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Time alemão só quer a bola por 15 segundos e até topa devolvê-la ao rival

Lucas Pastore

Do UOL, em São Paulo

24/09/2018 04h00

Em apenas nove anos, um time saltou da quinta divisão para as primeiras colocações da elite do Campeonato Alemão com filosofia que renuncia à bola. Trata-se do RB Leipzig, equipe cujo modelo de jogo é baseado na premissa que o ideal é marcar um gol nos 15 primeiros segundos da posse. Se não for possível, chega até a devolvê-la para o adversário.

O Leipzig foi fundado em 2009 por Dietrich Mateschitz, dono da Red Bull, fruto da aquisição dos direitos de outro clube, que na época disputava a quinta divisão do futebol alemão. Sete anos depois, já estava em campo pela Bundesliga.

Em suas duas participações na primeira divisão da Alemanha, terminou na segunda colocação na temporada 2016/2017, quando fazia sua estreia na elite, e na sexta posição na temporada 2017/2018. No processo, revelou Joshua Kimmich, lateral do Bayern de Munique, Naby Keita, meio-campista do Liverpool, e Timo Werner, centroavante que segue no clube e chegou à seleção do país bávaro.

O modelo de jogo que abre mão da posse de bola e encontra sucesso na Bundesliga foi idealizado em grande parte por Ralf Rangnick, manager do clube que já havia participado do projeto que ajudou a mudar o patamar do Hoffenheim no país.

Além disso, a proposta obedece a modelo estatístico originário dos serviços de um matemático contratado pelo clube, que chegou à conclusão de que a chance percentual de um gol ser feito a partir do 13º segundo de posse da bola cai consideravelmente. Assim, com certa flexibilidade, o clube se programa para superar o goleiro adversário em 15 segundos.

Matheus Cunha em ação durante jogo do RB Leipzig contra o FC Grimma - Karina Hessland/Getty Images - Karina Hessland/Getty Images
Matheus Cunha em ação durante jogo do RB Leipzig contra o FC Grimma
Imagem: Karina Hessland/Getty Images

"A gente não tem exatamente essa aula matemática, mas nos passam isso com outras palavras. Quanto mais rapidamente você ataca depois de roubar a bola, a equipe adversária não se reajusta e deixa espaço aberto, com compactação mal feita. A ideia é aproveitar isso com um, dois, três passes. A gente faz isso nos treinos. Treinamos com um cronômetro gigante de 15 segundos", contou Matheus Cunha, atacante brasileiro do Leipzig convocado para a seleção brasileira sub-20, ao UOL Esporte.

Rangnick chegou ao Leipzig para a temporada 2015/2016, quando o clube ainda estava na segunda divisão. A princípio, trabalhou como treinador para garantir o estabelecimento do modelo de jogo. Desde então, assumiu a função de manager.

O modelo tem como preceito acelerar o jogo com passes verticais desde o momento da retomada de bola. A preferência é por jogar pelo chão, mas bolas longas não estão descartadas como recurso.

Quando o time não tem a bola, a ideia é pressionar o adversário com muita intensidade desde o início da jogada, ainda no campo de ataque, para roubar a posse e ter nova oportunidade para marcar em 15 segundos ou menos. Em outras palavras, os jogadores ficam, por padrão, muito mais tempo sem a bola do que com a bola.

Revelado pelo Coritiba, Matheus chegou ao Leipzig nessa temporada após passar um ano atuando pelo Sion, da Suíça. De acordo com o brasileiro, o modelo de jogo foi explicado desde os primeiros contatos do clube para negociar sua transferência, com direito até a entrega de um pendrive com lances da equipe.

"Foi um dos motivos que me encheu os olhos, a filosofia de trabalho. É uma forma de jogo muito ofensiva. Nos treinamentos e nos jogos somos aconselhados ao futebol ofensivo, sempre jogar para frente, com bastante passe ofensivo. Não é tanto trabalhar a bola, e sim tentar estar o mais rápido possível perto do gol", contou.

Mesmo com tanta disciplina, ainda há casos em que o time acaba ficando mais de 15 segundos com a bola nos pés. O que acontece nestes casos? Jogar a bola para longe, em uma posição em que seja vantagem pressionar o adversário para tentar mais um desarme e mais um ataque vertical, não está descartado.

"A ideia é sempre pressionar o adversário em uma área de risco. Essa é filosofia. Não passa por se desfazer da bola, mas sim colocar o adversário em uma situação de risco que nos faça chegar mais rápido ao gol deles", explicou Matheus.

"O time mais odiado da Alemanha"

O regulamento do futebol alemão proíbe que um clube tenha dono ou seja controlado por uma empresa. A única exceção permitida é quando um acionista com pelo menos vinte anos de casa assuma controle de uma agremiação. Por isso, torcedores de equipes mais tradicionais se revoltam contra o Leipzig ao acusá-lo de descumprir o regulamento.

Apesar da clara ligação com a Red Bull, o RB do nome do clube vem de RasenBallsport, uma gíria que funciona como sinônimo para futebol. Os críticos dizem que a empresa controla o Leipzig, o que seria proibido.

Ainda há a questão geográfica, já que o Leipzig fica na Alemanha Oriental, algo raro na Bundesliga. Por fim, o modelo de jogo faz com que torcedores menos acostumados ao futebol reativo peguem no pé da equipe.

"Acho que é muito chato para os outros times jogarem contra a gente. Tivemos um jogo contra o Borussia em que a gente perdeu. A gente tinha acabado de jogar pela Liga Europa, e era começo de temporada ainda, então o time estava um pouco cansado. Mas nos primeiros trinta segundos, nosso atacante ganhou uma bola de cabeça, o segundo atacante entrou e fez o gol. A gente sempre tenta chegar na frente, às vezes sem tanta qualidade, mas sempre chegando. Ficaria ofendido se falassem isso porque a gente joga com cinco zagueiros", disse Matheus.

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