

Acervo Folhapress

Até a Copa Rio-1951 entra na discussão

Com a recusa dos times de Espanha, Inglaterra e Suécia, foram convidados equipes de Áustria, França e Iugoslávia. Com o apoio da prefeitura do Rio de Janeiro, a competição, organizada pela CBD (e não pela Fifa), ganhou o nome de Copa Rio e acabou vencida pelo Palmeiras.

Em 1952, o torneio foi novamente realizado, conquistado pelo Fluminense, que bateu o Corinthians na decisão. Após a disputa, a CBD definiu que o torneio seria disputado de quatro em quatro anos e que sua próxima edição seria em 1956. Para isso, no entanto, a entidade queria que o representante do país fosse o campeão brasileiro. Assim, solicitou junto à Fifa, em 1952, a criação de um campeonato nacional, que teria sua primeira edição em 1955. Com certo atraso, já que os países da América do Sul já contavam com campeonatos nacionais em seus países.

Assim, em 1955, após o primeiro Congresso do Futebol Brasileiro, organizado pela CBD, em Belo Horizonte, no mês de setembro, ficou definido que o Campeonato Brasileiro de Clubes teria em disputa a Taça Brasil para se conhecer o campeão nacional. A competição, porém, não foi realizada naquele ano. E nem nos próximos: o calendário do futebol brasileiro já estava definido para o triênio 1956/57/58, até a disputa da Copa do Mundo da Suécia. Por isso, só em 1959 o Brasil teve seu primeiro Campeonato Brasileiro.

Mas e a classificação para a Copa Rio? Bom, em 1956, o torneio mundial acabou sendo cancelado e, por isso, não havia a necessidade de se conhecer um campeão nacional. Essa só apareceu em 1958, quando o brasileiro José Ramos de Freitas, então presidente da Conmebol, sugeriu a criação de um campeonato sul-americano de clubes campeões. Em 5 de março de 1959, no 30º Congresso da Conmebol, em Buenos Aires, que entidade anunciou para 1960 a primeira edição da Copa dos Campeões da América (que passou a ser chamada de Copa Libertadores a partir de 1966), exigindo a presença do campeão brasileiro do ano anterior (1959).

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Cruzeiro de Tostão é responsável pela polêmica dos títulos unificados

Após a conquista do Bahia, a Taça Brasil teve domínio Paulista, com um título do Palmeiras (1960) e cinco do Santos (1961 a 1965). O segundo campeão de outro estado veio em 1966, quando o Cruzeiro, de Tostão, venceu o Santos de Pelé (com direito a uma goleada de 6 a 2). E foi aí que começou a polêmica das unificações dos títulos brasileiros que vivemos atualmente.

A comprovação da força de um clube de fora do eixo Rio-São Paulo foi determinante para a ampliação do Torneio Rio-São Paulo — cujo nome oficial era Torneio Roberto Gomes Pedrosa. Em 1967, o torneio, que contava com 12 clubes de apenas dois estados, ganhou a presença de representantes de Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraná, ganhando status de competição nacional e virando, então, o embrião do Campeonato Brasileiro de 1971.

Mantendo o nome Roberto Gomes Pedrosa, ou Robertão, o campeonato contou com a presença de Corinthians e São Paulo pela primeira vez num torneio nacional e foi um sucesso de público. Aproveitando isso, a CBD passou a organizar o torneio em 1968, rebatizando-o de Taça de Prata, com representantes, também, da Bahia e de Pernambuco. A Taça Brasil daquele ano, então, perdeu o interesse e, sem datas para ser realizada, foi extinta um ano depois, em outubro de 1969.

Entre 1969 e 1970, a principal competição era a Taça de Prata (ainda chamada de Robertão). Em 1971, após reuniões de dirigentes e clubes, definiu-se a criação do primeiro Campeonato Nacional de Clubes, com 20 times.

Só em 1989, a CBF voltou a criar uma competição semelhante à Taça Brasil, com os campeões estaduais. É a Copa do Brasil, que viria a ser a segunda competição mais importante do calendário nacional, depois do Campeonato Brasileiro.

A polêmica, porém, começa em 2010, quando a CBF usou um dossiê elaborado pelo jornalista Odir Cunha para unificar os títulos das três competições (Taça Brasil, Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata e Campeonato Brasileiro). As diferentes fórmulas de disputa entre os dois campeonatos, a importância na época, a ausência dos grandes clubes do país e a pouca quantidade de jogos que os times campeões da Taça Brasil faziam para chegar ao título (quatro ou cinco algumas vezes) foram os principais pontos de discórdia apontados por imprensa e torcedores contra a unificação. Por outro lado, por ter sido o único torneio nacional da época e por levar o campeão à Libertadores, a Taça Brasil teria todo o direito de ser considerada o campeonato brasileiro da época.

Vale ressaltar que, na época, desafetos do então presidente da CBF, Ricardo Teixeira, garantiram que o anúncio da polêmica decisão de unificar os títulos nacionais foi apenas para tirar o foco das recentes denúncias de corrupção feitas contra ele.

Campeões nacionais

Taça Brasil (1959-1968)

  • 5 Santos (1961, 1962, 1963, 1964 e 1965)
  • 2 Palmeiras (1960 e 1967)
  • 1 Bahia (1959)
  • 1 Botafogo (1968)
  • 1 Cruzeiro (1966)

Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata (1967-1970)

  • 2 Palmeiras (1967 e 1969)
  • 1 Fluminense (1970)
  • 1 Santos (1968)

Campeonato Brasileiro (1971-2019)

  • 7 Corinthians (1990, 1998, 1999, 2005, 2011, 2015 e 2017)
  • 7 Flamengo (1980, 1982, 1983, 1987, 1992, 2009 e 2019)
  • 6 Palmeiras (1972, 1973, 1993, 1994, 2016 e 2018)
  • 6 São Paulo (1977, 1986, 1991, 2006, 2007 e 2008)
  • 4 Vasco (1974, 1989, 1997 e 2000)
  • 3 Cruzeiro (2003, 2013 e 2014)
  • 3 Fluminense (1984, 2010 e 2012)
  • 3 Internacional (1975, 1976, 1979)
  • 2 Grêmio (1981 e 1996)
  • 2 Santos (2002 e 2004)
  • 1 Bahia (1988)
  • 1 Botafogo (1995)
  • 1 Athletico-PR (2001)
  • 1 Atlético-MG (1971)
  • 1 Coritiba (1985)
  • 1 Guarani (1978)
  • 1 Sport (1987)

Copa do Brasil (1989-2019)

  • 6 Cruzeiro (1993, 1996, 2000, 2003, 2017 e 2018)
  • 5 Grêmio (1989, 1994, 1997, 2001 e 2016)
  • 3 Corinthians (1995, 2002 e 2009)
  • 3 Flamengo (1990, 2006 e 2013)
  • 3 Palmeiras (1998, 2012, 2015)
  • 1 Athletico-PR (2019)
  • 1 Atlético-MG (2014)
  • 1 Criciúma (1991)
  • 1 Fluminense (2007)
  • 1 Internacional (1992)
  • 1 Juventude (1999)
  • 1 Paulista (2005)
  • 1 Santo André (2004)
  • 1 Santos (2010)
  • 1 Vasco (2011)
  • 1 Sport (2008)

O que dizem jornalistas e historiadores

Juca Kfouri

"A Taça Brasil era fantástica, mas não era o Campeonato Brasileiro. Ou alguém acha que o campeão do Piauí era melhor que o vice-campeão paulista?"

Paulo Vinícius Coelho

"Eu sempre fui contra a unificação dos títulos. Havia diversas maneiras de unificar ou não unificar como eu defendia. Você poderia unificar desde o Rio-São Paulo, por exemplo. Porque embora regional, o Torneio se chamava Roberto Gomes Pedrosa e o Robertão (desde 1967), se chamava Roberto Gomes Pedrosa grande, ampliado para ter times da Bahia, Paraná, Rio Grande do Sul e Pernambuco. Você poderia unificar só o Robertão, como muita gente defende. Você poderia unificar Taça Brasil com a Copa do Brasil. Mas você poderia unificar Taça Brasil com o Campeonato Brasileiro porque na época se chamava de campeão brasileiro. Eu não acho que isso é um problema.

O problema é essa ideologização de tudo. Hoje, após esses dez anos de Brasileirão unificado, eu acho que temos que padronizar. Não importa a minha opinião. Importa como está se chamando. De certa maneira, serviu para mais gente conhecer mais uma parte da história do futebol brasileiro que era mais desconhecida, que era a história da Taça Brasil e do Robertão. Eu sempre fui contra a unificação. Hoje, unificado, eu acho que temos que contar a história de um jeito só."

Mauro Beting

"Não havia como fazer um campeonato verdadeiramente nacional quando a Taça Brasil foi criada em 1959. O melhor seria fazer o que a CBD fez até 1966: torneio eliminatório regionalizado. Questionável a salvaguarda aos clubes de Rio e São Paulo que quase sempre entravam no torneio na fase semifinal. Mas era muito provável que o Santos de Pelé fizesse o que fez no penta. Levasse tudo pra Vila.

De modo simplista, a Taça Brasil é a mãe da Copa do Brasil. O Robertão, a partir de 1967, o pai do Brasileirão. Muito justo que o Robertão se equipare ao Brasileiro, com a mesma importância esportiva e histórica, e com dificuldade maior do que muitos Brasileiros desde 1971. Não apenas pela qualidade dos atletas e times, e também pelo fato de que todas as equipes se enfrentavam (em alguns campeonatos a partir de 1971, campeões enfrentaram no máximo outros quatro grandes).

Mas há como discutir se a Taça Brasil é mesmo o Brasileirão. Claro que era o único torneio nacional até 1966. O que indicava os representantes do Brasil para a Libertadores, a partir de 1960. O que foi disputado pelos campeões mundiais de 1958 e 1962.

Mas não precisa ser equiparado ao Brasileiro para se dar o valor devido. Eu, se dirigente da CBD, não teria unificado os títulos. Eles já são muito importantes. Eles se bastam.

Se fosse forçado, apenas iria equiparar o Robertão. Não a Taça Brasil. Mas como a entidade é o cartório, cumpra-se.

E quem desdenhar que estude e respeite a história. Não são títulos por fax. São fatos. São feitos com voltas olímpicas. Não foram canetadas de cartório. São apenas caneladas dos que desdenham porque não entendem nem desenhando. Ou porque se acham superiores aos fatos.

A Taça Brasil é tão importante que não precisa ser equiparada ao Brasileirão. Ela se basta. Pena que bestas desprezem a era de ouro do futebol brasileiro. Por ignorância, colunismo ou bairrismo."

Mauro Cezar Pereira

"A Taça Brasil teve temporadas em que o campeão disputou apenas quatro jogos. Evidentemente isso aí não é nem uma Copa do Brasil. Muito menos um Campeonato Brasileiro de pontos corridos ou grupos e mata-matas. Então jamais poderia se considerar como título brasileiro um torneio tão curto, que é um embrião da Copa do Brasil. Eu defendo essa tese. Taça Brasil igual a Copa do Brasil e Robertão igual ao Campeonato Brasileiro. Esse sim é possível aceitar, embora nem todos os estados tivessem representantes, mas tínhamos ali o principal do futebol brasileiro. Não era como o Rio-São Paulo. Já tinham times de outros estados participando. Acho que Taça Brasil é um Copa do Brasil. Não dá para chamar mais do que isso. E a forma como isso foi unificado foi extremamente política, numa canetada de Ricardo Teixeira. Então como é que eu posso levar a sério uma canetada de Ricardo Teixeira? Mas, enfim, isso para mim é pouco relevante. É como discutir que o Sport é o campeão brasileiro de 1987 e não o Flamengo."

Fernando Galuppo (historiador do Palmeiras)

"A Taça Brasil nasce com o objetivo da Confederação Brasileira de Desportos (CBD) ter uma competição que definiria o clube campeão brasileiro, já que até então não havia algo similar em nosso território, sendo que a partir de 1959, havia também a necessidade do país indicar o seu representante para a disputa da recém-criada Copa Libertadores da América, pela Conmebol, seguindo os moldes adotados pela Uefa quando da criação da Liga dos Campeões da Europa, no mesmo período.

O critério de disputa era eliminatório, com divisões do país em regiões e o direito dos campeões paulistas e cariocas iniciarem o torneio a partir das fases semifinais. Essa fórmula inicial foi estabelecida muito por conta das características do Brasil ter uma dimensão continental e a locomoção e logística para a realização das partidas serem precárias.

A competição contou desde o seu início com os campeões estaduais de no mínimo 16 Estados da Federação, teve ampla cobertura da imprensa, organização e chancela da principal entidade esportiva do país, envolvimento das principais Federações estaduais filiadas, legitimação do seu vencedor como campeão brasileiro e representante na principal competição continental, participação da maioria dos atletas que foram tricampeões mundiais com a seleção brasileira entre 1958 e 1970, alto nível técnico, continuidade por quase uma década, predecessora e embrião da Taça de Prata a partir de 1967.

Por tudo isso exposto, entendo que a Taça Brasil é o correspondente do passado ao atual campeonato brasileiro de futebol."

Celso Unzelte

"No caso específico da Taça Brasil, pelo menos entre 1959 e 1966, ainda dá pra argumentar que ela era a única disputa nacional de clubes, e que por isso, na falta de outro, seu campeão podia ser considerado, sim, o campeão máximo do país, até por exclusão. Mas o que dizer das Taças Brasil de 1967 e 1968, ganhas pelo Palmeiras e pelo Botafogo, quando já havia uma outra disputa mais próxima do que é um título brasileiro, no caso o Robertão, ganho em 1967 pelo próprio Palmeiras e em 1968 pelo Santos? Em 1968, inclusive, a Taça Brasil estava em franca decadência, tanto que só foi decidida entre Botafogo e Fortaleza no ano seguinte. Percebe como, ao unificar tudo, andaram misturando banana com laranja? Por isso é que eu sou a favor de simplesmente dar às coisas os nomes que elas tinham nas suas respectivas épocas, até como uma forma de valorizar o que elas eram: Taça Brasil e Robertão são legítimos títulos nacionais. Mas, ao contrário do que a CBF oficializou, não eram títulos de campeão brasileiro."

Arnaldo Ribeiro

"Na minha opinião, a Taça Brasil não pode ser considerada um Brasileirão por alguns motivos. O principal é que a unificação de título ou coisa desse tipo na base da caneta não se sustenta. O segundo é que não tinha a alcunha de um Brasileirão, até a caneta do Ricardo Teixeira ter sido acionada por motivos políticos. O Brasileirão existe entre 1971 até agora 2020 e vamos ver saber ainda se vai ter essa edição de 2020. O resto são outros tipos de torneio. Assim como Taça Rio não é Mundial. Nenhum torneio nacional até 1971 merece a alcunha de Brasileirão. Nenhum deles."

Gian Oddi

"Creio que qualquer equiparação ou renomeação de títulos de futebol, sejam eles quais forem, é desnecessária. Porque a história e importância de cada título é imutável e depende mais do contexto da época do que do nome que você dá a ele. Ainda assim, alguns fazem mais sentido que outros: por exemplo, é impossível refutar que o Robertão era, sim, o equivalente ao Campeonato Brasileiro. Já quanto à Taça Brasil, acho bem mais discutível, não só porque ela talvez fizesse mais sentido se equiparada à Copa do Brasil, mas porque, mais que isso, é duro conceber a ideia de dois campeões brasileiros no mesmo ano".

Ivo Gonzalez / Agencia O Globo

O que diz o responsável pela unificação

Isso aí já foi exaustivamente debatido. Esse termo polêmico é usado por pessoas que são contrárias. O assunto foi discutindo e analisado por três departamentos da CBF, o técnico, o jurídico e o histórico. Eu não tinha nenhuma amizade com ninguém da CBF, ao contrário do que insinuaram. Aliás, sempre fui muito crítico aos dirigentes do futebol brasileiro. E, por uma luz divina, eles analisaram com carinho. A Taça Brasil era o formato da época possível para se definir o campeão brasileiro. A gente não pode cometer o anacronismo de olhar o passado com os olhos do presente. Senão, lá no futebol, daqui 20 ou 30 anos, os jornalistas do futuro vão dizer "como existia um campeão mundial que fazia um jogo só?". Casos de Flamengo, Grêmio e São Paulo. Então, você acharia normal que esses títulos, em que os clubes bordaram as estrelas nas camisas, fossem simplesmente anulados? Não, é claro. Foi jogado na época, valeu. O primeiro Campeonato Italiano, por exemplo, ainda no século XIX, foi jogado por três equipes, num campo só, com dimensões irregulares, num mesmo dia. Como se fosse um festival de várzea. O Genoa foi campeão e se você entrar lá no site da Federação Italiana, está lá ele como campeão. E nenhum clube se rebelou contra isso. Essa mania de se rebelar contra a história, pra mim, tem um grande clubismo por trás disso. Geralmente as pessoas que são contra, são torcedoras de clubes que não ganharam nada nesse período da Taça Brasil, como São Paulo, Corinthians, Vasco e Flamengo. Corinthians e São Paulo nem disputaram, porque não foram campeões e nem vices do Paulistão na época.

Não existe mais polêmica. O dossiê está lá e já foi referendado. Apesar de alguns cardeais da imprensa esportiva ironizarem, mas eles estão dentro desse quadro de torcedores fanáticos de times que não ganharam nada. Então, o historiador tem que ser coerente para ser justo. Vejamos hoje a Copa Libertadores. Seria justo, que um país como o Brasil, que tem treze times grandes, no mínimo, não tenha seus principais times todos os anos na Libertadores e que tenhamos sempre equipes bem fracas de países como Bolívia, Paraguai e Uruguai participando? Esse é o regulamento. Não é uma questão só de justiça. É questão de tornar a competição abrangente com representantes de cada país. A Taça Brasil foi muito abrangente, porque reuniu campeões estaduais do Brasil inteiro. Na primeira edição, o Brasil tinha 20 estados, contando o Distrito Federal, e tivemos 16 clubes na disputa e qualquer um deles poderia ter sido campeão. Hoje, na Série A do Brasileiro, temos representantes de oito ou nove estados. Mas há menos representatividade do ponto de vista nacional hoje do que houve na Taça Brasil. Então, se alguns clubes não participaram, é porque não se classificaram. E para se classificar, tinham que ter sido campeões estaduais, o que era muito difícil. Principalmente em alguns estados como São Paulo e Rio de Janeiro. Alguém vai negar que times como Santos e Palmeiras, que dominaram o futebol brasileiro nos anos 1960, ou Botafogo, no Rio de Janeiro, eram os melhores times do Brasil? Então, os melhores participaram. Tudo isso foi analisado com muito critério e felizmente os títulos foram reconhecidos. E hoje, temos campeões brasileiros desde 1959 e o Bahia foi o primeiro campeão. Essa pesquisa que fiz, me trouxe novas revelações sobre a Taça Brasil e o Roberto Gomes Pedrosa. Descobriu muitas coisas, como uma em que presidente da Conmebol na época, que era um brasileiro, entrou em contato com o presidente da Uefa, para a disputa de um título mundial, que começaria em 1960. Então, teríamos um representante da Libertadores, cujo nome na época era Copa dos Campeões da América, porque eram admitidos apenas os campeões de cada país. No Brasil, então, a fórmula que o João Havelange, então presidente da CBD, encontrou para a Taça Brasil foi a de jogos eliminatórios, pois não havia a possibilidade de termos uma competição de turno e returno. Os clubes eram pobres e não existia nem a estrutura de transporte. A ponte área Rio-São Paulo foi inaugurada em 1959, justamente ano da estreia da Taça Brasil. A maioria das estradas no país era de terra, nem tinha asfalto. Os clubes não tinham receita de publicidade nas camisa ou televisão. Recebias só arrecadação dos jogos. Seria uma competição deficitária. Não se pagaria. Foi realizada então uma competição eliminatória. Não era nenhuma novidade.

Se é Brasileirão ou Brasileirinho, isso não importa. A competição (Taça Brasil) foi criada para dar ao campeão o título brasileiro. É o que eu aprendi nessa pesquisa. Então, por exemplo, quando fiz essa pesquisa, fui consultado por representantes de outros clubes que tinham conquistado o torneio Rio-São Paulo. O próprio Santos tinha vencido cinco vezes o Rio-São Paulo. Então, se o Rio-São Paulo era a competição com o nível técnico mais forte do Brasil, por que o seu vencedor não poderia ter sido considerado campeão brasileiro? Ora, porque o Rio-São Paulo não foi criado para definir o campeão brasileiro. Seu objetivo era determinar o campeão do torneio Rio-São Paulo apenas. A Liga dos Campeões da Europa é o torneio com o maior nível técnico do mundo, mas não dá ao vencedor o título de campeão do mundo. Para ser campeão do mundo, ele precisa ganhar o Mundial de Clubes da Fifa. Talvez a Taça Brasil não fosse a competição mais forte ou com o melhor nível técnico, mas ela foi criada para definir o campeão brasileiro. Os clubes sabiam disso, estavam muito bem informados. Havia sim o interesse de ganhar a Taça Brasil. E o fato de jogar poucos jogos não é determinante. Não é o número de jogos que define a importância de uma competição. Já tivemos edições do Campeonato Paulista, como em 1978 ou 1979, com um número enorme de jogos, com três turnos. Mas não é isso que vai fazer ser melhor ou não. Então, sem o conhecimento da história ou sem entender o passado e as circunstâncias da época, as pessoas não deveriam dar palpite. Fica um achometro.

Odir Cunha

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