Topo

Por que Tite deu tão errado no Atlético-MG e isso não sai da cabeça dele

Tite foi técnico do Atlético-MG entre abril e agosto de 2005; a causa da bufada é uma derrota para o Athletico-PR em casa, em julho - Paulo Fonseca/Folha Imagem
Tite foi técnico do Atlético-MG entre abril e agosto de 2005; a causa da bufada é uma derrota para o Athletico-PR em casa, em julho Imagem: Paulo Fonseca/Folha Imagem

Gabriel Carneiro e Igor Siqueira

Do UOL, em Belo Horizonte

01/02/2022 04h00

Uma cena marcou muita gente que viveu o dia a dia do Atlético-MG em 2005. Em junho, durante um treino no CT de Vespasiano (hoje batizado de Cidade do Galo), Tite perdeu a linha e expulsou do campo na frente de todo mundo um dos principais jogadores do elenco. Aos gritos de "displicência aqui, não", o treinador se irritou quando o volante Amaral — aquele mesmo, ex-Palmeiras, Corinthians e Vasco — deu um chutão para o alto de propósito em sinal de protesto pelo fato de ter sido barrado do time titular.

Naquela altura, o Galo era o terceiro pior time do Campeonato Brasileiro e vinha numa sequência de quatro derrotas. Tite tinha sido contratado em abril falando em levar o Atlético-MG à Libertadores, mas nunca saiu da zona de rebaixamento e pediu demissão em agosto na penúltima posição. Segundo ele mesmo, um "fracasso". O Galo caiu com dedo do atual técnico da seleção.

Não houve grandes consequências dessa briga com Amaral, foi coisa de momento. A passagem pelo futebol de Minas Gerais também ficou no passado, já faz 17 anos. Depois disso, Tite foi campeão de tudo que ainda faltava no futebol de clubes do Brasil, uma carreira incontestavelmente vitoriosa. Mas também é fato que 2005 nunca saiu da sua cabeça. Tite se sente em dívida.

Eu estava insuficientemente maduro, estudado, habilitado e experiente para dirigir o Atlético. Eu era pouco para a grandeza do Atlético, não estava suficientemente formado. Continuo me formando. Se a gente pegar a escultura e ficar tirando pedaço, ainda tem pedaço para tirar, para me montar. Esse é nosso desafio diário. Se eu soubesse dos erros, eu não cometeria, porque burro eu não sou. Tiraria e faria só a coisa correta. Mas a estrutura da vida é assim."
Tite, em entrevista ontem (31)

Tite volta hoje (31) para Minas Gerais, o palco de seu maior fracasso. A seleção brasileira enfrenta o Paraguai às 21h30, pela 16ª rodada das Eliminatórias da Copa do Mundo do Qatar, no Mineirão.

O que deu errado no Galo?

Tite - Fernando Santos/Folha Imagem - Fernando Santos/Folha Imagem
Tite durante Palmeiras x Atlético-MG no Parque Antártica, em julho de 2005. Depois do Galo, ele comandou justamente o Verdão no ano seguinte
Imagem: Fernando Santos/Folha Imagem

Tite foi contratado pelo Atlético-MG em 5 de abril de 2005 para substituir Procópio Cardoso, eliminado pelo Cruzeiro na semifinal do Campeonato Mineiro. O treinador então com 44 anos tinha boas credenciais: campeão da Copa do Brasil com o Grêmio e a salvação do Corinthians do rebaixamento no ano anterior — ele foi demitido pouco mais de um mês antes de fechar com o Galo.

O elenco tinha nomes importantes, tipo Danrlei, Fábio Baiano, Rodrigo Fabri, Fábio Júnior, Euller e o próprio Amaral. Tanto é que o discurso de Tite na chegada era brigar por vaga na Libertadores. Começou bem, classificando o time para as quartas de final da Copa do Brasil e goleando o Figueirense por 4 a 1 na primeira rodada do Brasileirão.

Foi depois que a realidade bateu à porta. Passados os dois empates e as duas vitórias dos primeiros quatro jogos, o Galo ficou simplesmente nove jogos sem vencer — sendo sete derrotas no período, quando caiu na Copa do Brasil para o Ceará. Crise total, como lembra o volante Walker.

O Tite esteve no Galo numa fase conturbada, porque os salários de todos os jogadores estavam atrasados. Nós éramos pais de família, precisávamos ter o que comer dentro de casa, e aí víamos uma falta de comprometimento do próprio clube para quitar essas dívidas. Sentíamos que o clube não estava nem aí e isso desinteressou muitos jogadores."

Outra história de bastidores marca esse período: um medalhão do elenco chegou atrasado para um treinamento na semana de um jogo importante. Tite, então, teria decidido que o jogador seria multado no salário como forma de punição. O veterano respondeu, desafiador: "Pode multar. Esse mês eu recebi zero e mês passado também. Pode tirar até 20%".

Atlético-MG - Jorge Araújo/Folha Imagem - Jorge Araújo/Folha Imagem
Fábio Júnior, do Atlético-MG, e Leonardo Silva, do Palmeiras, em lance do Brasileirão de 2005
Imagem: Jorge Araújo/Folha Imagem

O desinteresse de parte do elenco era notável, tanto é que Tite afastou seis jogadores ao longo de sua passagem. Nenhum nome expressivo. A diretoria também contratou às pressas alguns reforços, como os experientes atacantes Luis Mário e Marques e o lateral-direito Evanilson. Ninguém que pudesse resolver o problema.

O excesso de veteranos, inclusive graças aos reforços, também preocupava. O próprio Amaral, por exemplo, disse que estava com "0% de forma física" quando chegou ao clube, três meses antes de Tite. Isso fez o técnico dar espaço a alguns jovens, como o zagueiro Leandro Castán, que estreou como titular do Galo aos 18 anos num clássico contra o Cruzeiro, com Fred pela frente. Derrota.

Anos mais tarde, Castán seria campeão da Libertadores sob o comando de Tite pelo Corinthians.

Walker - Paulo Fonseca/Folha Imagem - Paulo Fonseca/Folha Imagem
Walker, do Atlético-MG, disputa bola com Josué, do São Paulo, em lance do Brasileirão de 2005
Imagem: Paulo Fonseca/Folha Imagem

"Ele tentava conduzir da melhor forma, mas as condições do clube não eram as melhores. Eu sou grato, tenho boas lembranças, porque ele abriu as portas para mim e com ele tive meu melhor desempenho. Teve até uma frase dele numa entrevista dizendo que 'o Walker é uma posição à parte, ele não disputa com os outros volantes', isso marcou minha vida e minha família lembra até hoje. Mas como equipe as coisas não fluíram. Talvez, ele e o clube tiveram que passar por isso para serem o que são hoje", reflete Walker, que hoje tem 39 anos e dá os primeiros passos como treinador de base no interior de São Paulo.

Tite pediu demissão em 30 de julho, depois de uma derrota para o Goiás. A diretoria não aceitou porque na rodada seguinte tinha um jogo contra o lanterna Paysandu e a reação podia começar dali a quatro dias. O clube também contratou Carlos Alberto Silva (1939-2017) para a diretoria, o que agradava ao treinador. No Mineirão, um empate em 2 a 2 com o último colocado foi a gota d'água para um novo pedido de demissão, desta vez aceito e aprovado pela torcida: "Adeus, Tite".

Foram quatro meses de trabalho: quatro vitórias, seis empates e 11 derrotas em 21 jogos, aproveitamento de 28,5% dos pontos disputados. O time fez 28 gols e tomou 33 no período. O Galo ainda teve Marco Aurélio e Lori Sandri como técnicos no Brasileirão de 2005 e foi rebaixado para a Série B. Tite voltou a trabalhar quase um ano depois, em maio de 2006. Adivinhem? Para livrar o Palmeiras do rebaixamento: assumiu o time em último e pediu demissão por desentendimento com um diretor, no 15º lugar.

Tite - Pedro Souza - Pedro Souza
Tite em visita à Cidade do Galo durante passagem da seleção brasileira por Belo Horizonte
Imagem: Pedro Souza

Papo de sempre

Tite revisita este assunto com muita frequência em seus posicionamentos públicos. Às vezes há contexto, como no jogo de hoje da seleção brasileira, e em outras não. Ele já falou da passagem pelo Atlético-MG para dizer que é um profissional em evolução e para provar que é injusta sua fama de não usar jogadores jovens, por exemplo.

Recentemente, afirmou que se sente em dívida com o Galo: "Único trabalho que eu gostaria de ter feito e que eu fracassei (...) Te passo meu lado humano de senso de dívida. Não de caráter, mas de resultado."

Durante a Copa do Mundo da Rússia, um torcedor atleticano cobrou o treinador em tom de brincadeira durante um treinamento: "Você precisa voltar para compensar 2005", gritou, segundo informou o "Estadão" na época. Parece uma relação mal resolvida de lado a lado.

Tite hoje é técnico de seleção para uma segunda Copa. Na CBF, há a consciência de que ele deixará de ser o comandante da seleção em dezembro, ganhando ou perdendo. Já o Atlético-MG acabou de anunciar o argentino Antonio "Turco" Mohamed, com contrato até 31 de dezembro de 2022. Tite já revelou planos de trabalhar fora do Brasil, mas a tal dívida com o Galo talvez vire assunto do mercado da bola daqui uns meses.