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Homossexualidade, o eterno tabu no futebol

Justin Fashanu, jogador do Norwich City, foi o primeiro profissional a se assumir gay na Inglaterra - Allsport UK /Getty Images
Justin Fashanu, jogador do Norwich City, foi o primeiro profissional a se assumir gay na Inglaterra Imagem: Allsport UK /Getty Images
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Mário Lúcio Duarte, o Aranha, atuou como goleiro na Ponte Preta, no Atlético-MG e no Santos, entre outros. Foi campeão da Libertadores, da Copa do Brasil e dos Campeonatos Paulista e Mineiro. Aposentado, ministra palestras e a participa de eventos sobre questões raciais. Escreveu um livro sobre a história do negro no Brasil, a ser publicado em 2020.

Colunista do UOL

11/12/2020 04h00

O preconceito se manifesta na sociedade e no futebol de diversas maneiras. Seja por meio dos inúmeros casos de racismo, homofobia, xenofobia, misoginia ou quando as mulheres recebem salários inferiores aos dos homens, por exemplo.

Pergunto a vocês: se temos hoje em nossa sociedade diversas pessoas que assumem sua homossexualidade, por que no futebol não existem atletas homossexuais?

O jogo do bicho, que surgiu no Rio de Janeiro para incentivar as pessoas a frequentarem o jardim zoológico, fez surgir a aversão que hoje torcedores e jogadores têm com o número 24, por ser o número do veado no jogo, um bicho que era associado a um homem afeminado.

Isso faz com que jogadores não usem esse número na camisa até hoje. Quando a Conmebol passou a exigir que as camisas dos clubes que participam de competições sul-americanas sejam de 1 a 30, o número 24 acaba sendo entregue ao terceiro goleiro ou a um estrangeiro.

No mundo, o primeiro jogador a se assumir gay publicamente foi Justin Fashanu, que chegou a ser o jogador negro mais caro do futebol inglês na sua época. Ele teve a sua vida extracampo colocada acima do seu talento como futebolista e viu sua carreira entrar em declínio.

Recentemente, um jogador da Premier League enviou ao jornal "The Sun" uma carta afirmando ser homossexual e contando como é difícil viver a vida escondendo sua orientação sexual e expondo também seu medo em se assumir, revelar sua identidade e perder sua posição no time e no futebol como um todo.

"Isso está afetando minha saúde mental cada vez mais. Me sinto preso, e meu medo é que divulgar a verdade sobre quem sou tornará as coisas piores. Assim, embora meu coração sempre diga que preciso fazer isso, minha cabeça sempre diz a mesma coisa: Por que arriscar tudo?", diz trecho da carta enviado ao diário inglês.

Por isso, se faz tão necessárias ações como a do árbitro Anderson Daronco que paralisou a partida entre Vasco e São Paulo, em agosto 2019, ao ouvir gritos homofóbicos vindos da torcida presente no estádio São Januário. A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pode punir o clube mandante por conta de casos como este, atendendo à exigência da Fifa de tolerância zero com ofensas de cunho sexual. O Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) prevê a punição no artigo 243-G do Código Disciplinar.

A diretoria do Bahia também tem feito ações afirmativas e corajosas no combate ao preconceito ao utilizar o futebol como ponte para chamar atenção da sociedade para diversas causas.

A sociedade está mudando, evoluindo para melhor, mas, infelizmente, não vemos esse reflexo no futebol, que ainda é um meio profundamente machista.

*Com colaboração de August Zaupa