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Rodolfo Rodrigues

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Brasileiros precisam chorar menos e jogar a Libertadores com inteligência

Cantillo foi expulso durante o 2° tempo de Boca Juniors x Corinthians, jogo válido pela Libertadores - Agustin Marcarian/Reuters
Cantillo foi expulso durante o 2° tempo de Boca Juniors x Corinthians, jogo válido pela Libertadores Imagem: Agustin Marcarian/Reuters
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Rodolfo Rodrigues

Rodolfo Rodrigues é apaixonado por números e estatísticas no futebol. Foi repórter do Lance!, editor da Placar e do prêmio Bola de Prata ESPN e é autor de dez livros sobre futebol.

Colunista

18/05/2022 15h08

O Corinthians empatou com o Boca Juniors nessa terça-feira (17), na Bombonera, e voltou revoltado com a arbitragem do uruguaio Christian Ferryera, que expulsou o volante Cantillo aos 24 minutos do 2º tempo e logo depois o técnico português Vítor Pereira, que invadiu o gramado durante a confusão entre os jogadores.

Depois de dois empurra-empurras entre os jogadores, Cantillo revidou um empurrão do volante argentino Pol Fernández com uma força maior, e acabou levando o vermelho por bobeira, 8 minutos depois de entrar em campo. O roteiro do jogo, porém, foi o mesmo de muitas outras partidas do Corinthians e de outros brasileiros na Libertadores, principalmente contra times argentinos e na Argentina.

De costume, os clubes brasileiros entram em campo acuados, sentem a pressão e jogam mal, acabam caindo na pilha e na catimba dos rivais e se revoltam com a arbitragem até perderem a cabeça, terem jogadores expulsos e perderem o jogo. Esse roteiro já em inúmeras partidas da Libertadores. Especialmente na Argentina ou contra times argentinos.

No caso do Corinthians, mais especificamente, isso já se tornou comum na Libertadores. Nos últimos 20 anos, em quase todas as suas eliminações o time passou pela mesma situação. Em 2003, nas oitavas contra o River Plate, em Buenos Aires, o Corinthians chegou como o melhor time da fase de grupos. Depois de um bom começo de jogo, o time do técnico Geninho conseguiu abrir o placar na segunda etapa, com Jorge Wagner. Tudo ia bem até o lateral esquerdo Kléber cair numa provocação e dar uma entrada desleal e desnecessária e ser expulso justamente aos 32 minutos do 2º tempo. Faltando 5 minutos para o fim do jogo, o River, com um a mais, virou o jogo.

No jogo de volta, em São Paulo, o reserva de Kléber, Roger Guerreiro, foi tão infantil quanto. Ainda no 1º tempo, no Morumbi, fez uma falta sem a menor necessidade e foi expulso aos 44 minutos, quando o jogo estava 1 x 1. No 2º tempo, o Corinthians levou a levada novamente e foi desclassificado.

Em 2006, também contra o River, o Corinthians saiu na frente, mas levou a virada e depois teve o volante Mascherano expulso. Em São Paulo, saiu na frente, mas levou a virada e acabou novamente eliminado pelo time argentino, depois de feito uma campanha bem melhor que o time argentino na fase de grupos.

Em 2011, na fase preliminar, empatou o jogo de ida contra o Tolima-COL, em casa 0 x 0, e depois foi desclassificado, no Colômbia, justamente depois de ter o volante peruano Chachito Ramírez expulso aos 27 minutos. Com um a menos, o Corinthians levou dois gols, no jogo que marcou a despedida do atacante Ronaldo.

Em 2012, na campanha do título, o Corinthians sofreu com expulsões, que quase complicaram a situação do time. Nas oitavas, contra o Emelec, Jorge Henrique foi expulso aos 7 minutos do 2º tempo e o time só saiu de Guayaquil com 0 x 0 graças ao goleiro Cássio, que ali ganhou a vaga de titular do time, desbancando Júlio César. Na semifinal, contra o Santos, Emerson Sheik foi expulso quando o time já vencia o Santos na Vila, por 1 x 0 (com gol dele) e quase deixou o time na mão.

Em 2013, como atual campeão, o Corinthians teve o Boca Juniors novamente como adversário em um mata-mata, mas pelas oitavas. No jogo de ida, na Bombonera, mesmo após ter vencido o rival na edição anterior, o Corinthians jogou um futebol medroso e saiu de Buenos Aires com uma derrota justa (1 x 0). Na volta, em São Paulo, o time sofreu com a arbitragem do paraguaio Carlos Amarilla, mas ainda assim poderia ter vencido o jogo (que acabou 1 x 1), se não tivesse tão nervoso em campo, já que tinha um elenco muito superior.

Em 2015, nas oitavas, quando tinha também um ótimo time, o Corinthians de Tite fez uma apresentação horrorosa no Paraguai e perdeu para o fraco Guaraní por 2 x 0. Como sempre, o fator campo pesou para os brasileiros. Na volta, em Itaquera, o Corinthians teve Fábio Santos e Jadson expulsos e acabou eliminado levando ainda um gol no final do jogo.

Em 2016, contra o Colo-Colo, em Santiago, a história se repetiu. Com um time fortíssimo, o Corinthians jogou nada, teve o volante Gabriel expulso aos 9 minutos do segundo tempo e voltou de lá com a derrota (1 x 0). Em São Paulo, venceu o jogo de virada por 2 x 1, mas teve um jogador expulso (Danilo Avelar), aos 46 minutos do segundo tempo, num momento de enorme pressão, quando o terceiro gol parecia certo, e acabou eliminado novamente.

Em 2020, na fase preliminar e novamente contra o modesto Guaraní-PAR, o Corinthians estreou com derrota fora de casa, jogando muito mal. Na volta, em Itaquera, vencia por 1 x 0 quanto teve o meia Pedrinho expulso após levar o segundo amarelo de forma infantil. Mesmo com um a menos, o Corinthians fez 2 x 0 ainda no primeiro tempo, mas no início do segundo tempo levou um gol e acabou eliminado.

Contra o Boca, na partida de ontem, o Corinthians só escapou da derrota por causa da fraqueza desse atual time argentino. Na partida, o Corinthians deu apenas um chute a gol (justamente no gol de Du Queiroz), levou 15 finalizações, teve apenas 25% de posse de bola e errou muitos passes. Para piorar, teve vários jogadores envolvidos em discussões com jogadores do Boca, como o zagueiro Raul Gustavo, que levou amarelo após se desentender com Benedetto. Depois, viu Cantillo ser expulso com uma reação desnecessária.

O Corinthians, assim como outros clubes brasileiros, precisam aprender de uma vez por todas a jogar a Libertadores com frieza e inteligência. Não é porque disputa um torneio sul-americano que precisa entrar com os nervos à flor da pele, chegar dando botinadas e levar cartões amarelos e ficar reclamando com a arbitragem por qualquer lance. Benedetto é um bom jogador, marcou um belo gol, mas conseguiu amarelar dois zagueiros do Corinthians em dois jogos com lances com provocações. Poderia até ter tirado um deles do jogo com isso. Sempre vai haver jogadores com ele enchendo e enervando os brasileiros.

Sempre vai haver arbitragem tendenciosa, muito por conta da superioridade técnica brasileira ou pelo idioma. É preciso entrar em campo sabendo disso, ser frio, prever todo esse roteiro. Do contrário, o final será sempre o mesmo. O Corinthians ganhou a Libertadores em 2012, mas tinha time para vencer pelo menos mais duas edições (2013 e 2015) se tivesse mais inteligência. Só ficar chorando e lamentando não vai resolver.

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