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André Rocha

Jogaço teve Inter encarando como final e Flamengo superando desfalques

Heitor tenta desarmar Vitinho, durante a partida entre Inter e Flamengo - Pedro H. Tesch/AGIF
Heitor tenta desarmar Vitinho, durante a partida entre Inter e Flamengo Imagem: Pedro H. Tesch/AGIF
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros "1981" e "É Tetra". Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

25/10/2020 21h07

As entrevistas dos jogadores do Internacional antes da partida, tratando o duelo com o Flamengo pela liderança como um "jogo de seis pontos" e, especificamente, a de Thiago Galhardo no intervalo, mencionando até as 14 vezes em que o "campeão" do primeiro turno ficou com o título no final, deixaram bem claro que o time gaúcho se preparou para uma final.

Inclusive poupando titulares na derrota por 2 a 1 para a Universidad Católica. Um jogo que, a rigor, valia vaga nas oitavas da Libertadores. Eduardo Coudet sabia que seu time precisaria de muita saúde para encarar o atual campeão brasileiro e sul-americano. E também tinha ausências importantes, como Saravia, Cuesta e Boschilia - sem contar Guerrero, de fora há muito tempo, e Rodinei, impedido por contrato de jogar contra o Flamengo.

Intensidade foi a tônica do Colorado, especialmente no primeiro tempo. Mas com muita coordenação, especialmente na pressão sobre a saída de bola do adversário. Induzia o passe pro lado e sufocava, especialmente com Patrick pela esquerda. Isla vacilou e o meia no 4-1-3-2 de Coudet serviu Abel Hernández no primeiro gol.

Além dos méritos do Inter na execução de seu plano de jogo, o Flamengo tinha o problema de não contar com um jogador de velocidade para intimidar um pouco o avanço das linhas do oponente. Nem o suspenso Bruno Henrique, nem os lesionados Gabigol e Pedro Rocha.

Domènec Torrent preferiu manter inicialmente Vitinho na função de meia central num 4-2-3-1, que seria de Arrascaeta, lesionado novamente que e nem viajou, assim como Diego Ribas. Com isso, Gerson foi sacrificado pela esquerda para Willian Arão entrar no meio-campo com a clara função de dar suporte aos zagueiros Gustavo Henrique e Natan tanto no combate a Abel e Galhardo como na saída de bola.

Quando saiu certo de trás, explorando o lado forte com Everton Ribeiro abrindo o corredor e Isla passando, os espaços apareceram. Pedro também aproveitou, levando vantagem em várias disputas com os zagueiros Rodrigo Moledo e Zé Gabriel. Em uma delas, girou arrancou e aproveitou a movimentação de Vitinho do centro para a direita para ajeitar o corpo e tocar no canto de Marcelo Lomba.

Mas o Inter não esmoreceu com o empate e seguiu fechando as linhas de passe no campo de ataque. Abel dificultou o passe de Gustavo Henrique e a bola sobrou para Galhardo fazer seu 15º gol no campeonato. E desarticular de vez o Flamengo até o final do primeiro tempo. Menos mal para o time visitante que faltou "punch" ao Internacional para fazer o terceiro e encaminhar a vitória. Até marcou, mas Galhardo estava impedido.

Deu chance para Dome fazer nova tentativa na volta do intervalo, sem fazer substituições: trouxe Gerson para dentro, alinhado a Thiago Maia e Arão definitivamente mais plantado. O sistema mudou sutilmente para um 4-1-4-1. Inteligente, pois Gerson não rende de costas para a marcação. Participando da construção e chegando à frente, o camisa oito cresceu naturalmente.

Só que sacrificou Vitinho pela esquerda. Não tinha jeito, era cobertor curto. E justamente porque o Inter estava concentrado e intenso seria arriscado colocar jogadores instáveis e não tão fortes fisicamente como Michael e Lincoln. Vitinho até apareceu, infiltrando em diagonal e recebendo de Pedro, driblando Lomba e chutando. Heitor, jovem lateral direito que simbolizou bem a entrega do Colorado na partida, salvou duas vezes, inclusive no chute de Pedro no rebote.

O Inter teve Marcos Guilherme batendo na trave e Patrick perdendo boa oportunidade em chute cruzado. Mas foi cansando e Coudet resolveu mudar a estratégia, recolhendo os setores para esperar os contragolpes. Com a sequência de jogos e considerando que houve uma viagem ao Chile no meio da semana, o recuo do Inter foi natural. E o Flamengo, desde os tempos de Jorge Jesus, sabe esperar o cansaço dos adversários. Assim virou sobre River Plate e Al Hilal, por exemplo.

Mas insistia demais nos cruzamentos de Filipe Luís para Pedro isolado na área que facilitava a vida da zaga e de Lomba. O lateral esquerdo veterano foi melhor por dentro, ajudando na articulação e ainda acertando uma bomba no travessão. Gustavo Henrique, que voltou a jogar mal depois da recuperação nos últimos jogos, teve ótima chance, mas cabeceou para fora.

Parecia que seria dia do Internacional, que mesmo se defendendo continuava com a seriedade de uma final de campeonato. Mas Coudet sofre na hora de usar o banco. D'Alessandro não conseguiu segurar a bola na frente, nem William Pottker acelerou os contragolpes, Rodrigo Dourado e Musto não melhoraram a marcação, nem a saída de bola. E Moisés também ficou só atrás marcando, sem usar o fôlego como escape na transição ofensiva.

Domènec segurou as trocas e só arriscou Lincoln e Michael nos minutos finais, com o Inter esgotado e recuado. Saíram Arão, que não tinha mais função, e Vitinho, cansado e sem confiança para buscar algo diferente. A dupla de substitutos entrou meio perdida, contribuindo pouco técnica e taticamente. Mas com fôlego, correndo e lutando para manter o Flamengo atacando.

Até Gerson, pela esquerda, achar com o pé direito Everton Ribeiro livre na área para marcar o segundo gol de cabeça seguido pelo Brasileiro. No abafa, na fibra, na indignação com a derrota que todo time vencedor carrega. E fazer jus aos 72% de posse e 16 finalizações contra dez, seis a cinco no alvo. Tudo isso no Beira-Rio e com desfalques importantes. Mais uma demonstração de força.

Para não deixar o Internacional escapar e manter a briga pela liderança na última rodada do turno. O jogaço deixou claro que a disputa será ponto a ponto, bola a bola. Como deve ser.

(Estatísticas: SofaScore)

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL