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Falta 1 ano: presidente do CPB abre o jogo sobre as incertezas dos Jogos

Clodoaldo Silva

Clodoaldo Silva é o primeiro ídolo do esporte paralímpico brasileiro. Um dos maiores nadadores do mundo, é dono de 14 medalhas (6 ouros, 6 pratas e 2 bronze) paralímpicas. Também é palestrante, empresário, atuante na área de inclusão das pessoas com deficiência e comentarista do esporte paralímpico.

24/08/2020 14h35

Resumo da notícia

  • Não saber quando as competições voltam, como serão os processos qualificatórios e de classificação dos Jogos, são alguns dos problemas.

Estamos a exatamente um ano dos Jogos Paralímpicos. Se tudo correr bem, em 24 de agosto de 2021 serão abertos os Jogos em Tóquio, no Japão. Para marcar a data, eu conversei com Mizael Conrado, presidente do Comitê Paralímpico Brasileiro, para entender mais como o órgão está se estruturando em meio à crise do covid-19 e quais são principais fatores que envolve todo esse novo cenário. Na entrevista, o presidente voltou afirmar o que já tinha dito no mês de junho: se não houver uma vacina até o fim deste ano, a realização dos Jogos é improvável.

Ele também destacou as incertezas que os atletas e o movimento paralímpico têm vivido, como não saber como e quando as competições voltam, como serão os processos qualificatórios e de classificação para os Jogos, entre outras questões muito importantes. No bate-papo, ainda conversamos sobre a reclassficação do André Brasil e a situação do Daniel Dias. "Como eu já disse anteriormente, a última reclassificação representou uma máquina de moer ídolos. Eu não posso ter uma outra conclusão se não a de que o atleta não representa muito para o sistema. Porque, se representasse, ninguém negaria uma oportunidade para uma nova classificação a alguém que conquistou 14 medalhas paralímpicas", afirmou o presidente.

MIzael Conrado - Divulgação - Divulgação
MIzael Conrado
Imagem: Divulgação

Vale muito conferir a entrevista completa e também assistir ao vídeo, com mais detalhes.

Jogos Paralímpicos de Tóquio 2021. Vão acontecer ou não?

Essa é uma grande incógnita. O que eu acredito é que se nós não tivermos a vacina aprovada até o mês de dezembro dificilmente nós teremos os Jogos realizados em agosto do ano que vem. Esse processo da vacinação é um processo complexo, não só pelo descobrimento e desenvolvimento, mas também pela vacinação de toda a população do mundo, visto que os Jogos congregam quase que todas as nações. Os efeitos econômicos são muito grandes em relação aos Jogos e existe uma resistência da comunidade japonesa em relação ao evento. Por isso, eu acredito que se tivermos uma vacina até dezembro, sim ocorrerão os Jogos, mas se não tivermos, lamentavelmente, eles não acontecerão.

O que você acredita que será mais difícil até os Jogos Paralímpicos, levando-se em consideração toda a crise que estamos vivendo?

A principal dificuldade que iremos viver até agosto de 2021 é a incerteza. A gente ainda tem um processo de qualificação para ser concluído. Temos também o processo de classificação, já que nós temos alguns atletas que deveriam se reclassificar em 2021 e a gente não sabe como vai ficar isso. A volta dos treinamentos está com um número de atletas bem reduzido. Estamos somente com 43 atletas treinando aqui no Centro Paralímpico. E temos muitos que querem iniciar suas atividades. Hoje o principal desafio realmente é a falta de horizonte, de certeza que paira sobre as nossas cabeças.

Na sua opinião, a forma como se dá a reclassificação é justa com os atletas que já estão a muito tempo no esporte paralímpico ser reclassificado?

O IPC tem feito alguns gols contra em relação ao processo de reclassificação. O esporte é o responsável por promover a criação de ídolos e esses ídolos são fundamentais para que a sociedade reconheça o esporte paralímpico, para que a inclusão aconteça, já que os atletas são ídolos para as crianças. Eles são exemplo para a sociedade em geral. Do ponto de vista comercial também o resultado é fundamental porque ele que dá visibilidade ao esporte. Na medida em que o sistema cria os ídolos e o IPC sem qualquer justificativa provoca uma mudança no sistema de modo a transformar esses ídolos em pó, eu acho que isso é fazer um gol contra. Isso é depor contra o esporte e, principalmente, contra o seu maior produto que é o atleta paralímpico. Que é o ídolo paralímpico. Isso aconteceu com você lá atrás e isso aconteceu agora com vários atletas.

Daniel Dias comemora a conquista da medalha de ouro em Londres-2012 - LEON NEAL/AFP - LEON NEAL/AFP
Daniel Dias: carreira do nosso maior medalhista em risco
Imagem: LEON NEAL/AFP

Nós estamos muito indignados até hoje com a reclassificação que ocorreu em 2018. O Daniel Dias recebeu 3 Prêmios Laureus condecorados pelo próprio Comitê Paralímpico Internacional. E com essa reclassificação agora vai ter dificuldade de conquistar medalha. Pelos tempos dele, com essa nova reclassificação, o Daniel não ganharia uma medalha se quer. E isso melhorando seus tempos. E agora não ganha uma medalha de ouro, quando nas circunstâncias normais, conquistaria cinco medalhas de ouro.

Como é que explica para a sociedade que o Daniel sendo o mais rápido agora não ganha aquilo que ele era soberano? Existem alguns estudos que serão lançados. Eu estou te falando aqui em primeira mão. No ano passado, no Mundial de Natação, o Brasil conquistou cinco medalhas de ouro, se ele não tivesse passado por essa reclassificação ele traria pelo menos nove medalhas de ouro, quase o dobro do que conquistou lá. Isso atrapalha o planejamento do país. Como eu já disse anteriormente, a reclassificação do IPC representou uma máquina de moer ídolos.

André Brasil exibe as cinco medalhas conquistadas nos Jogos Paraolímpicos de Londres - Guilherme Taboada/CPB - Guilherme Taboada/CPB
André Brasil: reclassificação bane André do movimento paralímpico
Imagem: Guilherme Taboada/CPB

Nós não temos como deixar de abordar o caso do atleta André Brasil. Como o CPB vê essa questão do André e de outros atletas e o que estão fazendo para poder reverter essa situação?

Com relação ao caso do André, ele é mais trágico e absurdo ainda. O André conquistou 14 medalhas paralímpicas e três Paralimpíadas e, de repente, uma banca examinadora diz que o André não é mais elegível para o esporte. Ele passou por reclassificação no mesmo evento. Por classificadores que estavam na mesma competição. A classificadora chefe que estava na primeira banca participou também da segunda, caracterizando de maneira cabal o conflito de interesse. E o André se quer recebeu o direito de uma nova classificação em outro evento com classificadores diferentes. Eu entendo que, se é uma organização que respeita os ídolos, ela tem que oferecer para o André Brasil uma nova oportunidade de fazer uma nova classificação. Isso lamentavelmente não foi concedido a ele. E aí eu não posso ter uma outra conclusão se não a de que o atleta não representa muito para o sistema, porque se representasse ninguém negaria uma oportunidade para uma nova classificação para alguém que conquistou 14 medalhas paralímpicas. E que não só ele, mas como vários outros atletas são os responsáveis por chegarmos até aqui. Por termos os ídolos que a gente tem, por termos a estrutura que nós temos. Pelo movimento paralímpico ter chegado até aqui e ter conquistado todo esse espaço. Ninguém pode negar a importância que o André teve para o esporte paralímpico. Nós não poderíamos de deixar de estar ao lado do André, nós ajuizamos uma ação na Justiça Alemã e estamos preparados, para no caso de perder, para ir para Corte Europeia e não mediremos forças para estar ao lado do André.

Estamos tentando voltar ao normal em relação às competições. Para os atletas paralímpicos, alguns deles consideração de alto risco, como voltar as competições. Como e quando isso pode ser feito sem nenhum risco para os atletas?

Eu não acredito que esse retorno aconteça antes do final do ano. Que a gente tenha competição antes da gente ter uma vacina. Nós temos uma população de alto risco. E claramente a prioridade tem que ser sempre a vida.

Antes de tudo isso, o CPB tinha um planejamento e uma campanha. Depois da Pandemia, como ficou tudo isso e qual a expectativa do CPB para os Jogos Paralímpicos, se eles acontecerem?

O nosso planejamento foi pensado fase a fase. Nós estamos vindo de uma evolução importante. Vou te dar um exemplo. O atletismo no campeonato mundial de 2017, o Brasil conquistou 21 medalhas, sendo oito de ouros, sete de prata e seis de bronze. Dois anos depois, a gente saiu de 21 medalhas para 39, sendo 14 de ouro, 9 de prata e 14 de bronze. Os mundiais são o termômetro para os Jogos Paralímpicos. Esses resultados nos criou uma expectativa importante para os Jogos de Tóquio. Certamente o Brasil faria uma grande participação. A gente trabalha com ciclos e nesse instante a gente tem tantas variáveis. Não sabemos quando iremos voltar, não se sabe como será o cronograma desse retorno, não sabe como será o cenário dessas classificações que precisam ser feitas aí até o momento dos Jogos. Não sabemos como serão os últimos qualificatórios. Não sabemos como os nossos atletas irão chegar nos Jogos. Considerando todo esse cenário de incertezas, é impossível nós fazermos qualquer prognóstico para o ano que vem. É uma pena, mas nós tínhamos uma crença muito grande internamente que seria a melhor participação da história do Brasil nos Jogos de Tóquio. Infelizmente, a Pandemia nos tirou essa certeza, mas aumentou a nossa vontade de fazer uma bela participação ainda com todos esses problemas.

Pra você, qual foi o grande legado deixado dos Jogos Rio-2016?

O maior legado que temos é o Centro Paralímpico, que é um dos maiores centros de treinamento paralímpico do mundo. Temos hotel para 300 pessoas, espaço para treinamento, temos competições de 20 esportes, com uma área de 100 mil metros construída. Hoje nós temos condições de fazer uma preparação no espaço físico adequado, tecnologia, aplicação da ciência à atividade esportiva. Além dos Jogos terem também repercutido muito bem para a sociedade brasileira, eles nos deram a condição de construirmos uma trajetória de modo a aumentar a nossa visibilidade. Nós criamos, por exemplo, em 2018 o Selo Brasil Paralímpico que basicamente é uma estratégia para incentivar a transmissão de eventos esportivos. Sempre foi uma queixa do movimento paralímpico que nós só éramos vistos de quatro em quatro anos. Isso sempre foi um problema. Como consolida, como cria marca se as pessoas só nos veem de quatro e quatro anos. Esse selo já nos garantiu diversas transmissões, no ano passado foram 66 eventos transmitidos, considerando mundiais e campeonatos brasileiros. Pela primeira vez um jogo de Goalball foi ao vivo na TV, com uma audiência de 305 mil pessoas assistiram os meninos. Em 2019, nós tivemos uma audiência de aproximadamente 10 milhões de pessoas no ano passado, o que representa 5% da população brasileira, considerando que os que tiveram a oportunidade de ver são aqueles que têm canal fechado. A repercussão dos Jogos do Rio nos ajudou a avançar nessa estratégia e a mostrar para a sociedade que a gente tem de fato um produto importante. Um produto transformador.

Qual a mensagem você deixa para o movimento paralímpico e para os atletas?

A mensagem que eu deixo é a mensagem de esperança. A mensagem de esperança que esse momento vai passar. A mensagem de esperança que nós iremos consolidar, definitivamente, o nosso esporte paralímpico no Brasil. Esperança de que de fato nós estamos avançando em direção de um Estado inclusivo. Várias conquistas já tivemos como a Lei Brasileira da Inclusão, pelo reconhecimento do esporte pelo Sistema Nacional do Desporto, temos a Lei Agnelo Piva e tantos outros dispositivos. E agora o nosso grande desafio, a nossa grande luta é de fato fazer com que as pessoas com deficiência estejam inseridas na sociedade de modo que não seja possível mais diferenciar oportunidades de quem tem ou não tem alguma limitação em virtude da deficiência. Muito obrigado, Clodô.

Assista à entrevista completa. Nela temos mais detalhes sobre o esporte paralímpico no Brasil. Aproveite!

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.