PUBLICIDADE
Topo

Aranha

Destaque da Copa de 86 contou a mim quando barrou a Falcão e perda de filho

Elzo contra a Espanha; volante se destacou pela seleção na Copa de 86  - Bob Thomas/Getty Images
Elzo contra a Espanha; volante se destacou pela seleção na Copa de 86 Imagem: Bob Thomas/Getty Images
Conteúdo exclusivo para assinantes
Aranha

Mário Lúcio Duarte, o Aranha, atuou como goleiro na Ponte Preta, no Atlético-MG e no Santos, entre outros. Foi campeão da Libertadores, da Copa do Brasil e dos Campeonatos Paulista e Mineiro. Aposentado, ministra palestras e a participa de eventos sobre questões raciais. Escreveu um livro sobre a história do negro no Brasil, a ser publicado em 2020.

Colunista do UOL

04/09/2020 04h00

Elzo Aloísio Coelho, este é o nome de uma das lendas do nosso futebol. Os mais jovens podem estar se perguntando: Mas quem é Elzo?

Ele foi simplesmente o melhor volante da Copa do Mundo do México-1986, atuando ao lado de grandes craques na seleção brasileira, como Careca, Júnior e Sócrates.

Foi escolhido pelo técnico Telê Santana para ser titular, superando a concorrência com Falcão, Cerezo, Andrade, Batista e Douglas. Além disso, calou o bairrismo da imprensa esportiva do eixo São Paulo-Rio.

Elzo que é natural de Serrania, município de Minas Gerai, e é uma referência e orgulho para todos nós do Sul do Estado.

Pelo que jogou e onde jogou, eu me sinto na obrigação de resgatar este nome para que a juventude conheça mais da história do nosso futebol, além de causar saudosismo aos mais velhos, que, certamente, dirão: "bons tempos eram aqueles em que o torcedor brasileiro estava acostumado a um desfile de craques". Todo time tinha, no mínimo, um craque à disposição. Por causa desta abundância, muitos bons jogadores ficaram fora da seleção.

Tive o prazer de me encontrar com Elzo várias vezes e, desta vez, fiz questão de não perder a oportunidade para fazer algumas perguntas.

Ele recordou o ápice na carreira, as 'provocações' com Falcão pela titularidade na seleção, a perda de um filho de apenas 15 anos, lamentou a falta de craques no futebol do Brasil e os perrengues no início da sua trajetória, e até eu me lembrei do começo da minha jornada, quando tive que dormir em cima dos meus pertences para não ser furtado nos alojamentos.

Confira como foi o meu bate-papo com este craque da Copa de 86:

Aranha: Como foi sair a primeira vez de casa para jogar futebol, ficar no alojamento?

Elzo: A primeira vez que sai de casa para jogar futebol foi na tentativa de ajudar a família para conseguir algo maior. Para a minha surpresa, fui direto para o profissional fazer uma avaliação aos 16 anos no Pinhalense (clube do interior de São Paulo). Fui aprovado, mas no início foi aquela dificuldade. Morar em alojamento era muito pesado porque eu tinha uma casa, morava com a família. Então, foi muito difícil, mas compensador, com certeza.

Elzo, ex-volante do Atlético-MG - Reprodução - Reprodução
Elzo foi bicampeão mineiro pelo Atlético-MG
Imagem: Reprodução
Aranha: Realmente a distância da família, a cobrança nos treinos e ser obrigado a conviver com pessoas estranhas, cada um com suas manias e costumes, nem todos são gente do bem... Ainda tem a pressão, a cobrança interior para vencer na vida, o que gera muito estresse e muitos não aguentam e acabam desistindo.

Me lembro até do início da minha carreira. Cheguei a dormir em cima da minha mala porque, quando tinha dispensa de jogadores, era comum os furtos nos alojamentos. Então, cada um protegia as suas coisas como podia. Mas chega um momento que o sonho vira objetivo.

Aranha: Quando você percebeu que o futebol tinha deixado de ser um sonho e virado um objetivo como profissão?

Elzo: Percebi que o futebol era importante para mim quando fui vendido para a Inter de Limeira. Até então, eu me preocupava com os estudos. A minha preocupação era estudar. O futebol era uma forma de ajudar a família, até mesmo como o próprio estudo. Quando eu fui vendido pela Inter de Limeira para o Atlético-MG, foi quando eu realmente encarei o futebol como profissão. Tive que parar de estudar e me dedicar só ao futebol.

Aranha: Todos nós que já fomos profissionais no futebol, ou quem ainda é, passamos por este momento. Você não enxerga mais nada, além do futebol. Sequências de treinos, jogos e cobranças. Mas chega um momento que tudo fica claro. Você pensou em desistir?

Elzo: Sim, eu tive um momento muito difícil na minha vida. Foi quando eu sofri uma lesão gravíssima no joelho, com apenas 17 anos, era o início da minha carreira ainda pelo Pinhalense. Foi uma lesão muito grave nos ligamentos. Naquela época era muito difícil se recuperar de uma lesão como essa. Naquela oportunidade, eu tive vontade de desistir. Fui nos dez melhores ortopedistas do Brasil, e todos me desenganaram para o futebol. Mas apareceu um médico que acreditou e falou: 'vamos tentar, você tem um percentual de 10% de voltar a jogar' . Ele me perguntou se eu que queria operar. Eu aceitei, mas aquele foi o momento que pensei em desistir porque a lesão foi muito grave.

Equipe do Benfica na final da Copa dos Campeões em 1988, com os brasileiros Mozer e Elzo - Getty Images - Getty Images
Equipe do Benfica na final da Copa dos Campeões em 1988, com os brasileiros Mozer e Elzo
Imagem: Getty Images

Aranha: Você é um ídolo brasileiro, com passagens por grandes times, como o Atlético-MG, onde foi campeão estadual em 85 e 86, e foi titular do Brasil na Copa de 86, além de ter sido vice-campeão da Champions League com o Benfica, em 1987/88. Qual foi o jogo em que você pode dizer que foi o divisor de águas da sua carreira?

Elzo: Com certeza, o que marcou a minha história no futebol foi no Atlético-MG, numa decisão contra o Cruzeiro. Tive uma lesão na cabeça aos 10 minutos do segundo tempo. Joguei com a cabeça enfaixada e levei dez pontos no final do jogo. Fomos campeões do Mineiro, ganhando o título em cima do Cruzeiro. Fui o melhor jogador do Atlético-MG naquela oportunidade, em 1985.

Aranha: Muitas pessoas não valorizam o título regional, mas se você não ganha e o rival leva a taça a torcida fica bronca. Também tive a oportunidade de ser campeão mineiro com o Atlético, em 2010, e garanto que é uma sensação inesquecível sentir a vibração do Mineirão com mais de 60 mil torcedores gritando é campeão e cantando o hino.

Não importa, entrou em campo, tem que ser para vencer e honrar a camisa que esta te dando a oportunidade de entrar para história. Mas confesso que, era desafiante buscar motivação diante de times considerados pequenos. Como você foi buscar motivação depois de ter disputado uma Copa do Mundo e ter sido eleito o melhor da posição?

Elzo: Jogar uma Copa do Mundo não é fácil, teve muita dedicação da minha parte porque sempre há dificuldades. Logo após a Copa, voltei para o Atlético-MG e consegui manter minha vontade de jogar, manter o profissionalismo. Depois, fui para o Benfica, joguei grandes campeonatos, como a Champions League. Se fui para uma Copa do Mundo, era porque tinha cabeça boa e a mantinha desta forma também diante destes times menores.

Aranha: E qual foi o melhor momento da carreira?

Elzo: Com certeza foi chegar à seleção brasileira, principalmente ter ficado entre os 11 titulares em uma Copa do Mundo. Chegar à seleção naquela época era muito difícil. Já era complicado entrar na lista de 40 jogadores, depois de 30 e, enfim, 23 que iriam à Copa. Mas o dia que foi definido os 11 titulares e o meu nome estava lá presente, foi o dia mais importante da minha vida.

Aranha: Com certeza, deve ser um momento mágico, o ponto mais alto da carreira do jogador ao disputar uma Copa como titular. Mas a vida não é só de alegrias. Qual foi o pior momento da carreira?

Elzo: Eu tive alguns momentos difíceis dentro do futebol. Mas, com certeza, foi a lesão no joelho. Depois disso, eu tive o que talvez seja o pior momento na vida de um ser humano. Foi quando eu perdi o meu filho que estava com apenas 15 anos, em um acidente de carro. Aquilo me doeu muito, com certeza, este é o pior momento da minha vida.

Aranha: Não me arrisco a comentar qualquer coisa, pois só quem passou por isso sabe. Só a família e a fé para dar sustentação.
Mas depois que passamos anos nos dedicando ao futebol, chega a hora de pendurar as chuteiras. Eu tenho aprendido no dia a dia ao ocupar a cabeça com outras coisas, quase não vejo jogos. E você como lida com a saudade das competições, ainda mais no nível que alcançou?

Elzo: A saudade do futebol é uma coisa que jamais vamos conseguir perder, ainda mais porque eu joguei em seleção mineira, paulista, olímpica e uma Copa do Mundo. Mas uma hora a idade chega. Diferente do cantor, que pode cantar a vida toda, no do futebol chega um momento, depois dos 35 anos, que começa a ter lesões. Quando você está assistindo àquela movimentação na TV, realmente a saudade é muito grande.

Aranha: Te agrada assistir ao futebol jogado hoje no Brasil e na Europa, ou não costuma assistir mais futebol?

Elzo: Sim, eu costumo assistir os campeonatos europeus. Tem equipes de alto nível, assisto à Champions, Campeonato Espanhol, Português, Italiano e aqui no Brasil também. Mas o que entristece um pouco é que acabaram com os craques no Brasil. Antigamente, cada equipe tinha quatro ou cinco jogadores de alto nível, nível de seleção brasileira. Hoje, você nem vê mais jogadores que atuam no Brasil na seleção. Só os jogadores que se destacam na Europa é que são chamados para a seleção. Infelizmente, é uma seleção formada na Europa que representa o nosso país.

Aranha: Por falar em seleção, tem alguma história que poderia nos contar do seu período vestindo a amarelinha?

Elzo: Jogar uma Copa era muito difícil e a concorrência era muito grande por posição. Um dos jogadores em que eu disputava diretamente a posição era o Falcão. Eu dizia brincando para ele: 'você é o Rei de Roma, mas eu sou o Rei de Machado aqui do Sul de Minas' (Machado é a cidade onde residia e ainda reside Elzo). Eu que iria jogar.

Aranha: O que você tem mais saudades no futebol?

Elzo: Tenho muitas saudades das concentrações porque a gente era muito profissional naquela época. Joguei por vários clubes e no final da minha carreira fui para a Catuense-BA, porque havia feito uma promessa a um grande amigo. Nas concentrações, brincávamos e era muito gratificante. No Atlético-MG, por exemplo, estava ao lado dos meus ídolos, que eram Éder, Reinaldo, Nelinho, Luizinho... De repente, você está junto com eles de igual para igual, inclusive, fui capitão do Atlético com este pessoal. Também ficaram amigos do Benfica, Palmeiras, Inter de Limeira e Pinhalense.

Aranha: Realmente é uma das coisas que eu mais sinto falta, a resenha nas refeições, o clima da chegada do ônibus escoltado no estádio com a torcida já entrando nas arquibancadas. São momentos que fazem valer a pena. Como eu sei que valeu para mim, valeu para você todo o sacrifício para ser jogador e por quê?

Elzo: Sim, valeu. Tive uma carreira vitoriosa, apesar de ter sido uma carreira curta porque joguei profissionalmente por 13 anos. Justamente pela lesão grave que tive no início da carreira, foi muito gratificante. Sou muito feliz por isso porque conquistei tudo. Não tem o por que eu dizer que não teria gostado de ser jogador de futebol, mesmo que tenha sido numa época mais difícil porque não se ganhava o dinheiro que se ganha hoje. Era muito bacana jogar e ganhar grandes competições. Eu sou um vitorioso neste sentido, fui campeão em quase todos os clubes em que joguei. Foi muito bom e agradeço a Deus todos os dias por ter me dado a oportunidade de ter sido jogador de futebol.

* Com colaboração de Augusto Zaupa