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Eliana Alves Cruz

Novembro negro: Pelé e Garrincha fabulam o futebol

Garrincha e Pelé, na seleção brasileira - Divulgação/CBF
Garrincha e Pelé, na seleção brasileira Imagem: Divulgação/CBF
Eliana Alves Cruz

Eliana Alves Cruz é escritora e jornalista há 25 anos. Foi chefe de imprensa dos esportes aquáticos do Brasil e é membro da comissão de mídia da Federação Internacional de Natação. Tem dois romances premiados: Água de barrela e O crime do cais do Valongo.

24/11/2020 04h00

Este é o último texto da série "Novembro negro" desta coluna e talvez o mais difícil, pois Pelé e Garrincha são mais que ídolos do esporte preferido do Brasil. Eles são personagens que ajudaram a criar o imaginário deste esporte no país; são fábulas encantadas e desencantadas; ícones; astros que viram — cada um a seu modo — a glória e a decadência; atletas que atingiram o topo e pagaram altos preços. Pelé e Garrincha fabulam o futebol porque, querendo ou não, acabam por reunir neles toda a complexidade de homens não brancos, numa sociedade marcada profundamente pelas chagas psicológicas da escravidão e do extermínio dos povos originários.

Juntos nunca perderam. Alguns julgam que formaram a maior dupla da história do futebol. Foram 30 jogos com 26 vitórias e quatro empates pela seleção e tudo começou numa partida amistosa contra a Bulgária, em 1958. Contra clubes e combinados, mais dez partidas, com dez vitórias. Por coincidência, o último jogo dos dois juntos pela seleção também foi contra a Bulgária, em 12 de julho de 1966, na estreia na Copa do Mundo da Inglaterra. Aqui basta relembrar estas informações, pois que foram grandiosos em campo já sabemos. Então, o que pouco falamos sobre estes dois? Comecemos com Pelé.

A carreira do mineiro Edson Arantes do Nascimento foi estelar e sua vida, longa. Completou este ano oito décadas cercado de comemorações e memórias por todos os veículos de imprensa no Brasil e no mundo. Revelado para a bola aos 15 anos, no Santos F.C, São 65 anos passados diante das câmeras, dos flashes, no topo do dinheiro e perto do poder. Ele se mesclou com o próprio futebol numa simbiose tão profunda, que virou sinônimo de excelência. Se alguém era muito bom no que fazia era o "Pelé disso" ou "Pelé daquilo".

Pelé, o craque que fala dele mesmo na terceira pessoa, num plural majestático distanciado, como se estivesse falando de outro personagem, é astro de um tempo em que era possível separar o homem da obra. Seduzida por sua arrancada, sua potência de chute, sua inteligência em campo e visão extraordinária de jogo, a "pátria de chuteiras" deixava em segundo plano tudo o que envolvia aquele Pelé que se apartava dele mesmo, mas...

...Mas nosso tempo não permite mais plurais majestáticos. Não dá para fechar os olhos para um dos grandes ícones brasileiros e sua negação ao racismo nacional, sua adulação a poderosos, sua inclemência na negação de paternidade e outras questões deveras complicadas de uma vida passada tanto tempo diante dos olhos do mundo. Quanto ao racismo do esporte que defendia, não faltaram oportunidades para que ele se manifestasse. Era comum a imprensa dos anos 60 chamá-lo de "crioulo", numa referencia pretensamente carinhosa. O livro de Angélica Basthi: "Pelé, estrela negra em campos verdes", conta que quando o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo, a revista "O Cruzeiro" fez uma matéria comparando-o ao Saci Pererê e a mesma revista diz que uma criança loira se assustaria na presença dele e diria: "Mamãe, ele fala!". Mas...

...Mas foi uma vida inteira de silêncio de túmulo sobre estes temas, até que o goleiro Aranha fez o caminho oposto e não se calou diante das ofensas. Só então Pelé admitiu o que sofreu, afirmando que se ele tivesse parado todo jogo em que foi chamado de "macaco" ou "crioulo", teriam que ser interrompidos todos os jogos que participou.

Bem sabemos que os estereótipos de negro brasileiro endinheirado, que corre para ter os símbolos que ele acha que o tornarão aceito pela elite são rasos. Bem sabemos que tudo isso também é cicatriz e plano bem sucedido de uma sociedade que fomenta o auto ódio em pessoas negras por séculos, mas hoje olhamos seu inegável legado esportivo com o espanto dos que admiram um talento sem igual e com uma trava amarga não apenas pelas costas viradas a tanta dor que o cercava, mas por ter concordado com ela. Seu punho cerrado erguido em soco no alto para comemorar um gol era marca registrada e virou selo, camiseta, cartaz, publicidade... No que não poderia ter se transformado, se o braço levantado fosse aquele outro?

Garrincha, ao contrário do colega de dupla, é um personagem-trágico. Uma figura tão rica em drama, que espanta ainda não ter virado um filme poderoso. Manoel Francisco dos Santos, o Mané, não teve a chance de comemorar oito décadas. Foi embora aos 50 anos, com o fígado consumido pelo alcoolismo e a desilusão.

Desde que saiu de Pau Grande, do time da fábrica inglesa de tecidos, até ser aceito no Botafogo, bateu na porta de Flamengo, Vasco, Fluminense... mas só enxergavam suas pernas completamente tortas, com um intervalo de seis centímetros entre os joelhos. Quem imaginaria que seriam justamente estas pernas nada retas o tesouro de uma época? Garrincha fez parte de um Botafogo lendário que teve Zagalo, Didi, Amarildo, Nilton Santos.

Um jornal chileno perguntou sobre ele durante a Copa de 1962: "De que planeta viene?" Não sabemos, mas todos os seus oponentes já sabiam. Ele daria um drible para direita, arrancaria e cruzaria para a área. Sabiam, mas mesmo assim caíam toda vez! E a arquibancada ria, se divertia, aplaudia. Tanto que sua alcunha era "alegria do povo". Enquanto Pelé encarnava o super star matador, Garrincha personificava a figura malandra, matreira, zombeteira e um tanto debochada, que casava perfeitamente com a bola que jogava.

Teve 13 filhos. Treze! Incluindo um sueco e um que foi fruto do romance mais famoso do futebol brasileiro: Garrincha e a cantora Elza Soares. Um relacionamento criticado e conturbado desde sempre, mas que Elza aponta como uma paixão arrebatadora, como o amor maior de sua vida. Uma história que fez tremer a tradicional família brasileira. Durante a ditadura militar Garrincha e Elza tiveram a casa metralhada e 24 horas para deixar o país. Ela havia participado de um show de Geraldo Vandré, muito visado por ser confessadamente de esquerda. Viveram mais de dois anos na Itália.

Os anos de ouro de Garrincha foram de 1958 a 62, depois, uma lesão mal curada no joelho e a bebida o fizeram decair de maneira vertiginosa. O "Anjo das pernas tortas" tentou suicídio duas vezes, teve três acidentes de carro (num dos quais morreu a mãe de Elza Soares) e muitas internações por alcoolismo. Elza disse certa vez que Garrincha era como o "Médico e Monstro", pois se transformava quando bebia.

Tudo isso traz perguntas: Que máquina é esta capaz de extrair o talento e moer o espírito a tal ponto? Garrincha morreu pobre, sozinho, desiludido, perdido. Mesmo depois de tantas gargalhadas e dos gritos de euforia que provocou? Mesmo depois de ser ovacionado pelo país inteiro? Que vida negra famosa e talentosa foi esta que pouco importou, que se consumiu?

Sobre Garrincha, termino com o comentário do historiador Luiz Antônio Simas: "O drible civilizatório de Garrincha partia de um princípio simples: ao invés de bater de frente com o marcador, Mané gingava buscando o vazio. O segredo é brincar no vazio, sempre. E isso não é reflexão profunda, conceito, porra nenhuma. É só uma maneira de continuar jogando."

E para continuar jogando, continuemos aprendendo com os erros e acertos, mas, sobretudo também com a enorme força herdada do pertencimento negro, que construiu e segue erguendo, em cada bola lançada para o vazio, esta nação.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.