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Rodrigo Coutinho

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Alemanha foi o melhor adversário possível para a estreia do Brasil

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Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

22/07/2021 10h29

A ótima estreia do Brasil no torneio de futebol masculino dos Jogos Olímpicos de Tóquio possui particularidades importantes a serem ressaltadas. Entender as características e o comportamento deste time da Alemanha, somados ao contexto que encaixou no que a Seleção se propôs a fazer, é determinante para evitar a euforia ou a pressão exacerbada que costumam nos pautar neste tipo de competição. O Brasil atropelou a Alemanha com todos os méritos no 1º tempo! Richarlison mostrou que pode fazer a diferença em Tóquio, mas entender como isso aconteceu é necessário.

O ponto principal a ser abordado é a diferença técnica entre Brasil e Alemanha nestas equipes. O time europeu tem, na prática, dois jogadores que se destacam dos demais. Arnold, volante de ótimo passe, finalização e controle do meio-campo. E Amiri, meia-atacante habilidoso e com capacidade para deixar os companheiros na cara do gol. O restante é formado, em sua maioria, por jovens buscando afirmação no mercado interno. Diferente do Brasil, que tem mais nomes consolidados em competições europeias mais difíceis.

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Como Brasil e Alemanha começaram o jogo
Imagem: Rodrigo Coutinho

Não se trata de diminuir o feito brasileiro, mas sim apresentar a realidade. A Seleção fez valer sua superioridade com postura agressiva e organização voltada para aproveitar os espaços que a Alemanha daria. Aliás, enfrentar um adversário que em nenhum momento buscou ''especular'', jogar no erro do Brasil, foi determinante. Sem a devida capacidade para gerar danos na ''defesa canarinho'', a Alemanha se expôs e mostrou uma transição defensiva problemática, fator aproveitado pelo time de André Jardine em diversas chances criadas.

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Esta cena será rara nesses Jogos Olímpicos. Brasil marcando em bloco baixo e o time adversário com vários jogadores instalados no ataque
Imagem: Rodrigo Coutinho

Interessante também foi ver a dinâmica criada pelo casamento de características entre Matheus Cunha e Richarlison, que pela primeira vez formaram a dupla de ataque da equipe. Cunha é um centroavante de mobilidade. Não fica preso dentro da área ou só entre os zagueiros, circula a intermediária, tem técnica e inteligência para ''carimbar'' a bola e servir companheiros, abrir espaços, lacunas que seu companheiro de frente é especialista em atacar, como vimos diversas vezes ao longo do jogo.

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Matheus Cunha, em amarelo, sai da referência e atrai a atenção de defensores alemães. Richarlison, em vermelho, tem então a condição de atacar o espaço e receber de Antony para marcar o primeiro gol
Imagem: Rodrigo Coutinho

A função não é novidade para Richarlison. Já a fez em alguns momentos com Tite na seleção principal. Assim como não foi novidade também o comportamento de Claudinho. Já havia atuado como meia-esquerda nos últimos amistosos. Com a bola, o atleta do Red Bull Bragantino sai da esquerda pro meio e abre espaço para Guilherme Arana atacar em amplitude. Sem a bola, no momento defensivo, fecha o espaço pelo flanco esquerdo. Não houve novidade alguma nesse cenário.

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Detalhados em preto, Antony e Arana dando amplitude ao time no campo de ataque. Claudinho, em amarelo, flutua para abrir o corredor ao lateral atleticano
Imagem: Rodrigo Coutinho

Daniel Alves novamente formou a primeira linha de construção com os zagueiros. Forma uma saída de três e depois ataca por dentro. Por isso Antony fica mais fixo pela direita, num comportamento diferente em relação ao de Claudinho pela esquerda. Coerência de André Jardine para aproveitar o melhor de cada jogador e ocupar os espaços com perfeição e coordenação no campo de ataque.

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Estrutura de saída de bola da Seleção em 3-2. Daniel Alves alinhado aos zagueiros e Arana mais liberado pela esquerda
Imagem: Rodrigo Coutinho

Bruno Guimarães e Douglas Luiz fizeram um belo jogo também. Distribuindo os passes com velocidade e tendo que fazer menos transições defensivas em comparação aos jogos que virão. Destaque para a compactação do time em fase defensiva. Permitiu pouco trabalho aos alemães entre as linhas. De negativo, a falha de Santos no primeiro gol alemão, e o relaxamento depois dos 20 minutos da 2ª etapa, que acabou recolocando os europeus no jogo.

A vitória, por mais que dois gols tenham sido sofridos no 2º tempo, dá moral e faz justiça a um trabalho sério desenvolvido pelos jogadores, André Jardine, e a comissão técnica. Mas é importante que lembremos. Os outros jogos terão um contexto totalmente diferente. Segurar a emoção é prudente. A euforia excessiva leva à debilidade futura.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL