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Rodrigo Coutinho

Por que o Fluminense é uma das surpresas do Brasileirão 2020

Rodrigo Coutinho

Rodrigo Coutinho é jornalista e analista de desempenho. Acredita que é possível abordar o futebol de forma aprofundada e com linguagem acessível a todos.

Colunista do UOL

18/11/2020 09h12Atualizada em 18/11/2020 09h12

Quatro vezes campeão nacional, o Fluminense não dava muita impressão de que estaria brigando pelo G-6 do Brasileirão após 21 partidas disputadas. O clube ainda busca se reequilibrar financeiramente, perdeu Gilberto e Evanilson logo nas primeiras rodadas, e passa muito longe de ter um elenco valioso. Além da entrega dos jogadores, a campanha acima das expectativas passa também pelo espírito competitivo de Odair Hellmann e a organização que ele dá ao time.

Odair recebe no Fluminense basicamente as mesmas críticas que sofria no Internacional. ''O time faz um gol e recua''... ''Não cria muito''... ''Insiste com alguns jogadores de nível baixo tecnicamente''... A grosso modo, colorados e tricolores talvez tenham razão em alguns momentos. Mas uma coisa parece inquestionável. O comandante do Fluminense consegue compreender as limitações do material humano que tem nas mãos, e consegue pontos importantes ao montar estratégias realistas para os jogos.

Time Flu - Rodrigo Coutinho - Rodrigo Coutinho
Estrutura do Fluminense que pode ser escalada como base
Imagem: Rodrigo Coutinho

O time do Fluminense não é um primor atacando. Possui ideias básicas. Solta o lateral do lado em que a jogada se desenvolve em amplitude no campo de ataque. Prende um pouco mais o do lado contrário. Se a bola é invertida, eles trocam o comportamento. Libera a flutuação dos ''pontas'' para o centro. Um deles mais voltado a articulação, geralmente Nenê, e o outro buscando se aproximar de Fred, pode ser Wellington Silva, Marcos Paulo, Luiz Henrique ou Caio Paulista.

Dodi, o grande destaque individual da equipe no campeonato, faz a saída de três entre os zagueiros e depois se solta no campo de ataque com sua dinâmica e boa movimentação. Hudson se alinha a um outro companheiro de meio-campo mais a frente. Yago Felipe e Michel Araujo são os mais frequentes na função. Eles participam da articulação no meio, mas têm liberdade de infiltração.

Foto Dodi - Thiago Ribeiro/AGIF - Thiago Ribeiro/AGIF
Dodi é o jogador mais regular do Fluminense em 2020
Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF

A equipe tenta se estabelecer no campo de ataque com trocas de passes curtos, mas os mecanismos coletivos de movimentação nas proximidades da área não são tão bem executados, e o Fluminense têm dificuldades diante de adversários mais fechados. Mesmo sofrendo, não deixa de incomodar quando encontra Michel Araujo ou Nenê na intermediária ofensiva para dar o último passe, ou aciona Danilo Barcelos em progressão pela esquerda.

O lateral, que ganhou a vaga de Egídio, e vem fazendo um campeonato bem competitivo, também é arma importante nas bolas paradas e aéreas do Tricolor. Dá trabalho acionando Fred, Hudson, Luccas Claro e Nino pelo alto. O experiente camisa 9 tricolor, mesmo longe de seu ritmo e força física ideais, acrescenta em leitura de jogo em momentos importantes de algumas partidas.

O principal trunfo

O cenário ideal para o Fluminense de Odair Hellmann é encarar adversários que tomem a iniciativa de atacá-lo. Não dá pra dizer que se trata de um time restritamente reativo. Como citado acima, o Tricolor apresenta um padrão ao sair para o jogo também, mas sem dúvidas rende melhor num cenário de reação aos ataques rivais.

O treinador segue adotando o sistema de encaixes e perseguições curtas. O atleta define o alvo de marcação dentro do seu setor, mas não o acompanha para outra parte do campo, o que acaba mantendo o posicionamento do time organizado. A abordagem bem definida dentro de cada setor costuma gerar muita intensidade ao pressionar a bola, e o time varia bem a ''altura'' do bloco de marcação. Em alguns momentos se adianta, em outros se retrai, sempre de acordo com a estratégia momentânea do jogo.

O nível homogêneo de seus zagueiros, a obediência tática da equipe, e Muriel cometendo menos falhas, também são fatores que ajudam na formação de um coletivo forte defensivamente. A partir daí, rouba as bolas e acelera nos contra-ataques, sempre com a estratégia bem definida de inverter o lado da jogada para encontrar espaços com mais facilidade.

Gestão de grupo eficiente

Desde os tempos de auxiliar, o ''Papito'', como é carinhosamente chamado nos bastidores do futebol pelo estilo ''paizão'', é querido pelos jogadores. Foi assim no Internacional e na Seleção Brasileira campeã nas Olimpíadas de 2016. Depois que assumiu o comando do Colorado, a boa relação com os atletas manteve-se. Não à toa deixou D´Alessandro no banco e não teve problemas. Mantendo inclusive o argentino motivado e participativo.

Foto Nenê - Lucas Merçon/Fluminense FC - Lucas Merçon/Fluminense FC
Mesmo aos 39 anos, Nenê segue sendo decisivo no Fluminense
Imagem: Lucas Merçon/Fluminense FC

Ganso é mais um com perfil questionador que acaba preterido pelo técnico em nome do modelo de jogo do time. Mesmo bem abaixo do pode quando entra, o camisa 10 não parece tão insatisfeito com a relação com o treinador. Ao menos não se manifestou de forma contrária a ele publicamente. Fred já chegou a ficar no banco para Evanílson e também não chiou.

Libertadores é um sonho palpável

Projetar receitas maiores para recuperar o potencial de investimento e pagar mais dívidas é o principal objetivo financeiro do Fluminense. A ida à Pré-Libertadores 2021 seria determinante para colocá-lo em prática de forma mais precoce que o previsto. É possível sim acreditar! Mesmo com apenas a 10ª maior folha salarial da Série A, Odair Hellmann já mostrou que sabe aproveitar e entender as particularidades de um campeonato como o Brasileirão.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.