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Eliana Alves Cruz

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Olimpíada com Tocata e Fuga em um Baile de favela

Rebeca Andrade no Pan de Ginástica - Ricardo Bufolin / Panamerica Press / CBG
Rebeca Andrade no Pan de Ginástica Imagem: Ricardo Bufolin / Panamerica Press / CBG
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

11/06/2021 04h00

"(...) Invasão, é baile de favela
E as casinha, é baile de favela (...)"

Baile de favela - Mc João

Coisa mais linda foi ouvir aquela introdução poderosa criada por Johann Sebastian Bach para Tocata e Fuga em Ré Menor e ver a ginasta Rebeca Andrade se preparando para solar no Pan-Americano de Ginástica que lhe garantiu a vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio. A paulistana de 22 anos é jovem como era Bach ao compor a Tocata. O compositor alemão tinha 18 anos quando dedilhou pela primeira vez no cravo a música tão usada pra filmes, animações, concertos de rock, coreografias artísticas e performances esportivas diversas.

A virada ousada da ginasta foi quando uniu os primeiros anos 1700 ao começo do século 21 do "Baile de favela", do também paulistano como ela MC João. O funk, este ritmo alvo de tantos preconceitos e estigmas, nascido da juventude negra norte-americana, filho da black music onde mora o jazz, o soul, os spirituals, o blues etc foi mixado ao jovem alemão barroco nascido há cinco séculos. O funk, o ritmo que insistem em colar à marginalidade e ao erro. O funk que "é som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado" ganhou uma vaga olímpica.

As letras por vezes violentas ou carregadas de sexo explícito --como é o caso de Baile de favela-- também contam uma história. Aliás, muitas histórias, mas este é um tema longo, que merece outra análise mais profunda e exclusiva de quem estuda a sério o assunto. Eu me atenho aqui ao ritmo, à batida.

O funk de hoje é o samba de ontem, que também nasceu da comunidade negra, da gente mais pobre, excluída e foi marginalizado, associado ao crime, aos vagabundos, aos párias. O batuque perseguido pela polícia e jamais tocado nos salões elegantes onde se ouvia Johann Sebastian Bach. Um ritmo da família do chorinho "Brasileirinho", imortalizado nos movimentos da também ginasta Daiane dos Santos, quinze anos antes de Rebeca.

O ensinamento que trazem Daiane dos Santos e agora Rebeca Andrade e sua linda e precisa evolução conduzida por Bach e Mc João é que um salto mortal é um salto mortal, seja ele executado ao som do que for. E o salto não tem este nome --mortal-- por acaso. Fazer movimentos tão arriscados com graça, sorrisos, segurança e exatidão é a adrenalina deste esporte.

No entanto, as escolhas artísticas destas poderosas atletas dizem mais. Elas nos deixam a lição de que a noção de clássico é muito relativa e que a beleza se apresenta quando o preconceito se ausenta. Nesta semana tão triste, onde mais vidas se perderam na violência naturalizada nas favelas, a performance da ginasta ganha outros contornos, pois como disseram os cariocas Cidinho e Doca, em outro funk famoso: "o que eu quero é ser feliz, andar tranquilamente na favela onde eu nasci". Precisamos.

Boa sorte, Rebeca!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL