PUBLICIDADE
Topo

Coluna

Campo Livre


Campo Livre

Um alerta ao futebol brasileiro

Os jogadores Kaiser, Gaúcho e Renato Gaúcho e seus belos cabelos que fizeram fama nos anos 80 e 90 - Acervo Pessoal
Os jogadores Kaiser, Gaúcho e Renato Gaúcho e seus belos cabelos que fizeram fama nos anos 80 e 90 Imagem: Acervo Pessoal
Leandro Ramos

Leandro Ramos

Carioca, suburbano e flamenguista, Leandro Ramos é ator, diretor, roteirista e centro-avante de pelada. Dirigiu o Larica Total e o Matador de Passarinho entre outros, e é o Julinho da Van, do Choque de Cultura.

16/10/2018 04h00

Quando o UOL me convidou para escrever uma coluna de esportes nesse maravilhoso portal da grande rede mundial de computadores (internet é o futuro), a primeira coisa que pensei para essa estreia foi que eu queria começar escrevendo de cara um grande alerta. Eu tinha que chegar com denúncia porque aqui é compromisso. E o futebol hoje é feito de denúncia, e dona FIFA e dona CBF estão aí pra provar que eu não tô mentindo. Acho importante a gente alertar as pessoas sobre toda e qualquer ameaça ao nosso futebol, no sentido de manter a magia do esporte mesmo. Então eu, como o mais novo colunista não diplomado em jornalismo do país, me senti no dever cívico de abrir os olhos da população porque é um absurdo o que estão fazendo com certos tipos de jogadores do futebol brasileiro. É predatório.

Tonhão e seu mullet - César Itiberê/Folha Imagem - César Itiberê/Folha Imagem
Tonhão coloca seu mullet em ação: porque não vemos mais jogadores como ele?
Imagem: César Itiberê/Folha Imagem

O jogador raçudo com cabelinho mullet, por exemplo, praticamente acabou. Tá quase extinto. E isso num país que já teve um Roberto Cavalo, um Tonhão, um Charles Guerreiro, um Ricardo Rocha, o argentino Mancuso e outros tantos grandes nomes que alegravam nossos domingos. E o jogador de bigode? Hoje em dia tem o William Bigode, o Gustavo Scarpa e acabou. E olha que o jogador de bigode sempre foi uma tradição brasileira desde Vavá, o Leão da Copa, passando por Rivelino, Valdir Bigode, Vampeta, Toninho Cerezo, Júnior Capacete e muitos outros craques.

É uma perseguição aos jogadores com essas características que está em curso, meus amigos. Eles não passam nem na peneira mais. Você não vê mais esse tipo de atleta chegando aos times profissionais e o Brasil quer saber porquê. E o que dizer do atacante cabeludo? Tá caindo em desuso também, depois da invasão dos moicanos e cabelinhos do funk, ninguém valoriza mais um jogador de cabelo cheio e sedoso. Antigamente, a gente tinha um Renato Gaúcho, um Mauricinho do Vasco, um Alcindo, um Gaúcho, um Josiel, um Fernandão. Era uma festa de penteados.

Paulinho Mclaren: para que os apelidos não morram - Arquivo Pessoal/Paulinho Mclaren - Arquivo Pessoal/Paulinho Mclaren
Paulinho McLaren: será que ele teria feito tanto sucesso como Paulo Rosa?
Imagem: Arquivo Pessoal/Paulinho Mclaren

Nos tempos áureos do futebol, o jogador de futebol profissional podia usar o nome que ele quisesse, os apelidos eram respeitados e até isso está acabando também. A gente tem que falar isso aqui, da perigosa seriedade que assola os campos nos dias de hoje. Eu não sei se um Paulinho McLaren seria levado a sério em pleno 2018. Eu, particularmente, tenho muita saudade daqueles nomes mais soltos, mais moleques, que a gente quase não vê mais: um Júlio César Uri Geller, um Marco Antônio Boiadeiro, um Walter Minhoca, um Gérson Canhotinha de Ouro e o próprio Paulinho McLaren. Eu acho que está ocorrendo uma perigosa pasteurização dos nomes dos atletas profissionais do futebol brasileiro. Tenho uma teoria de que isso começou a partir do sucesso dos craques no diminutivo no final dos anos 90 e 2000, como Ronaldinho, Ronaldinho Gaúcho, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Paulinho, Jorginho. E, se não fosse a criatividade dos pais e mães dos atletas profissionais dos anos 2000, teríamos vivido quase duas décadas num marasmo de nomes. Quero deixar meus parabéns especiais aos pais do Alan  Kardec, Mozart, Getúlio Vargas e Maicosuel.

Um dos últimos grandes nomes, que despertou em mim o olhar para essa maldade que estão fazendo com o pessoal mais criativo na questão do batismo, foi o Creedence  Clearwater Couto, um grande guerreiro incompreendido por causa de seu nome. Portador de um nome forte que tinha tudo para se destacar no mundo da bola, ele nunca se firmou num grande clube e também nunca foi convocado pra seleção. Eu tenho certeza de que era por causa do nome ousado demais. E eu acho também que o já citado Paulinho McLaren, se estivesse começando agora, seria rebatizado de Paulo Vieira ou Paulo Rosa, quando estourasse a idade nas categorias de base. Então, precisamos valorizar aí os guerreiros do futebol que fazem sucesso com um nome mais doideira e resistem num ambiente de futebol profissional muito careta nos dias de hoje, caso dos grandes atletas Yago  Pikachu, Hernane  Brocador, Maicosuel, Francinilson e muitos outros, que resistem e tentam manter a grandeza do nosso futebol em meio a tantos nomes e sobrenomes comuns.

Tá feito o protesto.

Campo Livre