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Rodrigo Coutinho

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Início da Série B confirma protagonismo e bom trabalho do Náutico em 2021

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

23/06/2021 04h00

Líder isolado da Série B com 100% de aproveitamento, o Náutico anima não só pela pontuação, mas pelo desempenho que vem mostrando desde o início de 2021. Se a ótima campanha no Campeonato Pernambucano foi vista com certa desconfiança pelo nível da competição, o início da caminhada rumo à elite nacional corrobora o bom trabalho feito pelo Timbu.

São 17 jogos e apenas uma derrota na temporada, ocorrida quando o time já tinha a classificação garantida para a fase final do Estadual e poupou alguns titulares contra o Sport. No restante, muita agressividade em campo. Seja com a bola ou sem ela, postura que tem se repetido independentemente do estádio em que atua, e que parece que será o norte do time dirigido por Hélio dos Anjos.

O experiente treinador está em sua terceira passagem pelo Alvirrubro, e assumiu o comando em novembro do ano passado, no início do returno da Série B. O Náutico era o 17º colocado na ocasião, estava na zona de rebaixamento, e terminou uma posição acima, permanecendo na ''Segundona''.

Mesmo tendo subido pouco em termos de posição na tabela, o aproveitamento foi superior ao do 1º turno, e uma base começou a ser formada sob a regência daquilo que pautou boa parte da carreira do treinador. Firmeza e competitividade. A partir de janeiro a parte ofensiva foi se desenvolvendo e o conjunto cresceu, resultando na atual equipe.

O time geralmente é montado no 4-2-3-1 e gosta de marcar a saída de bola dos adversários, principalmente nos jogos dentro de casa. Com o placar favorável, recua um pouco o bloco para aproveitar a velocidade de alguns jogadores. Erick principalmente. Mas aqui vai uma preocupação. O ponta tem contrato de empréstimo prestes a se encerrar, pertence ao Sporting Braga, e ainda não houve acordo por uma renovação.

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O time-base do Náutico neste momento da temporada
Imagem: Rodrigo Coutinho

Perder Erick seria ruim neste momento. Além da importância nas transições ofensivas, ele entende bem o movimento que Hélio pede a seus pontas. Muitas vezes flutuam dos lados para o centro, entrando em diagonal na direção da área ou povoando o espaço entre a linha de defesa e a linha de meio rival quando o camisa 10 Jean Carlos não está por ali. Erick e Vinícius são fundamentais no volume ofensivo que o quarteto, que ainda tem o experiente Kieza, costuma gerar.

Hereda e Bryan, os laterais, ganham liberdade para apoiar à medida que a bola vai chegando ao campo de ataque, e o bom volante Rhaldney se soma a eles. Ele é o elemento surpresa do meio-campo. Faz infiltrações e busca sempre o setor da bola para auxiliar na articulação. Dá ritmo ao momento ofensivo do Timbu. Já o outro volante, Djavan ou Matheus Trindade, fica por trás da linha da bola, pronto para auxiliar os zagueiros nas transições defensivas.

Importante frisar também a liberdade de movimentação dada a Kieza e Jean Carlos. O centroavante e o meia-central, respectivamente, atuam preferencialmente na faixa central do campo, cada um em sua zona de especialidade, mas são vistos constantemente variando para um dos lados e têm esses movimentos compensados pelos pontas ou por Rhaldney. Algo feito com intensidade e coordenação na maior parte do tempo.

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Exemplo da mobilidade do quarteto ofensivo do Náutico. Kieza abrindo para a esquerda e Jean Carlos infiltra pelo meio. Pontas saindo dos flancos pra dentro
Imagem: Rodrigo Coutinho

Mesmo com a grande propensão ofensiva de seu jogo, não dá para considerar o Náutico um time de muita posse de bola. É uma equipe bem mais vertical do que de longas trocas de passe, mas sem utilizar tantas bolas longas para atacar. Outro caráter destacável é a agressividade e a coordenação para subir as linhas de marcação e sufocar a saída de bola rival, bem como as pressões pós-perda feitas logo após sofrer um desarme ou errar um passe na intermediária ofensiva.

A dupla de zaga formada por Camutanga e Wagner Leonardo auxilia no desenvolvimento dessa postura. São defensores rápidos e de boa técnica com a bola para o nível da Série B, o que encoraja o time a ter o comportamento citado. Zagueiros que garantem uma boa recuperação no caso de jogarem um pouco mais expostos.

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Números da Náutico nesta Série B
Imagem: Fonte: Opta

Além da questão de Erick citada acima, mais dois detalhes podem gerar oscilações ao Timbu nesta Série B. Um deles é a diferença que o time costuma apresentar entre o 1º e o 2º tempo. No Campeonato Pernambucano isso aparecia com mais veemência. A equipe fisicamente não rendia o mesmo, e o próprio comportamento anímico caía. Mesmo sendo algo que melhorou recentemente, é bom ficar de olho.

A outra preocupação é com a maratona de jogos. Por mais que não tenha disputado a Copa do Brasil e a Copa do Nordeste, o Náutico não possui um elenco equilibrado. É um problema de vários clubes nesta Série B, mas há um desnível considerável entre titulares e reservas, inclusive com características de reservas, em determinadas funções, que não representam reposição à altura no caso de uma lesão mais grave de algum titular.

Se Hélio dos Anjos, os atletas, e a comissão técnica conseguirem minimizar as perdas que podem surgir no caminho, o Náutico é um forte candidato a voltar para a Série A depois de nove anos de ausência e até um rebaixamento para a Série C em 2017.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL