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A história por trás do desenho 'profético' de Alex Telles na seleção

Alex Telles participa do treino físico da seleção em Turim - Lucas Figueiredo/CBF
Alex Telles participa do treino físico da seleção em Turim Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Do UOL, em Turim

15/11/2022 04h00

Classificação e Jogos

No rabisco de um menino de 10 anos, a projeção do que ele queria ser quando crescer. Parecia ser um trabalho trivial de escola — coisa típica de crianças dessa idade. Mas para Alex Telles, o destino mostrou que se tratava de uma espécie de profecia.

Nos traços a lápis feitos quando dava os primeiros passos na base do Juventude, ele se retratou como um jogador da seleção brasileira. Hoje, aos 29 anos, é um dos dois laterais-esquerdos convocados por Tite para a Copa do Mundo do Qatar.

O enredo, na vida real, a partir daquele desenho pareceu que não atingiria o cenário atual. Mas a trajetória tem sido de sucesso. Esse é um dos motivos pelos quais Hellen Telles, irmã e gestora da carreira de Alex, publicou com tanta euforia a foto do desenho feito por aquele menino de Caxias do Sul.

O desenho virou até uma relíquia da família, diante da consolidação da carreira dele, e faz parte de uma caixa na qual estão lembranças de Alex, na casa da família, na Serra Gaúcha.

"Foi uma ideia genial dos meus pais ter guardado esse desenho", conta Hellen, que foi ver o Alex Telles de perto, no primeiro treino da seleção em Turim, na Itália, onde começa a preparação para a Copa.

Na tarefa escolar que virou profecia, a irmã três anos mais velha relatou ao UOL Esporte que se impressiona com o detalhismo da imagem que estava na mente de Alex Telles.

"Ele coloca patrocinadores e torcida, e com a camisa da seleção. Meu pai falou para guardar porque achou incrível. E quem diria que anos depois, e o desenho retrata que não existia um plano B (pra ele), isso iria acontecer", conta ela.

Desenho feito por Alex Telles quando tinha 10 anos - Reprodução - Reprodução
Desenho feito por Alex Telles quando tinha 10 anos
Imagem: Reprodução

A primeira publicação no Instagram do desenho de Alex Telles aconteceu em março de 2019, quando ele foi convocado pela primeira vez por Tite. Então no Porto, ele foi titular no amistoso contra o Panamá — empate por 1 a 1 — e ficou no banco na partida seguinte, contra a República Tcheca. Mas a convocação para a Copa deu um ar mais épico à relíquia da família.

"Quando a gente olha para o desenho agora, dá uma sensação de construção do futuro, aquilo que tu quer ser. Foi fantástico para nós associar com o momento da seleção".

Nos anos seguintes, aquele menino de 10 anos não teve um caminho tão simples até se tornar, efetivamente, profissional. Ele chegou a fazer parte de listas de dispensas em três momentos diferentes na base do Juventude. O fato de morar em Caxias do Sul e representar um baixo custo ao clube contribuiu para uma certa permissividade dos gestores. Era como se ele fosse insignificante.

Mas o terceiro ultimato foi definitivo para o caminho que Alex Telles tomaria. O ano era 2008, Alex tinha 16 anos e estava no sub-17 do Juventude. Seu técnico na época, Carlos Moraes, deu cinco jogos para provar que ele merecia continuar.

"Dali em diante, ele ganhou força psicológica e física, porque foi no período de estiramento, ele cresceu, amadureceu. Dali em diante não tinha mais plano B", conta a irmã.

Choro com a esposa

A convocação de Telles ainda trouxe a reboque um vídeo com o instante no qual o jogador ouve Tite citar o próprio nome entre os 26 chamados à Copa. Não deu para segurar o choro ao lado da mulher, Vitória. Os pais dele estavam no Brasil, enquanto Hellen estava em Portugal. Uma chamada de vídeo foi o jeito para encurtar a distância em um momento de catarse.

Naquele dia, que culminou dando significado maior ao desenho, a família de Alex Telles tentou não o deixar "pilhado" por causa do evento realizado no auditório da CBF. Mas a emoção foi inevitável.

Hellen Telles, irmã e gestora da carreira do lateral-esquerdo Alex Telles - Igor Siqueira/UOL - Igor Siqueira/UOL
Hellen Telles, irmã e gestora da carreira do lateral-esquerdo Alex Telles
Imagem: Igor Siqueira/UOL

Por mais que nos últimos anos tenha circulado por clubes relevantes na Europa, a carreira de Alex Telles tem pontos de inconstância. A saída do Grêmio para o Galatasaray, da Turquia, foi o primeiro passo no exterior, em 2014. Ele deu um salto para uma liga mais relevante em 2015, com a transferência por empréstimo para a Inter de Milão. Em 2016, foi vendido para o Porto, clube pelo qual conseguiu sua primeira convocação.

A transferência mais valiosa para a carreira se deu em outubro de 2020, quando foi comprado por 40 milhões de euros pelo Manchester United. Mas vendo o espaço ficar escasso, o jeito foi o empréstimo atual ao Sevilla. O desejo era o de se manter o máximo de minutos possível em campo para continuar no radar da seleção - a concorrência com Renan Lodi durou até a data Fifa anterior à convocação.

Na lista para o Qatar, Telles foi chamado como reserva de Alex Sandro. O jogador ganhou espaço na concorrência pela vaga depois da lesão no ligamento do joelho esquerdo de Guilherme Arana, do Atlético-MG. Diante do resultado na disputa pela seleção, Telles fez contato com Arana.

"O Alex ficou feliz com a oportunidade de jogar a Copa, mas sabe que existia uma disputa que foi encerrada pontualmente por uma lesão de um companheiro e nunca é bom. Ele próprio passou por essa situação quando se tornou profissional. Houve uma solidariedade. Lembro que o Alex disse 'vou ter que falar com ele porque é uma situação muito tensa'", conta a irmã/gestora.

Depois do treino de ontem (14), em Turim, Alex e a irmã conversaram com um alambrado de distância, no campo do CT da Juventus. Ela cuida da gestão da imagem, como um todo, e dos movimentos dele no mercado. Como é meio de temporada, nova transferência no momento não está no radar. É hora de extrapolar ainda mais o sonho daquele menino de 10 anos. Quem sabe com o hexa.