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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Liga vai nascer fracassada se clubes seguirem desafinados

Maracanã antes da partida entre Flamengo e Grêmio, pela Copa do Brasil - Paula Reis/CRF
Maracanã antes da partida entre Flamengo e Grêmio, pela Copa do Brasil Imagem: Paula Reis/CRF
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Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz "Gestão além da Planilha".

Colaboração de Augusto Zaupa

18/09/2021 04h00

Há cerca de três meses, quando surgiram os primeiros movimentos para a criação de uma Liga independente, escrevi aqui neste espaço que nada iria adiantar se não houve união entre os clubes. Pois bem, toda a confusão que ocorreu ao longo dos últimos dias, envolvendo a liminar que o Flamengo conseguiu no STJD para ter a presença da torcida nos estádios do Rio de Janeiro, mostrou muito bem que este torneio está fadado a nascer já fracassado por conta da rede de intrigas no futebol brasileiro.

Assim como ocorreu na criação da extinta Primeira Liga, estes movimentos, que tentam impedir que a CBF coloque as mãos para seguir conduzindo todas as competições nacionais, são orquestrados por dirigentes profundamente ligados aos seus times de coração, com isso, pensam apenas no próprio umbigo. Geralmente, boa parte deste grupo de cartolas visa melhorias para o seu time, e não para o futebol brasileiro como um todo.

Simplesmente o Flamengo apenas parou e pensou: o que eu posso fazer para voltar a arrecadar, ter público e seguir vencendo em campo? A resposta soubemos quando saiu a limitar liberando parte dos torcedores ao Maracanã após mais de 500 dias. Importante ressaltar que não se trata de falta de equivalência, mas sim da ausência de ética. Os dirigentes do time carioca participaram da reunião virtual do conselho técnico com os demais 19 clubes, acertando que as arquibancadas só voltariam a ter a presença de torcedores quando todos os participantes (cidades/clubes) tivessem a mesma condição.

Esta rivalidade dentro de campo transborda para os bastidores e essa desunião fica nítida aos nossos olhos. A forma como o futebol é tratado aqui no Brasil deixa muitas pessoas vendadas, com atitudes egoístas. Há uma necessidade de um sempre estar no topo e o adversário no fundo do poço. Esta individualidade exacerbada também atinge os próprios jogadores. Não vi nenhum movimento dos clubes ou de sindicato se posicionando a favor do Diego Tardelli, por exemplo, após as cenas de barbárie ocorridas depois da eliminação do Santos na Copa do Brasil, na última terça-feira (14).

Não condeno quem trabalha para melhorar a sua casa, e não o lado global. Mas sejamos francos para não criarmos falsas expectativas aos torcedores que se preocupam com o coletivo.

"Para a construção de algo que seja sólido, é necessário que seja feita a identificação dos objetivos para a criação da Liga. Se ela for criada só para enfrentar a Globo ou a CBF, ela vai nascer e morrer logo em seguida. O grande desafio que se tem para a manutenção de um projeto como este é, antes de formatar, a realização de um exercício para identificar objetivos em comum a todos os clubes. Uma liga só se destrói quando ela não tem objetivos ou quando eles são frágeis. Mas sabemos como identificar estes objetivos grandes em comum, como a negociação de direitos de imagem, busca por patrocinadores para a Liga. Mas nascer fadada a morrer, como já vimos por duas vezes, o grande erro, na minha óptica, foi a não identificação em comum de uma instituição que representa os clubes", me disse Maurício Andrade, que trabalhou nas extintas Liga Sul-Minas e Primeira Liga.

Para ele, não haverá conflitos de interesses quanto aos negócios. "Não haverá uma concorrência, porque a Liga vai cuidar dos interesses da competição, e os clubes têm as suas negociações de maneira individualizada, o que já acontece hoje. A CBF tem os seus patrocinadores, a Globo os dela, e não necessariamente estes mesmos caras sejam patrocinadores dos clubes. O mercado já reconhece que são partes distintas".

Como também já havia escrito em outra ocasião, é preciso vigiar quem irá gerir esta Liga, tirar o poder das mãos dos dirigentes de times para evitar picuinhas. Temos tantos ex-jogadores e profissionais capacitados à disposição que podem atuar em prol do futebol brasileiro, tirando a caneta da mão dos que defendem interesses únicos.

"É preciso ter um cuidado para a não participação de dirigentes na condução diária do trabalho da Liga. Eles podem fazer parte de um conselho, alguma coisa neste sentido, mas o CNPJ da Liga e a condução precisam ser totalmente independentes", comentou o Marcelo. "Os clubes vão continuar desunidos, não haverá 100% de união, não tem como não ter disputa entre eles em algum momento, é coisa do mercado. Por isso que a gestão e a autonomia da Liga precisam ser soberanas, não pode haver influência. Mas essa grande união entre os clubes não vai acontecer por diversos motivos".

Joguei numa das ligas mais fortes do mundo, a Bundesliga, por quase cinco anos. Não dá para perceber esta divisão e a briga politica nos bastidores porque este processo para chegar ao sucesso que é a Liga alemã tem hoje demorou alguns anos. Tudo que é combinado antes de a temporada começar é mantido, é respeitado. Quando surge algum percalço os envolvidos sentam para debater e pensam como um todo.

Deixei a Alemanha há mais de dez anos, mas tenho certeza que todos se reuniram para enfrentar os problemas que surgiram durante a pandemia. Foi pensando o que era melhor para a maioria, e não para um ou dois apenas.

Precisamos nos alinhar dentro e fora de campo, e não digo isso apenas em relação ao futebol.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL