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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

As variantes virais que o esporte produz

Mural com foto de Rashford, em Manchester, amanheceu vandalizada e foi "salva" por torcedores com corações e mensagens de apoio - Christopher Furlong/Getty Images
Mural com foto de Rashford, em Manchester, amanheceu vandalizada e foi "salva" por torcedores com corações e mensagens de apoio Imagem: Christopher Furlong/Getty Images
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Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

15/07/2021 04h00

Não há quem tente olhar a vida com um mínimo de honestidade intelectual e não veja que o esporte é um dos grandes espelhos para a humanidade...para o maravilhoso e para o terrível que os habitantes com polegares opositores deste planeta são capazes de produzir. No quesito terror, o vírus do racismo -- para o qual parece não existir vacina capaz de eliminar --, e o vírus real da covid-19 parecem ter, cada um, a sua variante esportiva.

A maioria esmagadora das pessoas negras que assistiu à final da Eurocopa entre Itália e Inglaterra suou frio quando três jovens atletas negros - Saka, Rashford e Sancho - perderam os pênaltis.

Quase na mesma velocidade da bola que rolava fora do fundo da rede, o pensamento de todo mundo foi para o triste fato de que não podemos errar sem ter ofensas de cunho racista como reação. A imaginação voou para o dia seguinte, para os ataques que certeiros chegariam, como de fato chegaram com crueldades que partiam dos clássicos xingamentos, até uma lista dando pontuação crescente para quem cumprisse tarefas que iam desde cuspir em uma pessoa negra até linchá-la. Sim, voltando mais de um século, por conta de uma final de campeonato de futebol, os racistas virtuais queriam ver revividos os linchamentos que mataram centenas de milhares.

A reação foi bonita e contundente, com centenas de pessoas protestando nas mesmas redes sociais ou enchendo de lindos desenhos e mensagens os cartazes com fotos dos atletas. É lindo... mas, sinto muito, não funciona, pois ao contrário do que eu disse no começo deste texto, o vírus do racismo no esporte tem vacina.

A imunização aconteceria se as entidades comandantes do futebol mundial não "jogassem pra galera" com notas de repúdio ineficazes e estabelecessem sanções realmente sérias, se as plataformas digitais fizessem o mesmo e se as vidas negras realmente importassem para todos e todas.

O racismo é um vírus mortal. Por causa dele e de sua avaliação bizarra, que joga milhões de pessoas numa espécie de subcidadania, muitos jovens perdem a vida e/ou jamais conseguem desenvolver-se plenamente. O racismo aniquila talentos esportivos, inclusive.

Em um mundo em que os atingidos pela bactéria racista são infinitamente mais afetados pelo vírus real que corre desde 2020 nas veias do planeta, o esporte poderia ser imunizante, mas se contentou com o papel medíocre de tratamento precoce com Cloroquina e variante do mal.

Que aprenda a viralizar respeito e civilidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL