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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

A seleção de Tite é xexelenta ou só ruinzinha mesmo?

Tite comanda a seleção brasileira em jogo contra o Equador pelas Eliminatórias da Copa - Rodrigo Buendia/Reuters
Tite comanda a seleção brasileira em jogo contra o Equador pelas Eliminatórias da Copa Imagem: Rodrigo Buendia/Reuters
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Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

28/01/2022 09h50

Amorfa, confusa, desinteressante, desmazelada, displicente, enfadonha, improdutiva, incompetente, inconsistente, ineficaz, letárgica, mambembe, patética, taciturna.

Estou escrevendo sobre a seleção de Tite. Cheguei perto da letra x, mas achei mais prudente não ferir suscetibilidades com o adjetivo xexelento. No caso, no feminino, xexelenta. Deixo para quem me lê, como dever de casa, a missão de avaliar se chega a tanto. Não sei dizer, juro. Tem jogo que acho que sim, tem jogo que acho só ruinzinha mesmo.

Acertou a Folha de S. Paulo ao não gastar na sua capa um milímetro da paciência do leitor com a seleção brasileira e o bravo empate em 1 a 1 com o Equador na última quinta-feira (27/01). Pois nada aconteceu ali em Quito, muito pelas trapalhadas da arbitragem, muito pela já rotineira incompetência da seleção de Tite, desta vez bem mais evidente aos olhos do público porque, já que a bola rolou às 18h de Brasília, deu para aguentar firme sem pregar o olho como em outras vezes quando, se não dormi, foi porque o ofício de comentarista não permitiu.

Acertou a Folha de S. Paulo ao dedicar quatro linhas de sua capa a Laurinha, de 8 anos, impedida de disputar o campeonato estadual de futsal sub-9 do Espírito Santo, no qual menina não entra, e à saga de sua mãe, dona Laís, que criou um abaixo-assinado na tentativa de mudar o regulamento, pleiteando times mistos na competição, para que a vida esportiva da filha possa seguir como tem sido no Cruzeiro da Ilha de Santa Maria, em Vitória.

Não sei se Laurinha assistiu ao jogo da seleção de Tite. A reportagem, naturalmente, foi feita bem antes. Se viu, não aprendeu nada. Se não viu, lucrou mais batendo bola com meninos e meninas capixabas, como faz desde os 4 anos de idade.

Laurinha faz muito bem em lutar por igualdade, enquanto minha briga é pela desigualdade no placar em jogos da seleção brasileira contra sul-americanos que não tenham como ídolos Maradona, Carlos Gardel, Jorge Luis Borges e Mafalda. Os argentinos tudo podem, até vencer a pátria da gente, por maior que seja a dor no coração aqui. O Equador não pode nem mesmo perder por 1 a 0, é pouco, e um empate é humilhante demais para quem já teve Pelé, Garrincha e tantos outros os quais considero os maiores do planeta.

Se Laurinha assistiu ao jogo - espero que não -, viu Tite sacar do time Phillippe Coutinho, o principal jogador a ser testado, pois está nos planos para o Qatar e precisa de muito lastro ainda. Entre recompor a linha de defesa - trocando Coutinho por Daniel Alves - e dar rodagem ao meia do Aston Villa, Tite optou por sacrificar o teste, embora àquela altura o Equador já tivesse um jogador a menos, pois o goleiro Domínguez, expulso logo no início, já estava cantando no chuveiro.

A paixão de Laurinha pelo futebol certamente não tem a ver com o esporte praticado pela seleção brasileira ao longo dos oito anos de vida da menina. E, pelo que a seleção de Tite vem fazendo em campo, a geração de Laurinha seguirá por mais um tempo sem enxergar referências na camisa amarelinha. Entramos o ano de 2022 na dependência ridícula de um jogador, somos 213 milhões de cabeças impregnadas pela tática do dá-no-neymar-que-ele-resolve. Será? Vamos para 20 anos sem ganhar Copa do Mundo, o Qatar está logo ali. Que Laurinha tenha sucesso na luta. Vai que um dia sua voz ganha o mundo, e ela entra em campo com esses pobres moços. Pra Marta não dá mais. Mas em outros tempos, sei não...