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'Pega a mala e volta pro Rio': Marcelinho relembra seca contra o Palmeiras

Colaboração para o UOL, em São Paulo

27/04/2023 04h00Atualizada em 27/04/2023 08h51

Marcelinho Carioca estreou pelo Corinthians no início de 1994. Mas seu primeiro gol contra o Palmeiras só foi acontecer em abril de 1995.

Durante esse período de seca, Marcelinho teve boas atuações, anotou gols em clássicos contra São Paulo e Santos e foi se tornando cada vez mais importante na equipe.

"Mas a torcida chegou em um determinado momento e falou assim: 'Não adianta você entrar para a seleção, receber Bola de Prata, Bola de Ouro'. Se você não fizer gol nos caras, não adianta nada", contou o ex-jogador ao UOL, que conta essa história no documentário "Inimigos Íntimos", disponível no UOL Play.

Aí eu fiquei com a noção do que é um Corinthians x Palmeiras. Eu falei: 'Vocês estão doidos'. E responderam, 'Não tá doido não, mano. Se você não for campeão em cima dos caras, se você não fizer gol em cima dos caras, para a gente vai valer de nada. Você pega a mala e volta pro Rio'".
Marcelinho Carioca, ex-jogador do Corinthians

O Palmeiras sofreu com Marcelinho, que fez gols marcantes sobre o arquirrival, como na final do Paulista de 1995. Por outro lado, foi um pênalti perdido por ele diante de Marcos, ídolo palmeirense, que eliminou o Corinthians na semifinal da Copa Libertadores de 2000.

Afinal, [os jogadores de] Corinthians e Palmeiras [de 1999 e 2000] eram amigos fora de campo ou não?

Corinthians x Palmeiras, e não é incitando a violência, é tiro, porrada e bomba. É final de uma Copa do Mundo, não tem resenha, não tem conversinha antes do jogo. 'Ah, vamos jantar na segunda, porque tem jogo quarta, tem jogo, tem jogo final de semana', não existe essa porra, não. Não tem essa conversa. 'Aí, depois do jogo, nós vamos jantar'. Não tem esse fato. Depois, quando parou de jogar bola, aí, legal, existe amizade. Só que, no campo, eu posso estar jogando contra o meu pai, se tiver que parar a jogada, a bola vai passar, mas meu pai não vai passar, meu irmão não vai passar, meu filho não vai passar.

Você era um cara que todo mundo falava, em campo, 'ele vai decidir'. Principalmente em clássicos, né? Era sempre 'bota a bola nele'. Ou, então, aquela coisa de, 'no último minuto, ele vai bater uma falta, e vai ser gol'. Essa responsabilidade para você era diferente ou você não se importava?

Corinthians x Palmeiras era diferente de todos os clássicos. Você quer fazer lances memoráveis, antológicos, jogadas que ficassem marcadas. Você sabe que, no outro dia, vai ser o gol da rodada ou, à noite, vai ser o 'Gol do Fantástico'. É lógico que cada um busca isso e, nesse sentido, e em momentos decisivos, eu me preparava emocionalmente e psicologicamente. Eu gostava da cobrança do momento decisivo, porque aí você mostra que você realmente é uma ferramenta diferenciada.

Você levava numa boa a coisa de provocação, comemoração do adversário? Ou você lembra de, por exemplo, ficar muito puto, achar o Paulo Nunes muito folgado? Achar os caras entrarem de cabelo verde [na segunda final do Paulista de 1999] um negócio de sacanagem muito grande?

Principalmente nos clássicos, a gente já está tarimbado nesse sentido. E eu nunca fui de querer provocar a torcida adversária falando na semana, prometendo determinadas situações. Eu nunca fui folclórico. Eu provocava o adversário dentro de campo para poder levar determinadas vantagens, fazia parte do jogo. Você tem que falar com os pés. Então, as minhas palavras eram os pés. E quarta e sábado, ou quarto e domingo, era gol, era caixa, era isso que eu procurava fazer e quando me provocava a resposta era sempre dentro de campo

E você já tinha noção, na época, de que a gente ia estar falando desses Palmeiras e Corinthians [de 1999 e 2000] até hoje, de que se tratava de um momento especial? 'Tô vivendo algo aqui que vai ser difícil repetir'?

Não. Eu fui ter a noção do que era [o Dérbi] quando eu cheguei exatamente. Eu chego em São Paulo e pego um timaço no rival (Palmeiras) em 94, com dificuldade para vencer para empatar o jogo. Você vai no teatro, cinema, restaurante, escuta piada daqui, piada. O ano inteiro de 94 fazendo gol em cima do Santos, São Paulo, mas no Palmeiras. Aí, a torcida começou a cobrar. E sendo o melhor jogador do Campeonato Paulista, melhor jogador do Campeonato Brasileiro, convocado para seleção. E a torcida chegou determinado momento e falou assim, ó, não adianta você comprar pra seleção se cair a Bola de Prata bola de ouro, se você não fizer Gol nos caras, não adianta nada. Aí eu fiquei com a noção do que é um Corinthians x Palmeiras. Eu falei: 'Vocês estão doidos'. E responderam: 'Não tá doido não, mano. Se você não for campeão em cima dos caras, se você não fizer gol em cima dos caras, para a gente vai valer de nada. Você pega a mala e volta pro Rio'.

Aí teve aquele jogo no Pacaembu [na primeira fase do Paulista de 1995]. Aí, lembra aquela falta de longa distância que o Velloso não pede a barreira? Antes disso, o jogo estava muito difícil E eu dominei uma bola de costas, fui tocar pro lateral direito, que é o Vitor, e Roberto Carlos roubou e chutou de fora da área: 1 a 0 pro Palmeiras. A torcida queria me matar. E o jogador sabe quando ele tá mal na partida.

E aí?

Eu lembro que [no intervalo], eu eu fui direto para o banheiro, tranquei a porta. Eu estava nervoso, preocupado, tinha que me equilibrar. Aí, eu escutei as porradas na porta. 'Abre'. Era a voz do Ronaldo, goleiro. 'Tá com medo, moleque'?. E ele era o cara do Corinthians. 'Que porra é essa, que você tá aqui dentro? Vamos embora, você vai decidir pra gente'. Eu falei, 'não tô legal'. E ele continuou falando. 'Porra nenhuma, vamos embora'. Jogou no meio do grupo e falou assim: 'Ó, ele vai decidir pra gente. Quem vai decidir hoje vai ser ele'. O Ronaldo Giovanelli foi primordial na minha ascensão, foi extraordinário

E aí eu vou para o jogo com o c... na mão. Porque eu volto, e vejo lá nas cadeiras um tumulto do caraca em cima do meu filho pequenininho, do meu pai, da ex-mulher. E aí aquela foto de número a distância eu coloquei a bola no meio de campo. Ninguém nunca tinha visto um gol meu daquela distância. Eu sabia o que tava fazendo, porque eu treinava daquele jeito, só que ninguém nunca tinha visto. Eu pensei em acertar o gol, vou dar de três dedos, vou chutar para fazer uma curva na frente do goleiro. Se eu falar que eu queria acertar no ângulo é mentira. Eu falei: 'ela vai no gol, ela não vai fora, ela não vai bater na barreira, ela não vai fora, ela vai dentro do homem'. Mas ela vai fazer uma curva nele, porque eu sabia o jeito de pegar na bola.

E foi exatamente o que aconteceu quando saiu o gol, mano. Aí, saiu o peso das minhas costas. E, no final, tem uma jogada pela esquerda, o Tupãzinho abre a perna, e eu vou e faço o segundo, o da virada. Os meus dois primeiros gols em cima do maior rival. Aí, eu cravo nesse dia, no dia 2 de abril de 1995. E, depois desse segundo gol, eu vou correndo e abraço o Ronaldo.

E como é que foi o momento após perder o pênalti na semifinal da Libertadores de 2000?

Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Quando eu perdi o pênalti, que o Marcão fez aquela defesa, todo mundo falou: 'pô a casa caiu'. E a casa não caiu porque o torcedor corintiano, ele veio e me abraçou. Falou, 'pô, você tem crédito. Você deu pra gente dez títulos'.

Havia muita expectativa em mim, por ser um exímio cobrador de falta um especialista em bola parada, né? E o Palmeiras vai acertando tudo. E alguns jogadores nossos não quiseram bater.

Era uma estratégia para você ficar por último?

Eu sempre ficava por último. E o mais difícil de você fazer o pênalti é você sair do meio até lá, para cobrar. O goleiro que estava lá era o Marcão, que é um cara sensacional, um cara extraordinário, que foi merecedor naquela noite. 'Ah, o cara saiu antes, não sei o quê'. O cara foi e defendeu. Eu ia rolar a bola no meio. E aí, eu olho para o Pracidelli (então treinador de goleiros do Palmeiras) batendo na luva e falando assim, 'não sai, que ele vai rolar'. Então, eu fico no meu canto de origem, forte. Depois, até conversando com o Marcão, ele falou assim, 'pô no Mundial, você trocou o seu canto, bateu no outro, que o Elton defendeu'.

Aí, eu lembro que, quando eu perdi, chegou o Dinei correndo, me abraçou e falou assim: 'não esquenta, não. Você é o maior jogador da história do clube, você tem dez títulos, estamos contigo e tal'. E o Vampeta tirou ele e falou assim: 'É porra nenhuma! Não abraço ele não, porra. Todo mundo acertou essa porra, ele errou', bravo, mas brincando.

E na temporada anterior, na hora da briga da final do Paulista. Qual foi a tua sensação ali?

Foi foi um lance tipo o jogo de pelada cara. Um time que foi campeão da Libertadores, e entraram com a faixa, entraram com o cabelo todo pintado de verde, com a faixa, tipo ali, desdenhando, como se fosse um jogo de pelada, né? E aí, nós entramos para mostrar nossa força. A gente já tinha ganhado o primeiro jogo por 3 a 0, tava com a vantagem. E aí, o Edilson foi e deu o troco, de fazer embaixadinha, de gozar também. Vamos dizer, dar resposta para o torcedor. Mas a gente não pensava em ir a vias de fato também.

Eu fiquei sentado na grande área com o Rogério, que era do Palmeiras, amigo nosso. Eu falei: 'pô desse tamanhinho aqui, vou entrar na briga? Eles vão querer me matar, já estavam doidinhos pra me esfolar'. Nem fui pra briga, nem nada.

Inimigos Íntimos

O que: documentário sobre a rivalidade entre Corinthians e Palmeiras na virada do século XXI

Estreia: 24 de abril

Onde assistir: exclusivo para assinantes UOL Play (https://play.uol.com.br/)