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A pedalada na casa de Jean

Na casa de Jean, as pedaladas não foram de Robinho e deram o título do Brasileirão ao Botafogo em 2002 - Antônio Gaudério/Folhapress
Na casa de Jean, as pedaladas não foram de Robinho e deram o título do Brasileirão ao Botafogo em 2002 Imagem: Antônio Gaudério/Folhapress
Leandro Ramos

Leandro Ramos

Carioca, suburbano e flamenguista, Leandro Ramos é ator, diretor, roteirista e centro-avante de pelada. Dirigiu o Larica Total e o Matador de Passarinho entre outros, e é o Julinho da Van, do Choque de Cultura.

06/11/2018 12h28

Eu gosto do Botafogo. Acho um clube com uma história linda, e trabalhei com uma pessoa que era muito gente boa e muito botafoguense no meu primeiro emprego, Jean era o nome dele. Hoje em dia, está ficando cada vez mais raro você encontrar um botafoguense empolgado, mas o meu amigo de baia Jean era muito. Não importa o quão mal ia o Botafogo, Jean ia pra todo jogo acreditando na vitória. Ele era um otimista e esse era o jeitinho dele cultivar seu amor clubístico. Acontece que Jean teve um filho. Nasceu a criança, Jair. Foi aquela alegria na família de alvinegros, ele deu um uniforme do Botafogo, cantou o hino pro filho quando o pegou no colo pela primeira vez, deu pijama, toalha, brinquedo, coberta, velotrol, tudo do Botafogo, até que o filho de Jean aos dois anos enfim pegou amor ao clube.

O bebê foi crescendo e na hora de dormir, o pai sempre contava histórias do passado glorioso do fogão, do Garrincha, do Nilton Santos, do Gérson, do Jairzinho, e toda a poesia do clube conquistou o coração do menino. Toda noite era Botafogo e Ursinho Pooh na hora de nanar. Só que o tempo foi passando e, apesar das historinhas do papai, o Botafogo ia mal das pernas quando o menino fez três anos. Nessa idade, toda criança é muito volúvel à convivência tóxica com coleguinhas que torcem para clubes em melhor fase. O prezinho é a mais selvagem das fases escolares, o bullying é fortíssimo, ninguém quer ser zoado, porque ainda chupa chupeta ou porque torce para o clube que não ganha. Então, como largar a chupeta era muito difícil,  o filho de Jean ficou na dúvida se ainda era jogo ser um dos três botafoguenses na turminha e, ao chegar em casa um dia, disse:

- Papai, quero ser Flamengo.

O mundo de Jean desabou. Meu colega de trabalho estava desesperado. Todos os dias ele contava que o filho estava querendo torcer pro Flamengo, dizia o nome dos atletas do Flamengo, pediu uma camisa. Jean não sabia mais o que fazer. Em 2002, não existia Youtube, o botafoguense daquela época precisava ter revista e jornal antigo, fita VHS ou DVD de gols antigos se quisesse mostrar as jogadas de Garrincha e Nilton Santos para o filho. Jean tinha seu arquivo pessoal, mas seu filho já estava cansado de ver aquilo, mesmo uma criança de três anos de idade enjoa de ver sempre a mesma coisa. Foi quando, apavorado com a possibilidade de nunca mais poder torcer para o clube de coração junto do filho e não poder levá-lo ao estádio, Jean tomou a decisão mais difícil de sua vida. Sabendo que o filho ainda não estava completamente alfabetizado, ele passou a assistir na reta final do Brasileirão a todos os jogos do Santos com a TV no mudo e fingindo para o filho que era o Botafogo. O Peixe tinha Diego e Robinho encantando o Brasil com um futebol moleque, irresponsável, bonito de ver. E deu certo. A cada gol do Santos, Jean e seu filho comemoravam em casa, iam pra janela e gritavam "Fogo!". O teatro de Jean era meticuloso, ele narrava o jogo pro filho trocando o nome dos atletas do Santos por atletas do Botafogo e nunca se arrependeu disso. No fim das contas, o seu "A Vida é Bela" esportivo impediu que meu nobre amigo perdesse um filho para o Flamengo.

E foi assim que o Donizete deu uma linda pedalada em cima do cabeça de área Rogério na casa de Jean em 2002, dando mais um título brasileiro ao Botafogo.

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