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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Rocha: Dani Alves vai, David Luiz vem. Fla e São Paulo em caminhos opostos

Daniel Alves lamenta durante Palmeiras x São Paulo pela Libertadores - VINICIUS NUNES/AGÊNCIA F8/ESTADÃO CONTEÚDO
Daniel Alves lamenta durante Palmeiras x São Paulo pela Libertadores Imagem: VINICIUS NUNES/AGÊNCIA F8/ESTADÃO CONTEÚDO
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

11/09/2021 08h45

A saída de Daniel Alves do São Paulo é mais um caso típico de falta de gestão no futebol brasileiro. Clube contrata jogador caro sem plano definido para pagamento dos salários. O velho papo de "projeto" com "parceiros" que dificilmente aparecem, a menos que o atleta realmente seja midiático e, portanto, capaz de usar sua imagem para promover marcas.

Não aconteceu de novo. A dívida do clube com o jogador se avolumou, Daniel se recusou a jogar, o São Paulo divulgou oficialmente que não conta mais com o lateral veterano da seleção brasileira. Fim triste para uma história que subjetivamente até tinha algum encanto, com o retorno ao Brasil de um multicampeão ao time de coração vivendo jejum de títulos. Ao menos o Paulista acabou com a seca, mesmo sem Daniel em campo.

No mesmo dia deste triste desfecho no Morumbi, o Flamengo acertou a contratação de David Luiz, embora ainda sem anúncio oficial. Uma negociação que foi na contramão do que aconteceu no São Paulo. O clube carioca acompanhou de longe a busca do zagueiro por um time europeu, de preferência que jogasse a Liga dos Campeões, e aguardou o momento de fazer a abordagem, depois de sinalizar interesse.

Apresentou proposta dentro da realidade financeira e seduziu pela possibilidade de David reconstruir a imagem no Brasil e tirar o estigma do 7 a 1, disputando títulos importantes e podendo retornar à seleção brasileira. Sem contar o frisson da torcida, que impressionou jogador e staff inundando as redes sociais e colocando o nome de alguém um tanto esquecido no país entre os assuntos mais comentados.

Um vai, outro vem. Deixando ainda mais claro os caminhos opostos que seguem dois gigantes do futebol brasileiro. Um primeiro sinal foi dado quando Dani Alves deixou o São Paulo na mão para jogar a Olimpíada e o Flamengo segurou Pedro, que não foi a Tóquio. Investimento alto e salário em dia foram os argumentos rubro-negros que os tricolores não tinham.

É claro que no campo tudo pode ficar mais equilibrado. Em 2020 o São Paulo atropelou com quatro vitórias, no Brasileiro e na Copa do Brasil. Mas no final da temporada, só o Flamengo ostentou um título importante. É a tendência no longo prazo. Porque o atual bicampeão nacional se estruturou para hoje atrair atletas que disputaram Premier League há pouco tempo, como Kenedy, Andreas Pereira e, agora, David Luiz.

O Sâo Paulo até segue contratando e pode se fortalecer com Calleri e Gabriel Neves. Tem chances de chegar às semifinais da Copa do Brasil, apesar da necessidade de vencer o Fortaleza no Castelão. No mata-mata tudo fica mais equilibrado e o time de Hernán Crespo pode até surpreender e levar o título. Parece improvável e, se acontecer, vai parecer episódico.

Porque não há uma base sólida, um plano claro. O Flamengo tem. É óbvio que nem tudo é perfeito no time do Rio de Janeiro. A sensação de onipotência para encarar CBF e seus pares na discussão da volta do público aos estádios pode criar sérios problemas. A partir de uma possível eliminação na Justiça da Copa do Brasil para o Grêmio, com a classificação já praticamente assegurada, até todo tipo de retaliação, velada ou explícita. Um risco desnecessário.

Nas negociações de jogadores, porém, os passos são seguros. Com méritos de Marcos Braz e Bruno Spindel em operações complexas, que exigem paciência e destreza na condução. Sem blefar com jogador e staff, nem rebaixar o clube. Deu certo com Filipe Luís e, agora, com David Luiz. Mesmo que o zagueiro não corresponda as expectativas em campo, a direção fez sua parte entregando a Renato Gaúcho um atleta acima da média nacional e continental.

O São Paulo seguirá com Igor Vinicius e Orejuela para a lateral/ala pela direita. Fica a impressão de enfraquecimento. Mas a pior mensagem é a de que o clube que foi modelo no início do século 21 hoje não é mais um bom pagador. Nem desperta confiança para atrair grandes jogadores. Só restam a camisa pesada e a história vencedora. Em um ambiente verdadeiramente profissional, apenas isso não basta.

No último confronto em campo, goleada do Flamengo por 5 a 1 no Maracanã. Talvez a volta no Morumbi seja diferente. Quem sabe ainda se cruzem numa hipotética final da Copa do Brasil e o São Paulo consiga sair vencedor. Mas hoje, ao contrário das últimas décadas, o Fla sempre será o favorito. Porque criou um abismo na gestão que fica cada vez mais evidente.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL