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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Jogos Olímpicos de inverno no inverno do mundo

Protesto contra os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, em Pequim - Getty Images
Protesto contra os Jogos Olímpicos de Inverno de 2022, em Pequim Imagem: Getty Images
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

12/01/2022 04h00

Pouca gente está se dando conta no Brasil, mas em cerca de 20 dias o mundo voltará sua atenção mais uma vez para, como dizem, a "família olímpica". Os Jogos de Inverno de Pequim 2022 acontecerão em maio a mais uma tsunami viral e suas incertezas. Um novo capítulo de um longo e doloroso inverno mundial primeiramente observado por lá, em dezembro de 2019, na cidade de Wuhan. Dois anos depois, muita coisa aconteceu, mas às vésperas de realizar a competição em Pequim, para sempre marcada pelos inesquecíveis Jogos Olímpicos de 2008, a China confina cinco milhões de habitantes devido a variante Ômicrom.

Que (quase) nada para os Jogos Olímpicos todo mundo já sabe. Aqui mesmo foram relembradas as raríssimas vezes em que uma edição deixou de acontecer, que foram nas edições de 1916, 1940 e 1944, todas em função das grandes guerras mundiais.

Um vírus pode matar muito mais que canhões e metralhadoras, mas não é considerado motivo suficiente para cancelar este evento que mobiliza hoje bilhões e mexe até com a geopolítica. Este ano, por exemplo, um "boicote diplomático" foi anunciado por importantes países no quadro de medalhas da competição, como Estados Unidos, Canadá, Austrália, Reino Unido e, mais recentemente, a Bélgica. O que significa dizer que os representantes oficiais destes países não participarão dos eventos e cerimônias ligadas aos Jogos.

Interessante observar neste mar de hipocrisias, como a competição é pesada. Não é preciso forçar muito a memória para relacionar infrações aos direitos humanos em todos os que "diplomaticamente" boicotarão Pequim, mas esta é uma outra (mesma) história.

Tudo acontece no entorno de Pequim 2022, sem contar a pressão de ativistas para que os atletas, estes sim, boicotem de fato. Na crista desta onda gigante está um histórico chinês que inclui abusos aos direitos humanos contra muçulmanos da etnia ugure e repressão às manifestações pró-democracia em Hong-Kong. Covid? Sim, sim...é uma questão, mas...

Mas dificilmente alguma nação deixará de enviar seus atletas para disputar a competição, num boicote direto, frontal, sem disfarces. Afinal, apenas guerras param os Jogos Olímpicos.

Os Jogos de Tóquio, sem dúvida alguma, foram um alento de diversão após um período de notícias tenebrosas. No Brasil, a escalada para o cabalístico número de 600 mil mortos estava galopante e os absurdos e descasos com a vida amarguravam os corações dos que enterravam pais, mães, avós, filhos, filhas, amores, ídolos, amigas e amigos queridos... mas a que preço?

Aglomerações mais a baixa vacinação fez com que o povo japonês visse os números diários saltarem de 4.234 novos casos no dia da abertura dos Jogos (23/07) para 14.526 no dia do encerramento (8/08). Uma escalada que teve seu pico 20 dias após o encerramento, com 24.319 casos no dia 27 de agosto. No entanto, as medalhas são as notícias.

O Brasil tem um histórico modesto nos Jogos Olímpicos de Inverno, com participação em nove edições e o melhor resultado do país foi o nono lugar conquistado por Isabel Clark, em snowboard cross, nos Jogos de Turim 2006. Mesmo assim, o movimento Democracia Sem Fronteiras cobra que o Brasil adira ao boicote diplomático.

A organização, assim como outras pelo mundo, protesta contra a situação da minoria étnica uigure, cerca de 11 milhões de pessoas que vivem na província de Xingjang. Denúncias apontam que Pequim usa de tortura, esterilização forçada, trabalho obrigatório e maus tratos para realizar uma limpeza étnica e religiosa em Xinjiang.

Com placas exigindo direitos humanos, liberdade de imprensa e denunciando genocídios, manifestantes clamaram no último dia 4 de janeiro, na Esplanada dos Ministérios, para que o governo brasileiro boicote os Jogos. Eles pediram tudo isso ao governo encabeçado por Jair Messias Bolsonaro...

Apenas guerras param os Jogos Olímpicos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL