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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com a saída de Cano, Vasco precisa de um ídolo

Germán Cano comemora gol do Vasco contra o Coritiba pela Série B - Thiago Ribeiro/AGIF
Germán Cano comemora gol do Vasco contra o Coritiba pela Série B Imagem: Thiago Ribeiro/AGIF
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

08/12/2021 09h53

Cento e uma partidas e 43 gols separam os dias de hoje daquele 27 de dezembro de 2019, quando o então presidente do Vasco, Alexandre Campello, usou seu perfil de uma rede social, como mandam os tempos modernos, para anunciar a contratação de Germán Cano. Mas no futebol poucos presentes duram o tempo equivalente ao de uma bicicleta ou um videogame, sonhos de consumo no topo da lista do Papai Noel. Esse regalo, por exemplo, durou dois anos, não emplacará o Natal de 2021.

Chegou a hora de Germán Cano usar a rede social, como mandam os tempos modernos, para dizer adeus à torcida do Vasco. E o clube adotou o mesmo recurso de vanguarda, com publicação também de uma nota oficial no site carente de boas notícias, um arauto de desgraças, entre as quais a publicação da tabela com a classificação do Vasco na Série B de 2021, um vergonhoso décimo lugar, atrás de Botafogo, Goiás, Coritiba, Avaí, CSA, Guarani, CRB, Náutico e Vila Nova. Como mandam os tempos modernos do Vasco, um gigante encolhido sem dinheiro no bolso, sem R$ 3 milhões para zerar a dívida com Germán Cano gerada pela variação do dólar - ah, sim, vale explicar que quando o presente argentino foi contratado, a moeda americana estava no patamar de R$ 4 e, no destrato, bateu perto de R$ 5,50.

Cano chegou ao Vasco aos 31 anos, envolto na embalagem de destaque do Independiente de Medellín, como artilheiro do time colombiano na temporada, com 35 gols em 39 jogos. E o discurso de Campello em um vídeo postado no Twitter tratava o argentino como um presente merecido pela torcida, que havia se comportado bem.

- Torcedor vascaíno, eu estou aqui em Buenos Aires. Nas últimas semanas, vocês pediram para o Vasco contratar um atacante. Por tudo o que vocês fizeram no último mês, ultrapassando a marca de 185 mil sócios, vocês merecem essa contratação. Hoje o Vasco tem essa referência: é o Germán Cano.

Por que cargas d'água a torcida precisou devolver o seu presente de Natal no fim de 2021? O Vasco de novo não passou de ano, é repetente, péssimo aluno nas mãos de uma diretoria incompetente que aprendeu a subtrair títulos e somar derrotas - foram 15 na Série B. Todo esse retrocesso é consequência de uma saraivada de dirigentes incapazes que, entre outros prejuízos causados, não conseguem manter ídolos ou promover jovens promessas a este patamar. O que coloca na rota de risco a capacidade de formar torcedores. A continuar assim, pode-se prever a dificuldade até mesmo do mais fervoroso pai vascaíno com quem deveria ser o herdeiro natural da sua paixão.

O Vasco de Roberto Dinamite, Edmundo e Juninho Pernambucano precisa eternizar outros nomes sem prazo de validade. Tem, sim, o direito de avaliar o valor de um investimento, mas, também, a obrigação de jamais deixar vaga a cadeira de ídolo que se abre de tempos em tempos. Há muita história em jogo, e já basta a tristeza por quatro rebaixamentos e a permanência nessa lama por pelo menos mais um ano. E quem não tem competência ou boas ideias que não se estabeleça em um clube dessa grandeza, que vá colher seu despreparo nas várzeas do submundo do futebol.

Onde mais, senão na várzea, pode-se aceitar que um clube acerte com um treinador e promova um desmanche no elenco antes de contratar um diretor executivo para o futebol? Com todo o respeito à várzea, que não merece essa gente incapaz e desorganizada.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL