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Por mais educação no esporte

Fachada da faculdade de direito da USP no Largo São Francisco, no centro de São Paulo - Folhapress
Fachada da faculdade de direito da USP no Largo São Francisco, no centro de São Paulo Imagem: Folhapress
Aranha

Mário Lúcio Duarte, o Aranha, atuou como goleiro na Ponte Preta, no Atlético-MG e no Santos, entre outros. Foi campeão da Libertadores, da Copa do Brasil e dos Campeonatos Paulista e Mineiro. Aposentado, ministra palestras e a participa de eventos sobre questões raciais. Escreveu um livro sobre a história do negro no Brasil, a ser publicado em 2020.

Colunista do UOL

14/08/2020 04h00

Depois que o mundo se conectou através da internet, passamos cada vez mais a observar os outros países e fazer comparações, principalmente com os Estados Unidos.

Entre as inúmeras comparações, a educação está se tornando o alvo principal. Nos Estados Unidos, a criança é estimulada a praticar esportes durante todo o seu desenvolvimento. Na adolescência, os estudos e o esporte caminham juntos.

11.set.2016 - Jogo de futebol americano universitário nos Estados Unidos teve mais de 156 mil pessoas nas arquibancadas - Michael Shroyer / AFP - Michael Shroyer / AFP
11.set.2016 - Jogo de futebol americano universitário nos Estados Unidos teve mais de 156 mil pessoas nas arquibancadas
Imagem: Michael Shroyer / AFP
Os melhores atletas são monitorados desde cedo e por meio do esporte muitos conseguem bolsas em conceituadas universidades. O perfil de cada um é analisado, sendo conduzido para cursos que serão mais produtivos para cada caso. Os que não seguem no esporte têm chance de ir para uma universidade mais destacada na área que escolheu.

No Brasil, esta separação do esporte e dos estudos, principalmente na adolescência, fica mais difícil porque muitos precisam trabalhar e ainda conciliar os treinos e os estudos. É inviável conciliar tudo e isso atrapalha em vários aspectos o desenvolvimento dos adolescentes.

Sabemos que para ter uma educação de qualidade no Brasil, que realmente transforme a vida das pessoas, precisamos passar por uma reforma completa ou até mesmo uma total reconstrução nos prédios e espaços utilizados pelos alunos. Hoje, a maioria das escolas lembra mais uma cadeia, um presídio.

Seria necessária uma mudança na maneira como olhamos para o esporte e a cultura, o ensino em todos os seus níveis precisa ser atrativo para motivar. Preparar e impulsionar os alunos, porque os jovens estão desestimulados e precisam escolher entre estudar, trabalhar ou tentar uma carreira no esporte.

O Brasil tem o futebol como esporte número um e tem progredido no processo de formação dos atletas, tendo em vista a mudança no mercado. O perfil do jogador mudou e o boleiro não tem mais espaço no mercado de alto nível. É preciso saber lidar com as informações, falar outros idiomas, ter uma postura e uma apresentação mais agradável. Estes pontos já fazem parte do critério de avaliação.

Estudantes da USP se enfrentam em jogo de Rúgbi - Pedro Girardelli/Divulgação - Pedro Girardelli/Divulgação
Estudantes da USP se enfrentam em jogo de rúgbi
Imagem: Pedro Girardelli/Divulgação
Atualmente, os clubes e federações têm tentado promover este contato do atleta com os estudos ao exigir a frequência na escola no período da base, e isso já tem dado frutos. Recordando o passado recente quando os clubes não eram obrigados a garantir o estudo dos garotos da base, tínhamos jogadores que mal sabiam ler, alguns nem conseguiam assinar o contrato e dar uma entrevista.

Agora, está se tornando cada vez mais comum ter no elenco jogadores com ensino superior. Porém é preciso entender a realidade do esporte mais popular no país e somar às outras modalidades para entendermos qual a importância da reformulação na cultura e educação para que o esporte não seja a única opção.

Segundo dados da Confederação Brasileia de Futebol, apenas 20% dos jogadores de futebol conseguem melhorar a sua qualidade de vida e construir um patrimônio. No universo de 360.291 atletas, entre amadores e profissionais em atividade ou não, apenas 88 mil são profissionais registrados.

Sócrates em ação pelo Corinthians nos anos 80 - Reprodução - Reprodução
Sócrates cursou medicina no início da carreira como jogador de futebol
Imagem: Reprodução
No esporte que paga os mais altos salários no Brasil, 82% dos jogadores de futebol têm salários até R$ 1 mil. Depois temos uma queda para 13,6%, com vencimentos entre R$ 1 mil e R$ 5 mil. Somente 0,40% dos consegue alcançar o objetivo principal que é jogar por um time grande e ganhar R$ 50 mil ou mais por mês.

A soma dos salários mais relevantes não chega a 1% dos atletas: R$ 50 mil a R$ 100 mil (0,40%); R$ 100 mil a R$ 200 mil (0,28%); R$ 200 mil a R$ 500 mil (0,12%); acima de R$ 500 mil (0,00003%).

É sempre bom lembrar que muitos não conseguem se manter por muito tempo neste patamar.

O sonho de ser um milionário no futebol brasileiro é para uma minoria restrita. Só o futebol despeja no mercado de trabalho pessoas com idade avançada e sem formação quase 82% deste grupo. Se somarmos aos outros esportes, o número ganha proporções gigantescas.

É necessário inverter este sistema e priorizar a formação, dar base para que a grande maioria destes atletas não seja devolvida de qualquer maneira ao mercado de trabalho depois de ter sua juventude e tempo sugados pelo esporte. Eles precisam também, em um determinado momento, optar por uma graduação para ter outras opções.

Não podemos ficar reféns do esporte, ter o futebol principalmente como única oportunidade de ser alguém ou de mudar de vida.

* Com colaboração de Augusto Zaupa

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.