PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Campo Livre


Campo Livre

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Não ousem mensurar nossa dor ou dizer o que queremos. Não ousem!

Celsinho, do Londrina, sofreu racismo na partida contra o Brusque na Série B - Marcos Zanutto/AGIF
Celsinho, do Londrina, sofreu racismo na partida contra o Brusque na Série B Imagem: Marcos Zanutto/AGIF
Marcelo Medeiros Carvalho

Marcelo Medeiros Carvalho é formado em administração e possui MBA em gestão administrativa. Em 2014 criou o Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

19/11/2021 10h28

A pele escura, o cabelo crespo, os lábios grossos, a religião, os traços, a musicalidade entre outras tantas características do povo negro sempre foram motivos de piada para uma sociedade branca que fez do racismo uma maneira para nos escravizar e destruir. O Brasil está construído em cima da mão de obra forçada de negros e negras que foram arrancados a força de suas terras para através do trabalho escravo enriquecer alguns poucos.

Negros não inventaram o racismo, sofrem com ele. Negros não são descendentes de escravizados, são um povo com uma longa história antes de chegarem ao Brasil, mas esse país não tem uma história sem o povo negro. Esse país tem as mãos sujas de sangue de quem sofreu nas senzalas e com o açoite.

A liberdade chegou, mas nunca a igualdade. Mais de 100 anos depois da Lei que libertou negros e negras do trabalho escravo ainda não conseguimos apagar as marcas da escravização. Ainda não conseguimos apagar as marcas das histórias que foram criadas para servir de pretexto e desculpa para a escravização acontecer.

Aos negros e negras libertos não foram dadas terras, direito de escola e moradia, e o reflexo é a desigualdade racial; não causada por baixa intelectualidade ou preguiça como alguns insistem em dizer. Todas as conquistas foram suadas, brigadas e conquistadas, todas. Inclusive o direito de jogar futebol, um esporte que chega ao Brasil elitista e racista.

Mas nossa briga por igualdade, equidade e respeito continuam, afinal ainda não chegamos aos espaços decisórios em bom número. Somos mais de 53% da população, mas não somos representados onde o futuro e os diretos são decididos, ficamos a mercê da decisão de homens brancos que fingem se importar como nossa dor.

No futebol negros são a maioria dos jogadores, e isso mascarou o racismo no esporte número um dos brasileiros, afinal fora das quatro linhas não ocupamos espaços. Não temos treinadores, dirigentes, presidente de clubes, de federações e tribunais de justiça desportiva negros.

Desta forma é ingênuo pensar que o racismo vai passar de fato a ser algo inaceitável dentro ou fora das quatro linhas. O comando do futebol não vai passar a ser antirracista de fato, punindo seus pares, em um movimento de quem já está no comando desde que a primeira bola por aqui chegou.

Esse movimento vai acontecer de fora para dentro, baseado na luta por mais representatividade, na luta por ações contínuas de combate a discriminação, na luta por apoio financeiro a projetos antirracistas.

O grito, o xingamento, o ato ou a atitude racista para quem não tem a pele preta e a história marcada por humilhações não tem peso algum. Se para quem está no comando tudo não passa de um mal entendido é difícil esperar ações e decisões fortes contra os racistas.

O que para alguns é piada para o povo negro leva a morte, adoece e nos leva embora a esperança de um país mais justo. Não leva, e jamais vai levar, embora nossas forças, pois vamos continuar a lutar por nossos direitos. Na semana da consciência negra, uma data marcada por lutas, a sensação de derrota de assistir decidirem o quanto nossa dor é verdadeira, o quanto o que na Lei é considerado crime pode ser aceito como algo sem importância nos assusta.

A dor da derrota é amarga, mas também é combustível para jamais nos deixarmos silenciar. Que o Celsinho continue firme em sua vida, que jamais corte seu cabelo. Que nenhum negro tenha vergonha de seus traços, cultura, religião. Nossos ancestrais morreram por liberdade e nos ensinaram a jamais desistir.

E antes que eu me esqueça o nome do trabalho que combate o racismo no futebol brasileiro é Observatório da Discriminação Racial no Futebol, não se esqueçam e não ousem querer nos ensinar o que vai nos deixar de alma lavada. Afinal, o que nos deixa plenamente realizados é ver racistas na cadeia.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Campo Livre