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Marcel Rizzo

Atleta joga 18 minutos com concussão na Copa América e escancara falhas

Troféu da Copa América é exibido em evento de divulgação do torneio realizado no Brasil em 2019 - Buda Mendes/Getty Images
Troféu da Copa América é exibido em evento de divulgação do torneio realizado no Brasil em 2019 Imagem: Buda Mendes/Getty Images
Marcel Rizzo

Marcel Rizzo - Formado em jornalismo em 2000 pela PUC Campinas, passou pelas redações do Lance!, Globoesporte.com, Jornal da Tarde, Portal iG e Folha de S. Paulo, no qual editou a coluna Painel FC. Cobriu Copas do Mundo, Olimpíada e dezenas de outros eventos esportivos.

Colunista do UOL

05/03/2020 04h00

"Jogador sofreu uma concussão com um choque entre cabeças, ao dar um salto, no minuto 72 do jogo [27 do segundo tempo]. O jogador seguiu atuando, sem mostrar nenhum sinal de suspeita. Ao se retirar ao vestiário estava desorientado e acabou se dirigindo ao vestiário do time adversário".

O relato está em um documento da comissão médica da Conmebol (Confederação Sul-Americana de Futebol) com análise sobre as lesões sofridas pelos jogadores que participaram da Copa América de 2019, no Brasil. E exemplifica a dificuldade que o futebol ainda tem para diagnosticar a concussão, que pode levar atletas a terem problemas de saúde graves no decorrer da carreira e da vida.

O relatório da Conmebol omite o nome dos atletas que sofreram concussão na Copa América. Foram três, dois deles diagnosticados em campo e substituídos, como manda o protocolo — o blog apurou que se tratavam de atletas da Venezuela e da Bolívia. O terceiro, que está na descrição que abre esse texto, atuou por 18 minutos (sem contar os acréscimos) sem consciência do que estava fazendo, principal sintoma da concussão.

Por isso que em sua reunião anual, realizada no dia 29 de fevereiro na Irlanda do Norte, a International Board (Ifab), órgão que tem membros da Fifa e de federações britânicas e é o responsável por regular o futebol, incluiu como principal tema a concussão. Um grupo de trabalho será formado para debater o tema e possíveis mudanças de protocolo, como substituições temporárias, para evitar casos como o relatado na Copa América.

O torneio de seleções realizado no Brasil teve 38 lesões que foram comunicadas pelos participantes à comissão médica da Conmebol. A maioria, 15, foram musculares, o que é normal em competições de futebol. Em segundo lugar apareceu o joelho, com sete, em terceiro a cabeça, com seis.
Dessas seis na cabeça três, metade no caso, foram concussões -- as demais foram duas feridas na face e um nariz quebrado.

Sobre o jogador não revelado que sofreu a concussão e permaneceu em campo, o relatório diz que após a partida se aplicou o teste padrão (que deveria ter sido feito no campo) e já havia melhora. Ele foi levado ao hotel, ficou sob observação e no dia seguinte não havia mais sintomas.

O protocolo
A concussão cerebral é a perda da consciência de curta duração, que acontece logo após um traumatismo craniano (bater com a cabeça). Ela caracteriza-se pela presença de sintomas sem nenhuma lesão identificada, mas com danos microscópicos, dependendo da situação, reversíveis ou não. Essa ausência de lesões visíveis é o que faz com que muitas atletas que sofrem concussão em uma partida de futebol fiquem em campo.

Hoje, se um jogador leva uma pancada na cabeça durante a partida e o médico do clube percebe ele pode entrar no campo sem pedir autorização ao árbitro, o que anteriormente ocasionaria numa advertência ou até expulsão. Ele tem três minutos para realizar testes com o atleta para identificar se há ou não a confusão mental, principal sintoma da concussão. O jogo fica parado durante esse tempo, mas se o médico entender que é preciso mais testes o atleta tem que sair de campo, deixando sua equipe com um a menos pelo período do exame ou até uma substituição.

Foi um avanço, já que anteriormente se o atleta não perdesse a consciência seguia em campo sem qualquer exame, mas ainda não o ideal, admitem até membros da comissão médica da CBF. Como o blog já mostrou, o chefe da comissão médica da CBF, Jorge Pagura, defende que uma regra seja criada para que um atleta lesionado, principalmente em casos de pancada de cabeça, fique 10 minutos fora de campo e o time possa fazer uma substituição temporária, para não ficar com um a menos. Se o jogador for liberado pelo médico, volta, caso contrário a substituição se torna definitiva.

A concussão é uma lesão que pode causar danos irreversíveis ao cérebro. Uma das principais é a ETC. Foi nos EUA que se passou a ligar a encefalopatia traumática crônica a outros esportes que não apenas o boxe. A doença neurodegenerativa é causada por pancadas repetidas na cabeça, que se leva à perda de memória e falta de atenção, dor de cabeça e evolui para agressividade, confusão mental, podendo levar ao suicídio. Há casos na NFL, a liga profissional de futebol americano, que ano a no tem tentando evitar que atletas que sofram concussão joguem antes de estarem recuperados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.