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André Rocha

ANÁLISE

Texto baseado no relato de acontecimentos, mas contextualizado a partir do conhecimento do jornalista sobre o tema; pode incluir interpretações do jornalista sobre os fatos.

Galo dos 59 cruzamentos comete um crime contra os laterais Guga e Arana

Atlético-MG empatou com o Deportivo La Guaira, da Venezuela, na estreia da Libertadores - Divulgação
Atlético-MG empatou com o Deportivo La Guaira, da Venezuela, na estreia da Libertadores Imagem: Divulgação
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

22/04/2021 08h33

Era estreia de Libertadores fora de casa e o time não tinha o treinador à beira do campo por suspensão. Contexto que não pode ser desconsiderado. O Atlético Mineiro, com o auxiliar Cuquinha substituindo o irmão expulso na final da edição 2020, teve 72% de posse de bola e finalizou 29 vezes. Impressão de domínio absoluto, não?

Pois o time brasileiro, na verdade, esteve muito perto de sair do Estádio Olímpico, em Caracas, com uma derrota que não seria injusta. Foram apenas nove finalizações do La Guaira, mas seis no alvo. Inclusive o belo gol do zagueiro Adrián Martínez, fruto de um erro na saída de bola atleticana e a abordagem ruim de Guga no combate ao adversário. Everson trabalhou mais do que deveria, com pelo menos duas intervenções fundamentais.

Porque o Galo foi previsível no ataque e frágil na transição defensiva. Problemas que já existiam no ano passado com Jorge Sampaoli, mas de maneira diferente.

Com o treinador argentino, o time geralmente abria os pontas, trabalhava com os laterais por dentro junto com um volante e usava os meias e o centroavante por dentro buscando os espaços entre a defesa e o meio do adversário. Corria riscos inerentes à proposta e quando a bola saía do perde-pressiona era um terror para os zagueiros expostos. Um deles Réver, veterano e mais lento.

Agora Cuca quer os ponteiros Savarino e Keno mais por dentro, próximos de Eduardo Vargas na referência e do meia Nacho Fernández. Com mobilidade para confundir a marcação e criar espaços para finalizar. Necessita de uma sincronia que ainda não existe. Pode funcionar, mas requer tempo. A linha de cinco muito fechada da defesa do La Guaira só complicou a tarefa.

O problema mais grave da proposta é que sacrifica Guga e Guilherme Arana como laterais jogando de uma linha de fundo à outra. Sem contribuir tanto na construção e limitando as ações ofensivas a atacar o corredor e fazer o cruzamento. Foram dez de Guga, 16 de Arana. Quase metade dos 59 efetuados em Caracas. 59 cruzamentos! O recorde absoluto nesta primeira rodada da fase de grupos da Libertadores.

Foi no rebote do chute de Arana, mais por dentro, que Zaracho empatou o jogo em 1 a 1. O meio-campista argentino, aliás, não pode ser reserva desse time. Melhorou sensivelmente a dinâmica ofensiva, mas não tanto quanto poderia. Justamente por conta desse "congestionamento" por dentro no último terço que piorou com Nathan na vaga de Tchê Tchê.

Hulk, Eduardo Sasha e Marrony, as mexidas no ataque, acrescentaram pouco. Nacho circulou muito, mas não pode ficar na área como mais um atacante esperando cruzamentos. Tirando Hulk, os demais nem têm força física e estatura para esse estilo mais direto.

Para piorar, Guga e Arana muito abertos e várias vezes atacando ao mesmo tempo estão menos prontos para contribuir na recomposição defensiva do que nos tempos de laterais construtores. É o volante mais fixo, Allan ou Tchê Tchê, que precisa correr como louco para cobrir esses buracos e ajudar os zagueiros. Missão hercúlea e ultrapassada.

O resultado não foi de todo ruim e o Grupo H é mais que acessível, com o Atlético lutando pela ponta com o Cerro Porteño, que venceu por 2 a 0 o América de Cali. O trabalho de Cuca está no início e requer algum tempo para evoluir. Mas o jogo na Venezuela serve de alerta e aprendizado.

O maior deles: transformar Guga e Arana em laterais comuns é um crime. Contra os atletas e o trabalho coletivo.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL