Topo

Marcel Rizzo

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Por que a Fifa se contradiz sobre Copa Rio, Intercontinental e Mundial?

Palmeirenses com a taça da Copa Rio de 1951; time bateu a Juventus na decisão - Acervo/SE Palmeiras
Palmeirenses com a taça da Copa Rio de 1951; time bateu a Juventus na decisão Imagem: Acervo/SE Palmeiras

Colunista do UOL

10/02/2022 13h56

Receba os novos posts desta coluna no seu e-mail

Email inválido

Afinal, a Fifa considera ou não a Copa Rio de 1951 como Mundial? E os Intercontinentais entre europeus e sul-americanos disputados entre 1960 e 2004? Por que às vezes a Fifa diz que os campeões mundiais são apenas aqueles dos torneios que organizou, em 2000 e ininterruptamente a partir de 2005, e depois fala do status de mundial de outras competições, como fez em texto em seu site nesta quinta-feira (10), citando a Copa Rio como o primeiro torneio mundial de clubes?

A Fifa divide esta questão, digamos, em prateleiras. Se algum jornalista envia um pedido, por exemplo, à Fifa perguntando quais são os clubes campeões mundiais, como várias vezes já ocorreu, normalmente a resposta é: os campeões mundiais DA FIFA são aqueles das competições organizadas pela entidade, em 2000 com o torneio vencido pelo Corinthians no Brasil, e depois sem parar a partir de 2005 que teve São Paulo (2005), Inter (2006) e Corinthians (2012) como os brasileiros campeões.

A entidade confunde tudo quando, em outro momento, escreve em seu site que a Copa Rio de 1951, torneio que reuniu Palmeiras, o campeão, Vasco e outros seis times estrangeiros, foi o primeiro campeonato mundial de clubes, o que ratifica a estrela vermelha que os paulistas têm acima de seu escudo como o primeiro clube campeão do mundo.

Há, para a Fifa, os campeões mundiais dos torneios organizados por ela, DA FIFA, e clubes vencedores de competições com alcance global, equivalentes a mundiais. Aí entram a Copa Rio e os Intercontinentais entre europeus e sul-americanos, que sempre no Brasil foram tratados como mundiais antes de a federação internacional passar a organizar a sua competição.

Primeiro ponto: a Fifa ganha dinheiro, ou tenta pelo menos (não tem faturado muito na verdade), com seu Mundial. Portanto é legal valorizá-lo ao máximo, o colocando sempre uma prateleira acima dos demais. Mas ao afirmar como fez nesta quinta em seu site que "o campeonato mundial foi sonhado e discutido por anos pelos maiores dirigentes do futebol da época e finalmente foi agendado para 1951" fica difícil argumentar que a Copa Rio não foi de fato o primeiro torneio mundial de clubes, apesar de em outros momentos a Fifa ter usado o termo global para esse campeonato.

DOCUMENTOS

Em março de 2007, um documento, enviado por fax, pelo então secretário-geral da Fifa, o suíço Urs Linsi, dizia que a Copa Rio havia sido o primeiro torneio de clubes com alcance mundial e parabenizava o Palmeiras pelo título. Talvez pela diretoria palmeirense tratar o assunto de forma meio atabalhoada, apesar do ótimo trabalho de pesquisa feito que gerou um dossiê enviado à entidade, o documento acabou virando meme antes de existirem os memes com a história do "campeão por fax".

A Fifa nunca disse que o teor do documento foi anulado, mas como vira e mexe algum jornalista pergunta para a Fifa se o Palmeiras é campeão mundial, e a resposta é que os campeões mundiais DA FIFA são aqueles a partir de 2000, a confusão é instalada — e as quase sempre sadias gozações entre os torcedores também.

O mesmo ocorre com os Intercontinentais. Apesar de desde sempre os brasileiros, e outras nacionalidades sul-americanas também, tratarem o jogo entre os campeões da Liga dos Campeões e da Libertadores como Mundial, a Fifa só oficializou isso em 2017, após pedido oficial da Conmebol. Mas, novamente, questionada outras vezes sobre quais são os campeões mundiais, invariavelmente a Fifa esquece do Intercontinental e só cita os torneios que organizou, os campeões DA FIFA.

A Fifa, ao mesmo tempo que quer valorizar o seu torneio, também faz política com países e confederações querendo agradar. Em 2007 houve até intervenção de parlamentares no pedido do Palmeiras, o que levou a CBF a trabalhar forte nos bastidores, e agradar a Conmebol era interessante para a Fifa em 2017 em meio a, naquele momento, o plano de aumentar o número de participantes da Copa de 32 para 48 já em 2022, o que acabou não se concretizando. Para a entidade, portanto, essa polêmica funciona.