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Transição da base para o futebol profissional é mais difícil para homossexual, dizem agentes

Ator Daniel Rocha, que vive Roni, e cena em que empresário rejeita "jogador diferente" - Pedro Paulo Figueiredo/Agencia Z noticias e Reprodução
Ator Daniel Rocha, que vive Roni, e cena em que empresário rejeita "jogador diferente" Imagem: Pedro Paulo Figueiredo/Agencia Z noticias e Reprodução

Bruno Doro

Do UOL, em São Paulo

20/07/2012 06h00

Na novela “Avenida Brasil”, Roni é um atacante talentoso que defende o Divino, clube que revelou o protagonista da trama, o ex-jogador Tufão. Em um dos capítulos, ele faz o gol da vitória e chama atenção de um empresário. Após sondagens, porém, a contratação por um grande clube é cancelada. O motivo? “O clube que estava querendo contratar o Roni é um ambiente familiar. Não pode ter nenhum jogador diferente”.

NA FICÇÃO, CASAMENTO DE MENTIRA COM PERIGUETE VIRA SOLUÇÃO PARA CARREIRA

  • Reprodução

    Na novela, Roni (vivido pelo ator Daniel Rocha) ainda não perdeu a oportunidade de se transferir para um clube grande. Após a decepção com o empresário (que inclusive gerou uma briga entre seu pai, vivido por Otávio Augusto), o jogador procurou a periguete Suelen, personagem de Isis Valverde, e propôs um casamento de fachada:

    "Casando comigo você não precisa voltar para a Bolívia, que eu sei que você não quer. Casando com você eu resolvo um monte de problema para a minha carreira. E o pessoal do Divino fica falando que eu sou gay...", disse Roni.

     

Em outras palavras, Roni é deixado de lado por ser, supostamente, homossexual. O UOL Esporte resolveu, então, procurar empresários e olheiros e perguntou: existe preconceito contra gays no futebol? Conseguir respostas foi difícil. Alguns profissionais procurados preferiram não comentar o assunto.

Um deles, com mais de 20 anos de experiência no mercado, entre a função de olheiro e de empresário, aceitou conversar, mas sob a condição de anonimato. “Esse tema é muito complicado. O futebol é um ambiente de muito machismo e os jovens jogadores precisam se mostrar ‘homens’ para conseguir o respeito. Por isso não vemos nenhum jogador profissional admitir ser gay publicamente”.

Segundo o empresário, os jogadores homossexuais precisam de uma força muito maior para fazer a transição da base para o profissional do que seus pares heterossexuais. “Eu já vi muito garoto com potencial chegar na hora da virada e resolver desistir, ir trabalhar. É mais fácil você ser homossexual fora do futebol. É uma pressão muito grande. Já trabalhei com dois ou três garotos que eram assim. Eles não se declararam homossexuais, mas todos viam que tinham potencial. Só não tiveram coragem de assumir a condição e enfrentar a situação”.

Segundo Gabriel Marques, que também trabalha como procurador e empresários de jogadores, essa pressão faz com que os atletas optem por esconder a orientação sexual. “Eu já trabalhei com alguns homossexuais e eles eram sempre muito discretos, para evitar o preconceito. O mundo do futebol ainda é muito duro em relação a essa questão”, explica. “O que deveria ser feito é um trabalho de conscientização que vem desde a base, desde os garotos de 11, 12 anos, para acabar com o tratamento diferenciado. Mas, como todo mundo sabe, ninguém faz isso no futebol”.

E ele confirma que a transição da base para o profissional é, realmente, a época mais difícil para os atletas. “Quando esse jogador vai assinar o primeiro contrato, precisa evitar ao máximo que as pessoas saibam a orientação. Querendo ou não, existe muito menos paciência com o atleta homossexual do que com o heterossexual. Se o cara jogar três jogos ruins, está fora. Os héteros tem uma margem de erro maior”, completa.

Em comparação, na várzea a situação é um pouco mais aberta. Quem afirma é o técnico Sebastião Lucas de Almeida, o Tião, bicampeão da Copa Kaiser, o principal torneio do futebol amador de São Paulo. “Quando eu era jogador, atuei ao lado de muitos homossexuais. E sempre teve muito respeito, pelos companheiros e pelo esporte. E o engraçado é que os gays eram sempre os mais bravos em campo, os caras que mais batiam”, conta o treinador, que hoje comanda o Classe A, da Barra Funda.

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