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Marluci Martins

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Desabafo fictício de um vizinho chato

O técnico Abel Ferreira (Palmeiras) durante o jogo de volta contra o Atlético-MG pela semifinal da Libertadores, no Mineirão - Cesar Greco
O técnico Abel Ferreira (Palmeiras) durante o jogo de volta contra o Atlético-MG pela semifinal da Libertadores, no Mineirão Imagem: Cesar Greco
Marluci Martins

Marluci Martins começou no jornalismo esportivo em 1988 e cobriu seis Copas do Mundo (1994, 1998, 2006, 2010, 2014 e 2018), pelos Jornais O Dia, Extra e O Globo. Foi setorista dos quatro grandes clubes do Rio e, apaixonada por futebol, frequentou estádios nos mais variados endereços – com a caneta ou a bandeira. Em primeira mão, anunciou as aposentadorias de Romário e Ronaldinho Gaúcho, entre outros furos marcantes da carreira, como a primeira entrevista com o então treinador Ricardo Gomes pós-AVC. Para ela, a rede de internet é como a do futebol: desperta alegria e tristeza, amor e raiva. Que não nos falte o fair play.

01/10/2021 12h49

Prezado síndico,

Não é de hoje que venho chamando a atenção para o autoritarismo do meu vizinho de porta. Veja a que ponto chegou. Expôs publicamente uma questão do nosso condomínio, que deveria ser resolvida entre quatro paredes, sem riscos para a imagem e a segurança dos moradores que aqui vivem. E, agora, temos a privacidade invadida. Repare na quantidade de repórteres na porta, abordando a gente todo dia, manhã, tarde e noite.

Aproveito para alertar neste livro de reclamações sobre nosso sistema de circuito interno. Não é confiável. Por que nossas câmeras nunca registraram o descontrole emocional desse meu vizinho, revelado agora ao continente ao vivo e a cores? Será mesmo que ele nunca deu chilique semelhante aqui, perturbando a lei do silêncio? Nunca arranhou um carro na garagem? Duvido.

Mas isso não é nada. Difícil mesmo é ser chamado de chato e ter minha reputação arranhada também fora do condomínio, em São Paulo, Minas e toda a América do Sul. Adeus pastel no Bar do Giba, adeus torresmo e Anísio Santiago no mercado central, adeus empanadas nas férias. Constrangido, já não entro no elevador, desço pelas escadas, e corro o risco de nem sair mais de casa a partir de 27 de novembro. Vou ter que me mudar pra longe. Pra Europa, talvez. Ah, não pode ser Europa, porque já ouvi dizer que o vizinho que me detesta vai trabalhar lá no ano que vem.

Tem gente mais chata do que a que não cumpre contrato? Vai vendo...

Sugiro que se convoque uma assembleia geral para uma votação entre os moradores: quem é mais chato aqui neste bairro da Zona Oeste, eu ou ele? Garanto que ele ganha disparado. Isso aí ele ganha. Não vai dar empate, não. O chato sou eu? Pela primeira vez escrevo neste livro. Jamais reclamei do cheiro de fritura das pataniscas, muito menos do volume alto das músicas do António Zambujo. Desse aí eu até gosto. Gosto daquela música "Zorro", que diz assim: "Eu quero ser para ti o camisola dez; ter o Benfica todo nos meus pés". Essa música me traz à lembrança o Jorge Jesus, melhor treinador português que passou pelo futebol brasileiro. Pra dizer a verdade, é covardia comparar. Os outros não dão nem pra saída.

Também gosto de outra música do Zambujo, "Pica do 7", que as pessoas pensam que é sobre um bonde elétrico lisboeta, mas eu sou sagaz e já percebi que é uma homenagem velada ao Dudu.

Por falar em Dudu, o senhor sabe que eu adoro futebol. Ainda vou a um treino do Palmeiras perguntar ao Dudu por que outro dia ele saiu de campo jogando as caneleiras longe. Tenho certeza de que ele pensa o mesmo que eu em relação ao meu vizinho. Só que eu posso falar. Dudu não pode. Essa coisa de ser chato é subjetiva, sabe?

Acho chato, por exemplo, o esquema do Palmeiras. Tem placar mais chato no futebol do que o 0 a 0 e o 1 a 1 que tanto se vê por aí? Mas o meu vizinho gosta. E o chato sou eu, né? Acho chato o estrangeiro que chega aqui e quer tirar onda com a nossa cara, dizer que vai fazer história, coisa e tal. Bom mesmo foi Pelé, Eusébio vem depois, e olhe lá.

Veja como são as coisas. Papo vai, papo vem, e já estamos falando de futebol. Melhor encerrar este texto de protesto por aqui para não bancar o chato. Porque chato eu não sou. Já ele...

Abraços.

PS: Só não assino porque prefiro o anonimato. Se eu fosse chato, assinava.

(Este texto é fictício e qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL