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Série D - 2022

Os segredos do único time que não tomou gol entre as 4 divisões nacionais

Líder de seu grupo na Série D, São Bernardo FC mantém uma sequência de dez jogos sem ser vazado - Gabriel Goto / São Bernardo FC
Líder de seu grupo na Série D, São Bernardo FC mantém uma sequência de dez jogos sem ser vazado Imagem: Gabriel Goto / São Bernardo FC

Bruno Madrid

Do UOL, em São Paulo

23/06/2022 04h00

Classificação e Jogos

Sabe aquele ditado que diz que "todo grande time começa por um grande goleiro"? No caso do São Bernardo FC, que disputa a Série D do Campeonato Brasileiro, o clichê é válido ao trocarmos a palavra "goleiro" por "defesa" e ampliar o leque.

A equipe do ABC paulista é a única que ainda não foi vazada entre os 124 clubes que disputam as quatro divisões nacionais da temporada: nos últimos 10 jogos, foram 11 gols marcados e nenhum sofrido.

A última vez que o São Bernardo viu sua própria rede balançar aconteceu há três meses, ainda nas quartas de final do Campeonato Paulista. Em duelo contra o São Paulo, dentro do Morumbi, o Tigre —como é conhecido— até abriu o placar e ficou perto de eliminar os mandantes, mas teve um jogador expulso e acabou tomando uma virada de 4 a 1 na etapa final. Apesar do revés, o goleiro Alex Alves foi um dos destaques do jogo.

Quais os segredos desta eficiência? O UOL Esporte ouviu diferentes protagonistas do time.

982 minutos intacto

Um dos motivos da solidez defensiva está justamente no principal responsável pela meta. Mantido para a sequência da temporada depois da campanha no estadual e com vínculo até o fim do ano, Alex Alves tornou-se elemento crucial da equipe.

Goleiro já bateu recordes recentes de Weverton e Grohe - Rafael Assunção/Instagram/São Bernardo FC - Rafael Assunção/Instagram/São Bernardo FC
Goleiro já bateu recordes recentes de Weverton e Grohe
Imagem: Rafael Assunção/Instagram/São Bernardo FC

O experiente goleiro de 35 anos, que acumula passagens recentes por Bragantino e Náutico, atuou nas 10 partidas pós-Morumbi e deixou a meta do Tigre intransponível. Ele, inclusive, chegou a defender um pênalti no duelo contra o Oeste, realizado no início de maio no ABC, e evitou o fim do que já é um longo tabu.

Ao todo, Alex e sua equipe estão há 982 minutos sem sofrer um gol, índice que supera as recentes sequências de Weverton (em 2018, pelo Palmeiras) e Marcelo Grohe (em 2017, pelo Grêmio). A marca impressiona até mesmo o arqueiro.

"Nunca imaginava. Isso nem passou pela cabeça até porque, na Série D, você enfrenta dificuldades como o campo, os adversários nivelados... é um campeonato muito truncado. Mas a gente sempre trabalhou muito duro para isso. A partir do momento que você não leva gol, está mais próximo da vitória", disse Alex, ressaltando o empenho coletivo como a "maior qualidade defensiva" do elenco.

A sequência intransponível de Alex e do São Bernardo, clube que lidera o grupo 7 do torneio, é essa:

  • São Bernardo 0x0 Portuguesa-RJ
  • Paraná 0x0 São Bernardo
  • Santo André 0x1 São Bernardo
  • São Bernardo 3x0 Oeste
  • São Bernardo 1x0 Cianorte
  • Pérolas Negras 0x0 São Bernardo
  • São Bernardo 1x0 Nova Iguaçu
  • Nova Iguaçu 0x0 São Bernardo
  • São Bernardo 4x0 Pérolas Negras
  • Cianorte 0x1 São Bernardo

Coincidência ou não, há um "guardião da meta" dentro da própria diretoria: o atual gerente de futebol do clube do ABC é Daniel Flumignan, ex-goleiro e ídolo da torcida.

Principal elo entre atletas e demais diretores, o ex-jogador celebrou o momento do Tigre. "Como ex-goleiro, fico muito feliz. Vibro a cada defesa e a cada jogo que a gente não toma gol. A conquista é deles, mas se estende a todos. Os goleiros são a alma do time, tudo que envolve o sentimento da equipe está ali", disse o hoje dirigente, que deseja manter Alex para o ano que vem.

Treino com elásticos, influência italiana e até coach

Márcio Zanardi, atual treinador da equipe profissional que comandava o elenco sub-20, chegou ao cargo em outubro, logo após a saída repentina de Ricardo Catalá —que aceitou um convite do Operário.

"A saída do Catalá pegou a gente de surpresa. Ninguém quer perder um excelente profissional como ele. Mas o Márcio já trabalhava na empresa há muito tempo. Esteve no Guarani e depois no Santos, assistido por nós. É um cara muito competente e sabíamos que isso aconteceria em algum momento", explicou Lucas Andrino, CEO do São Bernardo e empresário ligado à Magnum, grupo que comandava o time de Campinas e que hoje está no clube do ABC.

Com a promoção da diretoria, Zanardi começou a impor o seu método aos comandados. Ele revelou alguns detalhes do trabalho tanto dentro quanto fora de campo.

Márcio Zanardi é adepto da maneira italiana de se defender no futebol - Mauro Horita / Ag. Paulistão - Mauro Horita / Ag. Paulistão
Márcio Zanardi é adepto da maneira italiana de se defender no futebol
Imagem: Mauro Horita / Ag. Paulistão

Com a bola rolando, as atividades contam, por exemplo, com acessórios específicos para auxiliar no momento da marcação.

"Em um dia, coloquei todos os jogadores ligados com um elástico nos punhos. A gente conseguiu trabalhar o balanço defensivo de uma forma que não podia estourar o elástico. Nossos trabalhos são focados na ocupação do espaço, fechar diagonais... Precisamos jogar sem bola também e eles entenderam muito bem isso", disse Zanardi, que se declara fã e estudioso da maneira italiana de se defender.

O técnico admitiu ainda que o padrão com três zagueiros usado pelo Tigre surgiu a partir de uma situação específica —ainda nas primeiras rodadas do Paulista.

"Fizemos a pré-temporada e começamos o Paulistão com dois zagueiros. Contra o Palmeiras, até pela forma de eles jogarem, iniciamos com três zagueiros e fomos muito bem", iniciou ele, que trabalhou com Jorge Sampaoli no Santos e tem no argentino a sua maior inspiração na profissão.

"Não era uma ideia. Assim a gente ficava muito forte defensivamente, mas ofensivamente também eu podia liberar os alas. Encaixou, o grupo entendeu e daí veio a sequência", explicou o técnico, que viu o São Bernardo sair com um empate contra o time de Abel Ferreira em 1 a 1 naquela ocasião —Alex Alves chegou a defender um pênalti no duelo.

Jogadores do São Bernardo comemoram pênalti defendido por Alex Alves contra o Palmeiras - Ettore Chiereguini/AGIF - Ettore Chiereguini/AGIF
Jogadores do São Bernardo comemoram pênalti defendido por Alex Alves contra o Palmeiras
Imagem: Ettore Chiereguini/AGIF

Fora das quatro linhas, o elenco tem, desde o início de maio, um mental coach. Ricardo Borin foi uma indicação do próprio Zanardi e atua na parte da confiança, da mentalidade e do comportamento dos jogadores.

Para o técnico, há relação direta entre o trabalho do profissional e os bons números da zaga do São Bernardo.

"A grande virtude é principalmente na parte psicológica. Introduzimos o trabalho do mental coach e está todo mundo muito ligado e concentrado. A parte defensiva começa no ataque, e o comprometimento deles é uma coisa surreal. Esse trabalho em equipe evoluiu com o trabalho do Ricardo", falou.

Meta é Série B

Depois dos títulos da Série A2 do estadual e da Copa Paulista no ano passado e em meio ao sucesso na Série D, o sólido Tigre planeja ganhar cada vez mais espaço no cenário nacional do futebol.

Para Andrino, o objetivo da diretoria e da Magnum é colocar a equipe, fundada há menos de duas décadas, na Série B do Campeonato Brasileiro já em 2025.

"Quando nós compramos o São Bernardo, em 2019, estabelecemos algumas metas e estamos atingindo várias delas. A nossa ideia é estar na Série B em 2025. Nós temos tudo para atingir isso", finalizou ele ao UOL Esporte.

No próximo domingo (26), o Tigre tem a chance de ampliar a sequência sem ser vazado. Já classificado para a próxima fase, o clube encara o Oeste, fora de casa, pela 11ª rodada da Série D.