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Ceará critica falta de ambição de Pato e relembra "vacas magras" no PSG

O lateral direito Ceará foi formado pelo Santos e teve destaque no Internacional e no PSG.  - João Henrique Marques
O lateral direito Ceará foi formado pelo Santos e teve destaque no Internacional e no PSG. Imagem: João Henrique Marques

João Henrique Marques

Do UOL, em Saint-Germain-en-Laye, na França

17/11/2018 04h00

As glórias no futebol são muitas. Campeão brasileiro, da Libertadores, do Mundial de Clubes e de 4 Estaduais diferentes (Paranaense, Mineiro, Brasiliense e Paulista). O lateral direito Ceará deixou o futebol em 2018 ainda carregando a marca de ser algoz de Ronaldinho, outro que decidiu parar nesta temporada. A carreira foi relembrada em entrevista concedida ao UOL Esporte na cidade em que revoltou voltar para morar: Saint-Germain-en-Laye, na França, ao lado da capital Paris.

A escolha foi pela paz do local para acompanhar a evolução do filho de 12 anos na escolinha de futebol do PSG, e começar a carreira de empresário sendo o intermediador de negociações de brasileiros basicamente com o futebol francês e português.

Ceará contou os bastidores da incrível conquista do Internacional, no Mundial de Clubes de 2006, ao vencer o Barcelona por 1 a 0, e detalhou artimanhas utilizadas para neutralizar Ronaldinho.

"O pedido do Abel (Braga) era de chegar no ‘tornoza’", relembrou. E durante o jogo o Ronaldinho dizia: ‘pode chegar junto, mas não me machuca’. Pedia muito a bola e não jogavam para ele, pois eu estava perto”, disse.

No clube gaúcho também fez amizade com Alexandre Pato, atacante que para Ceará seria o melhor do mundo caso demonstrasse maior ambição: "O problema é ser um jogador desinteressado. Talentoso e aquele que você lamenta que poderia ir mais além".

O agora ex-jogador também lembrou de detalhes dos 5 anos vividos em Saint-Germain-en-Laye entre 2007 e 2012 como jogador do PSG, período anterior ao investimento bilionário dos árabes e de muita pressão por parte do torcedor: "Tive problema no PSG em 2007. O time lutava contra o rebaixamento e faltando duas ou três rodadas, invadiram o treinamento, quebraram os carros. Época das vacas magras", destacou.

Veja a entrevista de Ceará ao UOL Esporte:

Planos na França

Estou morando em Saint-Germain para ficar perto do clube por conta do meu filho de 12 anos que treina no PSG. Trabalho como agente de futebol e saí do Brasil para tentar unir o útil ao agradável. A expansão da empresa, pois os sócios já conhecem bem o mercado no Brasil, e sou mais útil aqui na Franca. Depender menos de intermediadores.
 
Começo de carreira 

Fiz toda minha formação no Santos. Até os 19 dias. Foi tranquilo, pois foi logo no primeiro clube que cheguei para jogar, não sofri. Joguei no Santos em 99 com o Paulo Autouri, mas logo não tive oportunidades em 2000. Fui emprestado para a (Portuguesa) Santista e conheci o Muricy. Ele foi o cara mais importante da minha carreira.
Rodei alguns clubes, e em 2002 fui bem com o (Paulo) Bonamigo no Coritiba e queriam que eu permanecesse. Eu rescindi o contrato com o Santos no fim de 2002 e eles abriram mão de 3 meses de contrato por conta de dividas. Assim, assinei com o Coritiba.

Relação com Muricy Ramalho

Fui para o São Caetano em 2004 com o Muricy, e ele me levou para ao Inter em 2005. Foi uma peça chave na carreira. Ele gostava muito do meu profissionalismo. No São Caetano e no Inter, eu não era titular com ele, mas ele me indicou por me considerar agregador. Sempre trabalhando com alegria e motivando o grupo. Achava que eu era útil para o grupo e as vezes que precisava de mim, eu correspondia.

Quando ele saiu do Inter, em 2005, eu tinha o fim do contrato e ele falou ao Fernando Carvalho (presidente) para renovar meu contrato. Disse que eu daria retorno para o clube. Dentro disso, pude renovar por mais 3 anos e o Inter comprou 50% dos meus direitos e fiquei com o Abel. Com o Abel comecei a ter oportunidades e foi o ano que fui campeão da Libertadores, Mundial, Recopa. 

O Muricy era um cara muito fechado e eu também não sou de tanta comunicação. Não tinha acesso a ele no dia a dia, não tinha o telefone dele. Mas sempre fui muito respeitador. Se não estou jogando, ele tinha o motivo dele. Aí eu trabalhava nos treinos para ganhar espaço. No São Caetano tinha o Anderson Lima, e eu era reserva dele. No Inter tinha o Élder Granja em fase boa em 2005, então sabia como era complicado jogar.

Titular no Internacional

Ceará tenta a jogada em partida entre Internacional e Coritiba - Ricardo Duarte/Inter - Ricardo Duarte/Inter
Ceará teve passagem de sucesso no Inter
Imagem: Ricardo Duarte/Inter

Virei o titular no Inter na pré-temporada de 2006. Titulares tiveram uma semana a mais de férias, e nos apresentamos antes para o Gaúcho. Iniciei bem, e quando foi começar a Libertadores, o Abel preferiu começar comigo. Na estreia contra o Maracaibo, na Venezuela, fiz o gol da estreia no empate por 1 a 1. Isso me ajudou a seguir no time.  

Só que quando perdemos a final do Gaúcho para o Grêmio, a torcida começou a cobrar o retorno do Élder e do Jorge Wagner na lateral esquerda no lugar do Rubens Cardoso. Acho que o Abel ali tinha uma desculpa para poder mudar a equipe.

O Élder teve problema na panturrilha e voltei ao time para semifinal e final da Libertadores. Tive participação no cruzamento que o Fernandão cabeceia, e o Tinga faz o gol no rebote.

A final da Libertadores

Tenho uma lembrança que suava muito. O Fernandão sentou do meu lado no lanche da tarde e eu parecia uma cachoeira. Era uma reação de nervosismo do organismo. Era o jogo das 21h45 e fomos fazer o lanche 3h antes. O Fernandão falou: “O que está acontecendo contigo?”. Eu dizia: “Não sei”. Era minha primeira final, aquilo era um marco. E eu realmente estava super nervoso. Depois que aquece e entra no campo, vai passando aos poucos.

Estratégia contra o São Paulo

O Tinga antes de começar o jogo passa as mãos na grama, pega ela, e passa no rosto e diz: “É guerra”. Isso deu uma contagiada na galera. Na primeira dividida dele, ele pisa no tornozelo do Mineiro, e ele fica mancando o jogo inteiro. Depois o Fabinho, volante, divide uma bola com o Josué e provoca a expulsão dele. Foi um jogo que sabíamos que quando jogava contra o São Paulo, tinha que chegar junto que eles não gostam de contato físico. Negócio deles era jogar com a bola. E sabíamos como enfrentar eles. Na primeira bola já fomos por cima na primeira dividida e nessa determinação conseguimos ganhar terreno e espaço. Ganhamos por 2 a 1 e levamos par ao Beira Rio

No Beira-Rio estava tão lotado ao redor do estádio que a gente não conseguia acesso ao estádio. O ônibus parou 200 metros antes e passamos no meio da torcida em uma festa incrível. Você entra no vestiário com adrenalina no pico. 

Mundial de Clubes

O Mundial foi um momento singular. Primeiro que na semifinal foi bem complicada, e o gol do Luiz Adriano foi salvador. Dei o passe para o gol dele em cobrança de escanteio (Inter venceu o Al-Ahly, do Egito, por 2 a 1).

Lembro que depois assistimos o Barça e falávamos: “Como enfrentar esses caras de outro planeta?”.

Existe a questão motivacional e existe a realidade. Você analisa fatos históricos e aquele jogo não podíamos errar e todos estarem no seu melhor dia. Não pode falhar. O Inter é um dos sul-americanos campeão que menos sofreu no jogo. Não tivemos isso de cara a cara, torcendo para a bola não entrar. Vimos que era possível durante o jogo.

O que nos ajudou muito foi que tomamos de 4 em casa do Goiás na nossa despedida no Beira-Rio. Estádio lotado, e ali, colocamos o pé no chão. Tinha a semifinal antes e depois o Barcelona. Tomamos um sarrafo do Goiás e mesmo assim o aeroporto estava lotado para nossa ida ao Japão. Caiu a ficha de termos uma equipe comum que precisava se esforçar. 

Palavras de Abel

Nos bastidores, o Abel nos reuniu e mostrou uma vitória do Chelsea contra o Barcelona na Champions. Dizia a nós que não era imbatíveis e por mais que haja diferença nossa para o Chelsea, tínhamos que fazer as coisas certas. Abel nos trouxe esperança de que era possível.

O drama Ronaldinho

Tive uma noite complicada na véspera da final, pois tinha que marcar o Ronaldinho. Com o problema do fuso e sabendo que tinha que marcar o melhor do mundo, não dava para dormir. Tive que ir para a oração. Estava no quarto com o Rubens Cardoso. Somos cristãos. Eu pegava o Ronaldinho de um lado e ele o Giuly do outro. Vamos orar e pedir ajuda. Dentro dessas reflexões, me veio a mente uma passagem bíblica do Davi e Golias. Me via um pouco nisso e engraçado que o Ronaldinho dizia que não conhecia ninguém no Inter. Só o Paulo Paixão, que era preparador físico da seleção. A gente via menosprezo da parte dele e isso nos deu ânimo.

O duelo com Ronaldinho

Eu analisava o jogador que ia marcar. O Ronaldinho eu detectei que ele não pedia bola em profundidade. Ele gostava de jogar com a bola, e tendo ela no pé, sabia o que fazer. Então, tinha que grudar nele. A estratégia foi análise pessoal minha de que quanto menos a bola chegar nele, melhor. Diminuir o espaço.

Não fiz nenhuma falta no jogo. Aliás, no final. Ele foi passar entre eu e o Edinho e joguei o corpo, fiz obstrução. Mas o pedido do Abel era de chegar no “tornoza”. Mas não era meu perfil. Ele teve duas oportunidades de bola parada e o Clemer pegou, e outra passou do lado da trave.

Falava pouco com ele. Ele dizia: “pode chegar junto, mas não me machuca”. Pedia muito a bola e não jogavam para ele, pois eu estava perto. Ele reclamava: “Os caras não querem jogar comigo”. Eu ficava quietinho.

Conversa com Giuly

Nós tivemos a bela surpresa do gol do (Adriano) Gabiru. O mais legal é que no final quando ganhamos, vimos a cara de espanto dos jogadores do Barcelona. Anos depois quando conheci o Giuly aqui no PSG, ele disse que realmente foi uma surpresa, que comemoravam antes. “nós já ganhamos, vamos atropelar”, era o discurso. Nem viram vídeo, nem nada. E lembro que ele me falou: “vocês tiraram nosso prêmio, estávamos contando com isso. Era 200 ou 250 mil euros para ganhar o jogo.

A rivalidade com Ronaldinho

Ceará vibra ao lado de Ronaldinho entristecido - Reprodução Instagram  - Reprodução Instagram
Ceará vibra ao lado de Ronaldinho
Imagem: Reprodução Instagram

Ronaldinho nos enfrentamos algumas vezes. Era só cumprimentar antes do jogo. “Cá vá, monsieur”, ele brincava comigo em francês antes dos jogos por termos jogado no PSG. Só que nunca fomos amigos, e jamais falamos sobre o Mundial. Penso que incomoda muito ele, não conseguiu ser campeão mundial com o Barcelona. 

No Sul, lá tem a Avenida Ceára. Colocaram uma faixa: “Proibida a passagem do Ronaldinho”. Falavam que para vir ao Brasil, o Ronaldinho tinha que ir pelos Estados Unidos, pois não podia passar pelo Ceara.

No encerramento da carreira dele, fiz uma homenagem a ele com a minha comemoração no Mundial. Postei no Instagram, tirando um sarro.

Perseguição no Internacional 

Quando fomos campeões, nós descemos em Canoas na base aérea e foram 30km de festa incrível. Rua toda lotada de vermelho e branco, galera de joelho. Pessoal me carregando no braço pelo feito e quando começa o Estadual, no primeiro clássico no Beira-Rio, perdemos para o Grêmio. O Lúcio, lateral esquerdo, entre uma indecisão minha e do Índio, passou no nosso meio e fez o gol. Para sair do estádio, os caras queriam virar meu carro. Não podemos perder para esses caras, diziam me xingando. Tive que sair escoltado pelos seguranças. Tudo que fiz com o Ronaldinho foi por água abaixo. Nós que somos atletas, a gente vê essa rivalidade estadual muito pequena em relação ao titulo em si. 

Carinho por Pato 

A gente tinha um time coletivamente muito forte e com bons jogadores. O Pato estava surgindo em 2006. Um cara muito rápido e técnico, mas sem muita confiança. Pato estreou no Brasileiro meses antes e nós vimos o potencial dele. Abraçamos ele pelo talento e ele foi muito bem. Nossa válvula de escape. Quando ele foi jogar no São Paulo, conversamos. Ele é um menino meio aéreo, meio Messi, está sempre olhando para o céu, perdido. Mas é um cara muito legal. O problema é ser um jogador desinteressado. Talentoso e aquele que você lamenta que poderia ir mais além. Pelo talento dele, ele podia postular melhor do mundo. Velocidade, técnica, jogo aéreo, com as duas pernas, mas não quis pagar um preço de ir mais além. Quanto mais você sobe degraus, são mínimos detalhes que faz a diferença. Quem se cuida mais, se concentra mais, come melhor. O (Cristiano) Ronaldo e o Messi estão sempre ali, pois são sempre campeões com o time deles e se cuidam muito. Precisa de um avanço coletivo também.

Passagem no PSG

Tive problema no PSG em 2007. O time lutava contra o rebaixamento e faltando duas ou três rodadas, invadiram o treinamento, quebraram os carros. Época das vacas magras. O time só tinha eu de brasileiro. Vim pra cá depois do Mundial. Cheguei jogando e fui titular nas 3 primeiras temporadas. 

Em 2011, quando o Nasser (Al-Khelaif) compra o clube, começam a vir mais brasileiros. Fiquei 1 ano com eles. O Maxwell e o zagueiro Alex. O Leonardo era o diretor, mas aí eu tive a escolha do Cruzeiro. 

Eu sofri um pouco pela exigência defensiva aqui. Algumas vezes quis jogar e tomei bola nas costas. Treinador puxou minha orelha, minha função primária era de marcar. Fui muito criticado no primeiro ano e teve até um jogo contra o Caen que escorreguei com falha minha perdemos o jogo por 1 a 0. No ano seguinte me adaptei melhor e estava entre os 3 melhores laterais do Campeonato.

Dificuldades na França

Eles me deram um intérprete durante 1 mês e ele me ajudava com tudo. Encontramos casa e nos auxiliou, somos amigos até hoje. Um português. Ele ia na reunião, mas dentro de campo tinha que me virar. Peguei o vocabulário básico, me matriculei na escola e escutava CD o dia todo. Peguei o direita, esquerda, toca, um/dois, coisas de campo. Na época tinha o Pauleta, português estrela do time, e me ajudava. Só que eu era tímido e não incomodava ele. O Gallardo, argentino, e o colombiano, Yepes, me ajudavam com o espanhol

Referências na lateral 

Eu me inspirei muito no Cafu. Na atualidade vejo o Daniel Alves acima dos demais. A gente analisa muito o lateral completo, e ele é isso. Um cara completo, que sabe se virar na defesa com bom posicionamento e ofensivamente e muito útil, com bons passes e chute de fora da área. 

Os jogadores adversários mais complicados

O mais renomado foi o Ronaldinho, mas o mais difícil que marquei são os rápidos. O Bernard, do Atlético, era muito difícil. E aqui na França foi o Ben Afra, no Lyon. Era uma dupla complicada de marcar, ele e Benzema. Peguei o Hazard na época do Lille e tive muita dificuldade com ele também. Jogadores que aliam velocidade com técnica. 

O maior drama da carreira 

O momento mais complicado foi o rebaixamento com o Inter em 2016. Foi o time que fui ao topo da montanha e depois passei pela experiência ruim de ser rebaixado. Eu senti na pele algo doloroso, o clima no clube, e foi o período mais difícil da carreira. Eu cheguei no meio do campeonato, eles me contrataram às pressas, pois queriam alguém vencedor, com identidade lá. Mas a coisa estava feia, desorganizada como um todo. Foi um ano com 4 treinadores. Fizeram a loucura do Falcão, um ídolo, com apenas 1 mês no clube. Tudo errado.

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