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André Rocha

Palmeiras sobrevive por detalhes do VAR e precisa de um "divã" até a final

Alan Empereur agradece aos céus após classificação do Palmeiras à final da Libertadores - AMANDA PEROBELLI / POOL / AFP
Alan Empereur agradece aos céus após classificação do Palmeiras à final da Libertadores Imagem: AMANDA PEROBELLI / POOL / AFP
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

13/01/2021 07h53

O River Plate de Marcelo Gallardo é o grande time da América do Sul nos últimos dez anos e o que fez no Allianz Parque não foi nenhuma surpresa. Inexplicável foi a atuação na ida em Avellaneda, mesmo considerando os muitos méritos do Palmeiras.

Equipe forte, organizada, que joga de memória pelos seis anos e meio de trabalho, com muito volume e concentração, especialmente em mata-mata continental. Desta vez com três zagueiros - Paulo Díaz se juntou a Rojas e Pinola - para evitar que Luiz Adriano e Rony tivessem chances de mano a mano com campo para acelerar.

Muita qualidade no meio, com Enzo Pérez, De La Cruz e Nacho Fernández, e velocidade pelos lados, com os alas Montiel e Angileri voando pelos corredores e Matias Suárez fazendo o trabalho de alternar pelos flancos deixando o centro do ataque mais para Borré. Nenhuma grande novidade, mas tudo executado com qualidade, sintonia e, principalmente, alma.

Foram 66% de posse de bola, 23 finalizações a seis, 11 a zero no alvo. Se houve algum erro foi o de insistir demais nos cruzamentos depois que o Palmeiras se entrincheirou de vez: 43 no total. Sem contar, é claro, com o "elo fraco" Robert Rojas, com falhas grotescas na ida e a expulsão na volta que tornou tudo mais complicado, embora não tenha significado a perda do domínio do jogo. O belo gol de cabeça que abriu o placar em São Paulo apenas atenua os muitos equívocos do zagueiro paraguaio.

Assim como o destempero do jovem Carrascal na agressão a Gabriel Menino tirou qualquer chance de reação do time argentino em casa depois dos 2 a 0 e poderia, inclusive, ter definido o confronto na primeira partida se o Palmeiras tivesse aproveitado as oportunidades que criou além do gol de Viña em jogada ensaiada e magistralmente executada.

Mesmo com tanta oscilação, o River poderia ter voltado classificado. O Palmeiras sobreviveu por detalhes do VAR. No gol anulado de Montiel, que seria o terceiro no início da segunda etapa, um impedimento de Borré em meio à construção da bela jogada. Poderia ter passado batido. O pênalti de Alan Empereur sobre Suárez foi corretamente anulado, mas era lance de interpretação. Se o uruguaio Esteban Ostojich bancasse a própria decisão no campo seria o caminho aberto para o placar de 3 a 0 que parecia impossível antes da partida.

Ainda houve o desespero final, na análise do possível pênalti de Kuscevic em Borré, também descartado por impedimento do ataque millonario. Era mesmo preciso sofrer até o apito derradeiro e reduzir a provável classificação com autoridade a uma comemoração de alívio no final?

O roteiro foi o mesmo de tantas outras decisões envolvendo times brasileiros com ampla vantagem ou enorme favoritismo. Entra um tanto disperso, com intensidade baixa e depois se desespera ao receber a resposta do oponente. Como se despertasse de um sonho ou mergulhasse no pesadelo.

O Palmeiras não aproveitou nenhuma das vantagens que tinha. Nem a grama sintética, que foi uma dificuldade para o time argentino nos últimos confrontos com o Athletico na Arena da Baixada. Nem a velocidade de Rony, que teve a chance de definir a vaga ainda no primeiro tempo, mas parou em Armani. Muito menos a repetição do desenho tático e da estratégia da ida, com Gabriel Menino novamente fazendo a lateral numa linha de cinco atrás.

É dever reconhecer que a saída de Gustavo Gómez lesionado ainda no primeiro tempo, substituído por Luan, foi um baque muito grande, tanto na solidez defensiva quanto na questão anímica com a perda de uma liderança. Mas nada justifica o time espaçado, sem conseguir trocar passes quando minimamente pressionado.

Para piorar, Abel Ferreira foi profundamente infeliz nas substituições, empilhando zagueiros e limitando as ações ofensivas à velocidade de Rony e de um Breno Lopes, que entrou na vaga de Gustavo Scarpa, visivelmente intimidado pelo tamanho que a semifinal tomou e errou praticamente tudo que tentou, chegando a se atrapalhar com a bola de forma constrangedora em um contragolpe com vantagem numérica.

Raphael Veiga, que poderia reter um pouco a bola entre as intermediárias, entrou aos 35 do segundo tempo no lugar de Danilo, já com cartão amarelo. O meia, porém, foi apenas mais um a ajudar a se defender, como se o Palmeiras que tivesse um homem a menos.

Uma noite para mandar o primeiro finalista da Libertadores para o "divã". Ainda que o contexto de jogo único seja muito diferente e sejam 17 dias até 30 de janeiro. Mas será uma decisão naturalmente tensa e com o Palmeiras carregando favoritismo, ainda que leve. Se for contra o Boca Juniors, pela melhor campanha geral e o Maracanã ser mais familiar, digamos assim. No caso da decisão brasileira contra o Santos, por conta do maior investimento e elenco mais qualificado.

Seja como for, é preciso saber lidar com a ansiedade. Ela congelou o time que teve mais sorte que juízo e competência em seu estádio. Com tudo a favor, menos a força do River que saiu eliminado, mas enorme do Allianz Parque.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL