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OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Por que Djokovic não foi indicado ao Laureus

Reuters
Imagem: Reuters
Alexandre Cossenza

Alexandre Cossenza é bacharel em direito e largou os tribunais para abraçar o jornalismo. Passou por redações grandes, cobre tênis profissionalmente há oito anos e também escreve sobre futebol. Já bateu bola com Nadal e Federer e acredita que é possível apreciar ambos em medidas iguais. Contato: ac@cossenza.org

Colunista do UOL

25/02/2021 13h16

O prêmio Laureus World Sports Awards é conhecido popularmente como o Oscar do esporte. Um grupo de 68 ex-atletas ilustres vota anualmente nos destaques daquele período, e tenistas costumam ter bastante destaque na premiação. Isso acontece não só porque a Academia tem ex-tenistas como Boris Becker, Na Li, Martina Navratilova e Monica Seles, mas porque, convenhamos, o tênis é um dos esportes de mais prestígio no planeta (não importa se aquele programa de meio-dia na sua TV nunca mostra tênis).

A lista de indicados deste ano mantém a força do tênis, com vários indicados. Rafael Nadal concorre a Esportista Homem do Ano; Naomi Osaka concorre a Esportista Mulher do Ano; e Iga Swiatek e Dominic Thiem estão entre os indicados para Breakthrough do Ano (categoria tradicionalmente traduzida como "revelação", mas que tem mais a ver com atletas que quebram uma barreira - no caso, Domi e Iga venceram seus primeiros slams).

Ao olhar a lista, a primeira pergunta que um fã comum pode fazer é "Por que Novak Djokovic, número 1 do mundo, campeão do Australian Open e vice em Roland Garros, não está indicado?" Por que Rafael Nadal, número 2 do ranking, é quem figura como "representante" do tênis na categoria mais ilustre do #Laureus21, que premia os feitos de 2020?

É possível fazer a mesmo pergunta no caso do feminino. Naomi Osaka, número 3 do mundo, é a indicada. Ashleigh Barty, que pouco jogou em 2020, ficou fora. Sofia Kenin, campeã do Australian Open e vice em Roland Garros, além de número 2 do mundo, tampouco foi incluída na relação. Por quê?

Ninguém do Laureus falou oficialmente, mas não é difícil entender, e a lógica parece a mesma para os dois casos. Em 2020, Naomi Osaka jogou apenas quatro torneios. Foi semifinalista em Brisbane, perdeu na terceira rodada do Australian Open, foi vice em Cincinnati (WO na final contra Azarenka) e conquistou o US Open. Parece muito pouco para valer um lugar entre a elite da elite do esporte mundial. E é.

Dentro de quadra, Osaka fez mesmo muito pouco. Porém, fora dela, o papo é outro. A japonesa foi voz ativa durante os protestos raciais nos Estados Unidos. Ela, inclusive, disse que não entraria em quadra durante o WTA de Cincinnati em protesto ao que ela chamou de "contínuo genocídio de pessoas negras pelas mãos da polícia." Pouco depois do anúncio de Naomi (vide tweet abaixo), o torneio de Cincinnati anunciou o cancelamento de todas as partidas daquele dia. A mensagem de Osaka chegou alta a clara ao mundo do tênis.


E se a postura fora de quadra da japonesa foi o que possivelmente lhe colocou na lista de indicadas à categoria mais ilustre do Laureus, é justo imaginar que foi o mesmo critério que excluiu Djokovic do rol dos maiores esportistas de 2020 segundo a Academia. O sérvio não só organizou um circuito de exibições (Adria Tour) que teve de ser cancelado por causa de participantes contagiados com covid-19 como realizou uma série de bate-papos via Instagram nos quais manifestou uma posição contra vacinas, endossou substâncias de eficiência questionável e disse ser possível purificar água com o poder da mente. Dentro de quadra, Nole também vacilou feio. Em um momento de raiva, acertou uma bolada em uma juíza de linha e foi desclassificado do US Open.

Nadal pode não ter feito muito dentro de quadra em 2020, mas foi vice-campeão da ATP Cup, conquistou o ATP 500 de Acapulco e venceu Roland Garros pela 13ª vez na carreira - feitos que não o colocaram nem perto do posto de número 1 do mundo. Por outro lado, Rafa sempre adotou um discurso de cautela em relação à pandemia e, mesmo quando venceu no saibro francês, não esqueceu de mencionar o grande problema de saúde no mundo. A Academia do Laureus votou e, ainda que de forma indireta, deu seu recado, lembrando que o nome do prêmio é "Esportista do Ano" e não "Maior Campeão do Ano". E o maior "esportista", no sentido mais amplo da palavra, precisa ser mais do que alguém que levanta troféus.

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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL