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"Pimentinha" superou depressão e ganhou 4 quilos para sonhar com Olimpíada

Larissa Pimenta, judoca do Brasil, no Grand Slam de Baku: ela conquistou o bronze na categoria até 52kg - IJF
Larissa Pimenta, judoca do Brasil, no Grand Slam de Baku: ela conquistou o bronze na categoria até 52kg Imagem: IJF

Rubens Lisboa

Colaboração para o UOL, em São Paulo

11/05/2019 04h00

Há alguns meses, o sonho de Larissa Pimenta era ir aos Jogos Olímpicos de Paris-2024 para cumprir um desejo de sua avó. Grande incentivadora da carreira da judoca, Dona Maria do Carmo morreu em 2015. A perda fez a judoca cair em depressão e o esporte foi uma das chaves da recuperação.

Hoje recuperada, ela ganhou quatro quilos. E foi justamente esse peso que ganhou que virou peça-chave no processo de aceleração do sonho olímpico da garota de 20 anos. Hoje, ela é uma das favoritas do Brasil para uma vaga nos Jogos de Tóquio, em 2020.

Em poucos meses de sua primeira temporada pela seleção brasileira adulta, Larissa conquistou sete medalhas, entre elas as duas mais importantes de sua carreira: o título do Campeonato Pan-Americano e o bronze no Grand Slam de Baku, no Azerbaijão, na última quinta-feira (9) - em que só foi superada pela japonesa Ai Shishime, campeã mundial de 2017.

A chave para isso está no peso. Desde o início do ano, ela compete na categoria meio-leve, para lutadoras até 52 kg - após ter começado a carreira na ligeiro, para quem compete com até 48 kg. A mudança, considerada crucial para os resultados obtidos, veio por uma falta de opções.

Plano adiantado em quatro anos

Larissa Pimenta com o ouro da categoria até 52kg no Campeonato Pan-Americano de 2019. À direita, Sarah Menezes - Rafal Burza/CBJ
Larissa Pimenta com o ouro da categoria até 52kg no Campeonato Pan-Americano de 2019. À direita, Sarah Menezes
Imagem: Rafal Burza/CBJ

A paulista era trabalhada pela Confederação Brasileira de Judô (CBJ) visando os Jogos de Paris, mas quando Erika Miranda, dona de quatro medalhas em mundiais, se aposentou (no fim de 2018) e Jéssica Pereira foi suspensa em janeiro por doping, o processo se acelerou. Os desfalques abriram espaço e Larissa que agarrou a oportunidade.

A primeira foi nos Grand Prix de Antália, na Turquia, e Tbilisi, na Geórgia, além do Pan-Americano em Lima, mesmo local onde acontecerão os Jogos Pan-Americanos deste ano. Na capital peruana, uma de suas vitórias ocorreu diante de Sarah Menezes, ouro em Londres-2012 nos ligeiros (até 48kg), com quem estava tirando fotos há alguns anos nos Jogos Escolares.

"Foi uma oportunidade que surgiu no momento certo para mim. A cada competição estou evoluindo, sentindo diferença desde quando comecei e acho que estou conseguindo aproveitar as oportunidades. É uma categoria em que o Brasil é muito forte, independentemente da atleta. Tem que aproveitar a oportunidade e é isso o que eu estou fazendo", afirma Larissa.

Acordo com irmã a manteve no judô

Larissa Pimenta em competição de luta olímpica (antes do acordo com irmã para que ela ficasse no judô) - Arquivo Pessoal
Larissa Pimenta em competição de luta olímpica (antes do acordo com irmã para que ela ficasse no judô)
Imagem: Arquivo Pessoal

Natural de São Vicente, no litoral paulista, ela se dividia entre o judô e a luta olímpica, esporte em que sua irmã, Letícia, é da seleção brasileira.

"Eu comecei com o judô e meu técnico era o mesmo da luta olímpica (Tharin Alves) e todos os atletas que passam pelo judô com ele fazem luta olímpica também. Eu cheguei a competir, lutei bastante e nunca tive derrotas, mas minha paixão mesmo era o judô", lembra Larissa.

O foco no judô ocorreu também quando passou a integrar a equipe do Esporte Clube Pinheiros, em São Paulo. Depois de terem se enfrentado na luta, Larissa e Letícia chegaram a um acordo para que elas não disputassem a mesma modalidade.

"Minha irmã fazia judô também, em seguida foi para a luta. A gente chegou até a competir juntas porque ela é só dois anos mais nova que eu. E daí a gente entrou em acordo: eu faço judô e ela faz luta olímpica", explica a jovem judoca.

Maior incentivadora era a avó

Larissa Pimenta e a campeã olímpica Sarah Menezes nos Jogos Escolares - Arquivo Pessoal
Larissa Pimenta e a campeã olímpica Sarah Menezes nos Jogos Escolares
Imagem: Arquivo Pessoal

Depois de optar por focar no judô, Larissa sofreu um baque: perdeu sua maior incentivadora, a avó Maria do Carmo, em 2015. O abalo a fez parar com o esporte, antes de passar por acompanhamento psicológico para retornar ao tatame.

"Passei uma época da minha vida bem difícil quando a perdi. Eu estava nos Jogos Escolares e foi bem difícil. Cheguei a parar de fazer judô porque a minha maior motivação era ela. Falava que um dia queria me ver na televisão, nos Jogos Olímpicos, e eu me inspirava, falava 'vou dar isso para ela', porque dinheiro não traz felicidade, não traz nada. Eu queria muito trazer isso para ela, de me ver na televisão, ela amava", conta.

"Depois passei por um processo de psicólogo e me ajudou bastante. Eu reverti a situação e me motivei mais. Hoje eu corro atrás dos meus objetivos porque eu sei que ela estaria feliz de eu estar onde eu estou. É difícil ainda, tem vezes que estou treinando, lembro dela e choro no meio do treino, sem ninguém ver, né. Mas eu levo isso como uma motivação", completa Larissa.

Uma marca da judoca é sua personalidade forte, que faz os mais próximos brincarem que seu sobrenome também serve como um apelido. Ela é chamada de Pimentinha, mas já não se incomoda e afirma que sua personalidade acaba ajudando no tatame.

"Estou acostumada, desde criança as pessoas brincam sobre isso. Depois de um tempo, eu fui aprendendo a reconhecer o que era ser a Pimenta, a Pimentinha que a galera fala. Sou muito competitiva, gosto de desafios. Todos os atletas gostam, mas só porque meu sobrenome é Pimenta, eles já colocam como apelido", afirma.

"Eu gosto que as pessoas me chamem assim, acho legal. E minha irmã também sofre com isso. A maioria dos elogios que eu ganho dos técnicos é sobre a minha personalidade. Quando eu saio de uma competição, eles falam 'você tem personalidade forte mesmo'. E isso me motiva bastante, eu acredito nisso, mas sempre com humildade, pés no chão e tranquila", completa.

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