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Flamengo de 2019 deixou a régua alta

Jogadores do Flamengo posam com a taça de campeão brasileiro - Thiago Ribeiro/AGIF
Jogadores do Flamengo posam com a taça de campeão brasileiro Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Tinga

Tinga é um ex-jogador de futebol. Como profissional defendeu as cores do Grêmio, Internacional, Cruzeiro e da seleção brasileira. Atuou ainda em clubes da Alemanha, Portugal e Japão. Foi campeão da Libertadores, Recopa Sul-Americana, do Campeonato Brasileiro e da Copa do Brasil. Hoje, Tinga é empresário e percorre o país fazendo palestras sobre empreendedorismo, mostrando como se faz “Gestão além da Planilha”.

06/08/2020 04h00

Faltam poucos dias para começar o campeonato mais difícil do mundo. Mas isso não significa que seja o melhor. O Campeonato Brasileiro é o mais duro em termos de liga nacional porque, em situações normais, quase nunca acertamos com antecedência quem será o campeão, ao contrário do que ocorre nas principais ligas da Europa.

Na Espanha, apontamos com os olhos fechados para Real Madrid ou Barcelona. Já na Itália, essa situação é ainda mais evidente, visto que a Juventus conquistou as últimas nove edições do torneio. Mas, em épocas normais, ainda podemos colocar na briga Inter de Milão e Milan.

Na Inglaterra, ficamos entre o 'big five' ou 'bis six', e na Alemanha vamos mais de Bayern de Munique e, às vezes, Borussia Dortmund. O mesmo se repete em Portugal, com Porto e Benfica - o Sporting, de vez em quando, surge como a terceira força.

Já no Brasil, mesmo que um time arranque na frente logo nas primeiras rodadas, não tínhamos o costume de apostar com convicção. Mas este panorama mudou depois que o Flamengo fez em 2019.

Joguei várias edições do Campeonato Brasileiro e estou há cinco anos longe do futebol. Particularmente, nunca havia visto um time encantar e jogar tão bem como fez coletivamente o Flamengo. Friso bem o termo coletivo, pois jamais observei no Brasil um time se encaixar tão bem no conjunto.

Lógico, em quase 20 anos como profissional, vi muitos craques disputando o Brasileiro. Enfrentei Edmundo, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Djalminha, Rivaldo, Ronaldo Fenômeno... Individualmente, eles são incomparáveis pelo o que fizeram, tanto no Brasil quanto na Europa. Alguns deles, inclusive, foram campeões mundiais pela seleção brasileira. O Flamengo de 2019 não tinha nenhum desses fora de série, mas coletivamente foi o que jogou o melhor futebol.

A régua agora está alta devido ao trabalho realizado pelo técnico Jorge Jesus na sua passagem pelo Rubro-Negro. Só não ousaria em dizer que o Flamengo vai ganhar novamente o campeonato, apesar das inúmeras variáveis por aqui, como mudanças climáticas, translado entre cidades, oscilação da qualidade do gramados...

Jesus deixou o time muito bem organizado. Ele chegou e logo conquistou a todos. Os jogadores acreditavam nas convicções do Mister, que esperneava à beira do gramado a cada passe errado, mesmo que o seu time estivesse em vantagem. O treinador lusitano quebrou ainda o hábito de poupar jogadores de partidas com o argumento de que, se necessário, o descanso viria nos treinos, e não nos jogos. Na Europa, os técnicos sabem que cada jogador tem uma forma de recuperação entre as rodadas. Eles confiam mais nos seus atletas.

A massa rubro-negra enxergou também a competência de Jesus e igualmente abraçou o português, que teve até 'direito' a um sósia nas partidas do Maracanã. A empatia do torcedor era retribuída a cada jogo ao fazer o elenco agradecer o apoio da nação ao fim das partidas.

Para o futebol brasileiro ficou um grande legado a passagem de Jesus pela Gávea. O belo trabalho dele nos abriu a cabeça e está possibilitando que outros bons treinadores venham para o Brasil, pois há mercado para todos, tanto para estrangeiros como treinadores daqui.

O desafio agora, no entanto, é manter esta régua no topo. Pode até parecer piegas, mas a torcida, a imprensa e os demais envolvidos terão que ter paciência com o Domènec Torrent. O imediatismo é muito perigoso no futebol. Por isso, é delicado falar em possível sucesso ou fracasso antes de a bola rolar.

No Brasil, só consideramos o que está dando certo com vitórias. A avaliação no futebol é até contraditória. Acredito que só teremos uma apreciação correta desse esporte quando, numa rodada de fim de semana, um time que, mesmo derrotado, consiga as famosas notas pós-jogo acima dos demais times do campeonato. Aí, sim, iremos enxergar o futebol como um jogo bonito, e não como resultado.

Domènec também precisa saber onde está pisando. De nada vai adiantar querer mudar tudo o que foi feito por Jorge Jesus logo de cara. Mas, pelo o que ele falou ao desembarcar no Rio, acredito que essa transição não será abrupta, já que o espanhol fez elogios ao trabalho deixado pelo português. Ele lembrou muito bem que "não adianta chegar como um elefante entrando num lugar pequeno e estragar tudo, porque o trabalho do Jesus foi fantástico".

Como não poderia ser diferente, o sucesso do Flamengo fez despertar a fome de outros grandes clubes da Série A. O Atlético-MG se reforçou como vários novos jogadores nesta paralisação devido à pandemia e ainda trouxe o argentino Jorge Sampaoli, que, mesmo sem um elenco forte como o do Flamengo, levou o Santos ao vice-campeonato em 2019. Agora, Sampaoli tem à disposição peças que foram escolhidas por ele.

O também argentino Eduardo Coudet está dando uma nova cara ao Internacional. Em poucos jogos, conseguiu reequilibrar o lado vermelho do Rio Grande do Sul e, desta forma, será bom ver um novo trabalho para encarar o já consolidado Renato Gaúcho, no Grêmio.

Também aposto que times do Nordeste darão trabalho. Clubes como o Bahia, Fortaleza e Ceará estão mais organizados em relação aos do centro do país. Essa melhora na gestão fica evidente quando presenciamos atletas renomados preferindo assinar contratos com times da parte de cima do país por confiar no que foi tratado. Acredito que algum destes clubes do Nordeste têm chance de pegar uma vaga direta na Libertadores 2021.

Agora, com o nível lá em cima graças ao Flamengo, estou curioso para ver como o futebol brasileiro irá se portar a partir deste sábado.

Espero que a régua siga lá em cima!

* Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.