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André Rocha

OPINIÃO

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

Com ou sem Ceni, Flamengo precisa entender que 2019 não volta mais

Rogério Ceni passando orientações a Bruno Henrique durante a partida do Flamengo contra o Atlético-MG, pela 10ª rodada do Brasileirão 2021. - Fernando Moreno/Fernando Moreno/AGIF
Rogério Ceni passando orientações a Bruno Henrique durante a partida do Flamengo contra o Atlético-MG, pela 10ª rodada do Brasileirão 2021. Imagem: Fernando Moreno/Fernando Moreno/AGIF
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André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

08/07/2021 07h52

Rogério Ceni avisou no início de junho que seria complicado ficar tanto tempo sem Everton Ribeiro, De Arrascaeta e Gabigol, ainda perder Gerson no meio do processo e não receber nenhuma contratação. A diretoria do Flamengo pediu paciência e prometeu respaldo.

A missão principal no período seria classificar o time para as oitavas da Copa do Brasil. Cumprida com duas vitórias sobre o Coritiba. Com elenco desequilibrado e curto, a tendência era o treinador repetir muito o time, desgastar os atletas e o rendimento cair. Ainda perdeu Diego Ribas por lesão e Pedro voltou da seleção olímpica com Covid e a cabeça perturbada por conta da convocação negada pelo clube.

Nenhum treinador conseguiria manter o Fla aliando desempenho e resultados. Ainda mais sendo um time tão visado e estudado pelos adversários. No período mais crítico apontado por Ceni, derrotas para Juventude, Fluminense e Atlético Mineiro. A primeira em gramado impraticável, a segunda no último minuto de um clássico e a última na casa de um rival nacional que tem elenco também valioso e mais completo. Com Arrascaeta, de volta à equipe, perdendo o gol de empate livre, na frente do goleiro Everson.

Nada disso importa. Começou o processo de "fritura" do treinador. Funciona assim: alguns setoristas e, agora, influenciadores captam a indignação de boa parte da torcida e criam um clima de insatisfação. Como? Usando como fontes dirigentes e jogadores que não gostam do técnico. Ora, quem é unanimidade sem vitórias em um clube grande? A estratégia é ouvir apenas um lado, o contrário. Para inflamar ainda mais os protestos, inclusive com pichações nos muros da sede na Gávea e do CT.

Rogério Ceni é apenas vítima? Não, sempre foi um profissional de difícil trato, um tanto arrogante. A questão nem é admitir seus erros. Afinal, que treinador admite sem parecer fraco e inseguro? O problema é não aprender com eles. É ver o time cansado e esfacelado, mas continuar se arriscando no ataque, sem considerar o contexto de cada partida. Com mais cuidados e administrando, poderia ter evitado as derrotas nos acréscimos para Bragantino e Fluminense, por exemplo.

A direção parece contaminada pelo clima negativo, mas espera a volta de Everton Ribeiro e Gabigol da seleção brasileira e trabalha por ao menos duas contratações para agosto. Um meio-campista e um atacante de movimentação. A esperança é passar por Defensa y Justicia na Libertadores, ABC na Copa do Brasil e ficar ao menos no G-6 do Brasileiro. Para Ceni deixar o status de "prestigiado".

Ceni sofre em processo parecido com o de Domènec Torrent, o que deveria provocar uma reflexão mais profunda: será que algum treinador servirá para o Flamengo enquanto a régua para muitos for 2019?

É preciso entender que aquele período foi único, não volta mais. Clube em busca de um grande título, oito contratações que deram liga com Jorge Jesus e criaram raro clima de comunhão com uma torcida carente e machucada por seguidas frustrações, mordida com a piada do "cheirinho" e fazendo do Maracanã um caldeirão hostil para qualquer rival.

Agora o que existe é um elenco com peças envelhecidas, sem a fome de dois anos atrás porque ganharam oito títulos desde então e ainda sem o calor da torcida nos estádios. Será que nesse contexto o próprio Jorge Jesus conseguiria manter o histórico retrospecto de cinco taças e quatro derrotas?

Enquanto tratar a exceção como regra, o Flamengo viverá nessa espécie de delírio coletivo. Com torcedores e influenciadores exigindo que o time massacre todos os adversários, independentemente da escalação. Esperando que Vitinho e Michael criem como Everton Ribeiro e Arrascaeta e, se a coisa não acontece, a culpa é do treinador. Qualquer um.

Ceni é a bola da vez. Ele pode até se recuperar e conquistar mais títulos. Mas se não for como em 2019, não serve. Uma mistura de soberba e infantilidade que só atrapalha o Flamengo.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL