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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Uma Olimpíada para entrar na história

Estádio Olímpico de Tóquio, onde 10 mil VIPs terão acesso na cerimônia de abertura - Michael Kappeler/picture alliance via Getty Images
Estádio Olímpico de Tóquio, onde 10 mil VIPs terão acesso na cerimônia de abertura Imagem: Michael Kappeler/picture alliance via Getty Images
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

22/07/2021 04h00

Começa nesta sexta-feira, 23/07, a 32ª edição dos Jogos Olímpicos da era moderna. Antes de qualquer bola rolar, de qualquer nadador subir no bloco de partida. Antes de qualquer lutador cumprimentar o oponente na arena de disputa ou de algum cavaleiro conduzir sua montaria a saltar um obstáculo, as Olimpíadas de Tóquio já estavam destinadas aos livros didáticos do futuro. A cerimônia de abertura no Japão inaugura um evento que já nasce velho, cansado e encontra um planeta exausto de tanta luta e dor.

O fascínio desta que é a maior competição do planeta exerce sobre nós ainda existe e pulsa. É impossível não se sensibilizar com tantas histórias lindas dos que dela participam como atores principais. Os atletas de todas as partes do globo são sempre os protagonistas de momentos memoráveis para sempre, mas, infelizmente, esta será uma edição em que eles disputam a arena principal com o risco invisível de uma pandemia ainda com controle frágil, com questões política complexas e com um mundo convulsionado pela necessidade de reconstrução pelos efeitos de um vendaval que ainda não passou.

Risco é a palavra que dirigentes esportivos e autoridades decidiram assumir para levar adiante o evento bilionário. Os Jogos de 2020/21 estão marcados pelo movimento antivacina, o negacionismo, a luta contra a ciência, os protocolos sanitários e ausência de público. O fascínio da competição que nos dá novos ídolos e reforça antigos a cada quatro anos está eclipsada por uma bactéria que não assina termo de responsabilidade nenhum. Ela assassina ou aniquila a saúde de muitos que com ela têm o desprazer de topar. Não deixa de ser triste ter no noticiário ao lado do quadro de medalhas, um quadro de infectados.

Não é apenas o vírus o vilão dos Jogos de Tóquio. A Olimpíada de número 32 é uma espécie de "Roupa Nova do Rei", ou seja, deixou evidente o anacronismo, a velhice, o descompasso com o próprio tempo dos organismos e das regras que regem o olimpismo.

No entanto, como diz a música "o novo sempre vem". A novidade veio com atleta trans nas competições, com um jogador brasileiro de vôlei gay que vira ídolo sendo quem é. A novidade vem quando o Brasil tem uma porta-bandeira negra, ela chega também nas manifestações que exigem liberação para que um material esportivo adaptado às características diversas dos atletas negros - uma touca para natação - possa ser aceita no evento.

O novo vem quando a capitã do time espanhol de nado sincronizado luta pelo direito de amamentar seu filho durante os jogos. O novo se insinua quando o Comitê Olímpico Internacional relaxa as regras que proibiam qualquer manifestação política, a famosa "Regra 50". O protesto pacífico é permitido aos participantes, desde que feito sem interrupções e com respeito aos competidores. Não é o ideal, pois sanções ainda são previstas para aqueles que protestarem no pódio, mas algo começa a mover-se no paquidérmico mundo olímpico.

No final da escrita deste texto eram mais de 80 os infectados pela Covid 19 no contexto dos Jogos de Tóquio, que terão 43 modalidades disputadas em 42 instalações por onde circularão cerca de 11.100 atletas de 205 países ou territórios, sem contar técnicos, massagistas, médicos, dirigentes, funcionários, jornalistas, etc, que são estimados em cerca de 50 mil pessoas além dos competidores.

Um potencial explosivo gigante, mas que está assentado em cima de 14, 8 bilhões de dólares em números oficiais, mas o montante final deve ultrapassar este valor em muitas vezes. Esta fatura pendurada na etiqueta de preço do produto Olimpíadas de Tóquio é, ao que tudo indica, o grande motivador para que se fechem os olhos para o risco. Os que usam a máscara no lugar dos óculos estarão desconfortavelmente sentados entre os 10 mil vips nesta sexta, na cerimônia de abertura.

Apesar de tudo, vai começar a festa. Ah! não esqueçamos que em agosto teremos também os Jogos Paralímpicos. A torcida é para que ao final não tenha sido um vírus o mais alto, o mais rápido e o mais forte.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL