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Rodrigo Coutinho

REPORTAGEM

Texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis.

Perto de Tóquio, Bruno Guimarães afirma: 'Prefiro jogar como camisa 8'

Bruno Guimarães em treinamento da Seleção - Lucas Figueiredo/CBF
Bruno Guimarães em treinamento da Seleção Imagem: Lucas Figueiredo/CBF
Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

16/05/2021 04h00

Bruno Guimarães é um dos meio-campistas mais talentosos surgidos nas últimas temporadas aqui no Brasil. O carioca de 23 anos completará um ano e meio como atleta do Lyon. Chegou causando grande impacto e confirmando as expectativas que gerou em 2018 e 2019, com a camisa do Athletico-PR. Bem perto de ser confirmado como um dos nomes que buscará o bicampeonato olímpico em Tóquio, ele falou sobre o atual momento da carreira, a posição que prefere atuar, e a superação do drama de uma lesão no joelho.

Em menos de seis meses depois da contratação você aprendeu a falar bem o francês, o quanto isso te ajudou para ser aceito rapidamente pela opinião pública do país?

BG: Pesa bastante. A maioria das pessoas aqui fala inglês, mas não se sentem a vontade ao não falarem o francês. Para conseguir se aproximar das pessoas no trabalho e na rua é mais complicado. Aprendi e me dei bem quando cheguei. Havia muitos brasileiros aqui e, quando parou o futebol por conta da covid, ficamos sem fazer nada e comecei as aulas todos os dias. Ao menos uma hora de aula por dia. Fiz durante um ano e isso me deu uma boa base. Consegui fazer mais amizades e me comunicar melhor dentro do clube

Chamou a atenção os jogos em sequência que você fez assim que chegou, como titular, em fases agudas de Champions League. Acha que isso também ajudou?

BG: Com certeza. Cheguei a jogar cinco partidas antes da paralisação, uma de Champions, e ainda não falava o francês. O Juninho Pernambucano mandou eu falar em espanhol e tentar me comunicar, mas depois me ajudou muito, quando chegamos nas semifinais. Pude me comunicar melhor com os outros jogadores e com o treinador. Antes, quando ele queria falar comigo, era sempre o mesmo processo. A tradutora auxiliava, mas não era uma conversa normal. Nem sei se ela passava tudo certo (risos). Agora é uma conversa muito mais franca. Ajuda bastante.

O que representa o Juninho Pernambucano como dirigente para os brasileiros no Lyon?

BG: Ele é muito respeitado não só no clube e na cidade, mas também no país. Um cara muito influente aqui. É a primeira vez dele como diretor, mas já deu pra ver que tem o instinto vencedor no sangue. Ser contratado com o aval de um cara como ele é muito importante. Um cara fenomenal. Ajuda muito não só a gente, mas também aos franceses.

Você já chegou a jogar até como zagueiro improvisado no Audax. Jogou em diversas funções no meio-campo, mas qual é a sua preferência?

BG: Posso jogar em qualquer posição do meio-campo. Como ''5'', 8'', ou até mesmo mais adiantado, como ''camisa 10''. Cheguei a jogar assim na base e no Athlético. A minha preferência é sem dúvida jogar como segundo homem de meio-campo. Me sinto à vontade em estar nas duas áreas. Quando jogo como primeiro homem de meio preciso proteger um pouco mais e não dá para atacar tanto. Apesar de que, nesta temporada, os meus números ofensivos não são tão bons. Já os meus números defensivos são os melhores da carreira. Me sinto bem em qualquer posição do meio, mas a preferência é jogar de ''8''.

01 - Lucas Figueiredo/CBF - Lucas Figueiredo/CBF
O volante Bruno Guimarães, da seleção brasileira
Imagem: Lucas Figueiredo/CBF

Em que você acha que melhorou em termos de fundamento técnico e entendimento tático nesse tempo na Europa?

BG: Tecnicamente a gente melhora no dia a dia. Quando você joga com pessoas melhores, com times maiores, você melhora automaticamente. O que mais melhorei foi na parte tática. Apesar de já ter um bom entendimento de compensação de linha defensiva e coberturas de zagueiros, são coisas que no Brasil estão atrás. Aqui se é muito refém daquilo que o treinador fala. Se é linha de cinco ou linha de quatro. O brasileiro geralmente tem isso do nível técnico ser melhor que em outros países, mas na parte tática eu aprendi bastante defensivamente.

E os treinamentos? Quais são as principais diferenças de treinamento do Brasil para a Europa?

BG: Eu trabalhei com o Tiago Nunes e o Fernando Diniz. E vejo que eles têm uma mentalidade fora da curva do futebol brasileiro. Os dois procuravam muitos treinos do Guardiola e daqui da Europa. Então já vim com uma sequência boa de treinamentos. A questão da intensidade é realmente verdade. Aqui, em 45 minutos ou uma hora de treinos, a gente corre seis quilômetros. Com relação aos exercícios de treinamento eu tive sorte. Já saí do Brasil tendo acesso a coisas de alto nível.

E na rotina do clube? Como é a relação com os companheiros, treinador, torcida e diretoria? É muito diferente do Brasil?

BG: O brasileiro é mais quente. Gosta de brincar, zoar. Quando eu não falava francês os caras me respeitavam, mas eu não tinha aquela relação de brincadeira que passei a ter depois. Não falar a língua nativa de um lugar é muito mais complicado nesse ponto. A relação com o treinador também é diferente. No Brasil existe essa coisa do treinador ser mais ''paizão''. Aqui não tem. A nossa relação é totalmente profissional. No Brasil, quando acabava o treino, o técnico perguntava da família e de outros assuntos, aqui não tem isso. Você precisa fazer o seu no campo. Não importa muito o que está acontecendo fora dele. Você é pago para jogar. Na parte dos dirigentes novamente eu tive sorte pela presença do Juninho. Aqui os caras são mais fechados.

Como funciona no Lyon com relação ao trabalho dos analistas de desempenho e como as informações sobre adversários chegam até vocês?

BG: Temos um aplicativo do clube que dois dias antes dos jogos recebemos um resumo do jogador. Características e um estudo disso. Um resumo em vídeo de dois a três minutos dos jogadores que poderemos ter confrontos diretos. É algo bem diferenciado. Não gosto muito de ver, mas sei que é necessário e tô achando legal (risos).

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Bruno Guimarães, do Lyon, em duelo com o PSG
Imagem: Jean Catuffe/Getty Images

Faltando duas rodadas para o fim da Ligue 1, o Lyon está brigando por uma das vagas na Champions League. Como é a pressão da torcida e da mídia, é comparada ao futebol brasileiro em algum aspecto? Essa classificação é tratada como obrigação?

BG: A torcida é sempre igual. Os caras cobram muito. No Brasil a pressão da diretoria é mais incisiva em comparação ao que temos aqui. O Lyon é um dos dois maiores clubes do país e temos sim a obrigação de estar na Champions League, mas sabemos que está difícil esse ano. Certamente é a Liga Francesa mais disputada da última década. Tivemos o Lille e o Monaco muito bem. Estamos brigando para dar tudo certo. O Lyon precisa estar lá

Como tem sido a convivência com os brasileiros no setor de meio-campo? A disputa por posição com o Thiago Mendes e o Lucas Paquetá, além dos demais jogadores do setor?

BG: A gente conversa bastante sobre isso. Não podemos deixar com que isso afete a nossa amizade. Somos brasileiros e estamos em outro país. De amigos de verdade, temos a nós mesmos. Os treinadores aqui na Europa têm essa questão do rodízio. Mesmo jogando só basicamente nos finais de semana, já que não nos classificamos para nenhuma competição europeia, isso é desgastante. O treinador faz o que ele acha melhor para a equipe. Muitas vezes não concordo, mas respeito sempre.

Recentemente você deu uma entrevista sobre uma lesão que teve no joelho, que foi pouco noticiada, e que chegou a quase entrar em depressão em virtude desta lesão. Ainda sente algo? Te atrapalha de alguma forma?

BG: Foi um dos momentos mais difíceis da minha carreira. Ficamos quatro meses parados em virtude da covid. Perdi muita musculatura e com sete dias de treino na pré-temporada machuquei o joelho. Tive uma inflamação grande. Isso me perturbou durante cinco meses. Tomava infiltração e remédio, a dor passava, e voltava depois de quatro dias. Tive um desnível muscular de uma perna para a outra, fiquei descompensado. Doía até para subir escadas ou brincar com meus cachorros em casa. Era insuportável. Me diziam que eu precisava me acostumar com aquelas dores, mas eu não conseguia. Contratei um fisioterapeuta particular e fiz diversos exercícios para ganhar força e musculatura na perna. Foi um momento bem chato. Tive uma queda no clube e jogava com dor. Hoje já estou recuperado e o meu nível melhorou muito. Estou 100%.

Você foi titular no Pré-olímpico e convocado recentemente para seleção principal. Como se vê nessas duas frentes? Acha melhor servir prioritariamente ao time principal ou construir sua história no time olímpico?

BG: É um pouco difícil isso, mas já deixei bem claro que sou ''fominha''. Quero ir para a Olimpíada, Copa América e Copa do Mundo. Quero vestir a camisa da seleção. Sei que tem diversos jogadores qualificados, mas tenho esses sonhos comigo. Ir para a Olimpíada seria muito bom, mas todo jogador que vestir a camisa da seleção principal. Deixo isso nas mãos do Tite e do Jardine. Estarei pronto seja onde for.