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Jovem do Botafogo homenageia Barbosa e diz que carrega legado do "goleiro negro"

Goleiro Luís Guilherme treina pelo Boavista durante o Estadual do Rio deste ano - Fair Play assessoria/Divulgação
Goleiro Luís Guilherme treina pelo Boavista durante o Estadual do Rio deste ano Imagem: Fair Play assessoria/Divulgação

Bruno Freitas

Do UOL, em São Paulo

08/05/2012 06h00

Uma das mais controversas lendas criadas no futebol brasileiro dizia por aí que goleiro negro não é confiável, não é competente. A convicção nasceu na fatídica falha de Barbosa na final da Copa do Mundo de 50 no país, que culminou na derrota para o Uruguai, e ganhou substância racial para sobreviver por décadas, até que um pegador de pênaltis chamado Dida começou a exterminar esse folclore.

  • Capa de "Barbosa - Um gol faz cinquente anos", do jornalista Roberto Muylaert; livro inspirou o jovem goleiro Luís Guilherme

Hoje, 12 anos após a morte de Barbosa, em um desfecho de uma vida castigada pela cobrança sem fim pela derrota de 50, um jovem jogador do Botafogo assume o legado do "goleiro negro", em um início de carreira que combina potencial de camisa 1 e uma inclinação para a intelectualidade, incomum entre boleiros iniciantes. 

Em 13 de janeiro de 2010, em confronto válido pela segunda fase da Copa São Paulo de juniores no Nicolau Alayon, estádio do Nacional em São Paulo, o Botafogo avançou à etapa seguinte através das decisões por pênaltis, graças a três defesas de Luís Guilherme. Tratado como herói daquela classificação alvinegra contra o São Carlos, o então jovem de 17 anos foi cercado pela imprensa presente no jogo e surpreendeu ao citar Barbosa como inspiração na atuação abaixo das traves.

"Falei naquela decisão por pênalti que era um dos meus ídolos. A história dele me marcou muito. Todo um peso depositado nas costas dele. Ele cometeu uma falha, mas foi tratado como bode expiatório, carregando até o fim da carreira", afirma Luís Guilherme em entrevista ao UOL Esporte.

"O Brasil é um país mestiço, ainda pesa muito a questão do racismo. É uma motivação a mais para mim", acrescenta o goleiro iniciante do Botafogo.

Quando Luís Guilherme nasceu, Barbosa já estava quase se mudando do Rio de Janeiro para Praia Grande, onde passou os últimos tempos de vida. Quando o ídolo do Vasco morreu em 2000, o pequeno futuro goleiro tinha apenas sete anos. Sendo assim, por que então um personagem tão distante na história do futebol e que não figura propriamente entre os laureados dos gramados nacionais fascinou tanto o jovem?

Luís Guilherme tomou contato com a história do personagem da Copa de 50 quando defendia as categorias de base da seleção e ganhou um presente de um funcionário da Granja Comary, instalações de treino da CBF em Teresópolis. O goleiro adolescente do Botafogo recebeu o livro "Barbosa - Um gol faz cinquenta anos", de autoria do jornalista Roberto Muylaert. A obra discorre sobre a tragédia brasileira no Maracanazo e todo o estrago que o chute do uruguaio Alcides Ghiggia fez na vida do então jogador do Vasco.

O jovem atleta relata que a leitura da experiência de Barbosa causou um impacto fulminante em sua percepção do negro no futebol, bem como no entendimento sobre seu próprio começo nos campos. Por isso, desde então procurou se aprofundar mais sobre a biografia do antigo arqueiro do famoso time "Expresso da Vitória", do Vasco dos anos 40. Ele garimpou entrevistas e foi ao Museu do Futebol no Pacaembu ver a famosa cena do gol de Ghiggia. Luís Guilherme diz que se identifica com a história do antigo jogador e compara episódios dela com questões de seu início de carreira.

"No pós-Barbosa existiu muito preconceito com o goleiro negro. Eles só voltaram à seleção com o Dida, e agora com o Jefferson. Mas até hoje existe uma certa resistência", diz Luís Guilherme, que relata ter sentido o rótulo na seleção.

"Existiu uma resistência para eu ser convocado. Não digo que exista uma segregação, mas um certo estigma", emenda o goleiro a respeito de seu aproveitamento nas equipes de base do Brasil.

Depois de despontar com sucesso na edição de 2010 da Copa São Paulo, Luís Guilherme conviveu alguns meses como reserva de Jefferson no Botafogo e atuou emprestado na meta do Boavista no Estadual do Rio deste ano. Paralelamente à vida de goleiro iniciante, o jovem carioca se esforça para cumprir a rotina puxada de um estudante universitário.

Atualmente Luís Guilherme cursa o 3º período de Psicologia na IBMR, na sede da Barra da Tijuca. Admirador dos livros sobre liderança do técnico de vôlei Bernardinho, o goleiro projeta aplicar seu conhecimento acadêmico no mundo do futebol mais adiante, quando a carreira de jogador profissional acabar.

Tirando a dedicação a futebol e psicologia, Luís Guilherme é fã ardoroso de música e costuma brincar de DJ quando pode. O goleiro é mais ligado no universo do rap e hip hop, mas ouve estilos dos mais variados possíveis e dos menos óbvios em se tratando de um boleiro. "Gosto de clássica, soul, samba e blues. Ouço Barry White, Billy Paul, Ray Charles, Frank Sinatra", lista o eclético goleiro.

 

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