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Rodrigo Coutinho

2020 do Flamengo prova que Jorge Jesus foi um tiro no escuro

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

02/12/2020 13h40Atualizada em 02/12/2020 13h41

Rogério Ceni errou nas substituições, Domènec não conseguiu montar um sistema defensivo minimamente competitivo, Léo Pereira, Gustavo Henrique, Michael e Pedro Rocha são nomes que ainda não mostraram a que vieram no clube, há muita nebulosidade na atuação do departamento médico do Flamengo em 2020, mas o que explica o que vem acontecendo com o rubro-negro nos últimos meses está acima de tudo isso.

Campeão de quase tudo em 2019, futebol encantador, salários em dia, estrutura ótima, e a montagem de um elenco ainda mais forte para a temporada seguinte. Poucos tempo depois o cenário é muito diferente. O que mudou de lá pra cá? A figura central do sucesso do Mais Querido não está mais no clube.

Não se trata de dizer que Jorge Jesus é inalcançável e infalível. Errou, por exemplo, na final do Mundial de Clubes ao sacar muito cedo Arrascaeta e Everton Ribeiro, mesma falha cometida por Ceni na eliminação diante do Racing. Também avalizou por uma cifra bem questionável a contratação de Michael. Mas é inegável o seu lugar no hall de ídolos do clube. Pegou um time que não existia em 2019 e o transformou em um dos mais inesquecíveis do país recentemente.

Todo o contexto da chegada de Jorge Jesus, passando pelo trabalho que fez dentro de campo, e o que trouxe para o dia a dia do Flamengo precisa ser considerado. E mais. Precisa ser entendido. O Rubro-negro não planejou o sucesso que teve. Não foi buscar o português pensando naquilo que ele ofereceria num senso prático, mas sim no abstrato. Queria uma grife, algo que diferenciasse das constantes e recentes trocas de treinador no clube. Um escudo! E acabou acertando.

O cenário fica nítido ao observarmos a reposição. Domènec Torrent foi trazido sob os mesmos preceitos. Por mais que não tivesse experiência como treinador, fez parte da comissão técnica de Guardiola por anos. Além disso, tinha o principal atributo buscado naquele momento: ''ser estrangeiro''. O bizarro argumento demonstra o nível de conhecimento de futebol dos cartolas rubro-negros.

Trouxeram um treinador com conceitos bem diferentes de Jorge Jesus no momento ofensivo, e não deram o respaldo interno quando foi necessário. Quem não lembra do vice de futebol Marcos Braz correndo desesperadamente atrás de Gabigol para um afago após o atacante sair de campo dando chilique ao começar no banco contra o Fortaleza? Que tipo de recado aquilo passou aos demais atletas?

O processo de escolha de treinador não é amador somente no Flamengo. Basicamente todos os clubes do futebol brasileiro não possuem dirigentes preparados para entender o que é um modelo de jogo, julgar uma gestão profissional de elenco, e saber o que, e quando cobrar algo. Mas no caso do clube de maior torcida do país tudo ganha contornos imensos. A repercussão é maior.

Muitos acreditavam que o Flamengo pudesse ter um período de total hegemonia no futebol brasileiro e até mesmo sulamericano. Vitórias e títulos em sequência, com alto desempenho atrelado, só vêm com qualidade em todas as esferas do clube. Em 2019 o Mais Querido teve um técnico bem acima da média. Isso não quer dizer que Domènec ou Rogério Ceni não tenham capacidade de comandar o Flamengo. Eles só não são o ''tiro no escuro'' dado ano passado.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.