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Clodoaldo Silva

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Clodoaldo - Jogos Paralímpicos: convite ao ministro da Educação

Ministro da Educação Milton Ribeiro - Catarina Chaves/Ministério da Educação
Ministro da Educação Milton Ribeiro Imagem: Catarina Chaves/Ministério da Educação
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Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

19/08/2021 18h06

Infelizmente, nos últimos dias tivemos o desprazer de escutar afirmação do ministro da educação, Milton Ribeiro, de que alunos com deficiência atrapalham o aprendizado de crianças sem deficiência. Ribeiro também defendeu a criação de turmas e escolas especializadas que atendam apenas estudantes com deficiência.

A cinco dias do maior evento esportivo paralímpico do planeta, eu não vou me calar. É inconcebível escutar um discurso tão regressivo e preconceituoso como esse. Desrespeito é pouco. É, no mínimo, uma vergonha.

Quem me conhece sabe que não entro em discussão política. No entanto, a afirmação do senhor ministro me fez refletir os tempos que tive na escola. Para quem não sabe, eu me arrastava no chão, já que nasci com as pernas cruzadas e dobradas e só fui operado depois dos sete anos de idade. Eu sou de uma família muito pobre e ir para a escola era minha alegria. Lá, tinha merenda, professores... Ah, senhor: eu jogava futebol. Era goleiro.

Eu tenho plena convicção que não atrapalhei meus amigos de escola. Muito pelo contrário, tivemos um aprendizado incrível juntos. E eu não precisei estar em uma turma só pra mim.

Quero dizer também ao senhor que essa defesa de separar as pessoas com deficiência cai por terra quando a gente traz à tona alguns exemplos de cidadãos com deficiência que passaram pelo estudo regular e estão incluídos na sociedade, ocupam cargos nas empresas e, pode ficar de boca aberta, são campeões aqui do Brasil.

O senhor sabia que temos ídolos com deficiência? E eles não precisaram estudar em classes separadas. Alguns deles iniciaram no esporte em atividades lúdicas das escolas. Muitos por conta de oportunidades dadas pelos professores e pelo esforço próprio, meu caro gestor.

Eu quero dizer por último que é importante ter crianças com e sem deficiência juntas nas escolas para que elas não cresçam tendo um pensamento preconceituoso e de estranheza quando encontrarem em sua frente uma pessoa com deficiência. E que elas não disseminem ideias de separar pessoas, mas de agregar. Eu gostaria muito de saber: o senhor teve a oportunidade de dividir algum espaço com alguém com deficiência?

Sem mais, pois já me chateei muito com essa história. Quero te convidar para torcer pelo Brasil. Existe o Brasil Paralímpico, senhor! Nós temos 253 atletas no Japão que irão defender nosso país nos Jogos que se iniciam no dia 24 de agosto, quando será realizada a abertura do evento.

Delegação de atletas paralímpicos que representam o Brasil em Tóquio - ALE CABRAL/CPB - ALE CABRAL/CPB
Delegação de atletas paralímpicos que representam o Brasil em Tóquio
Imagem: ALE CABRAL/CPB

A maioria desses atletas frequentou a escola. Hoje, são representantes do país. Ganham salário, senhor. Acredite: eles têm capacidade para pagar seus impostos, inclusive ajudam a pagar o seu salário. São produtivos, esforçados, inteligentes, têm filhos, irmãos, amigos. E por incrível que pareça, são uma potência mundial.

Eles não atrapalham o Brasil. Muito pelo contrário. Eles dão orgulho ao nosso povo que tem aprendido, cada vez mais, mesmo diante de discriminações latentes, que as diferenças são importantes para o crescimento de uma sociedade mais justa e igualitária.

Os Jogos vão até o dia 5 de setembro. Durante esse tempo, espero que o senhor mude um pouco a sua visão sobre quem verdadeiramente atrapalha o Brasil.

Abraços aquáticos e bom fim de quinta-feira a todos.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL