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Domènec Torrent no Flamengo: conexão com Jorge Jesus via Cruyff/Guardiola

Pep Guardiola e o auxiliar Domènec Torrent durante jogo do Manchester City pela Liga dos Campeões - Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images
Pep Guardiola e o auxiliar Domènec Torrent durante jogo do Manchester City pela Liga dos Campeões Imagem: Laurens Lindhout/Soccrates/Getty Images
André Rocha

André Rocha é jornalista, carioca e colunista do UOL. Trabalhou também para Globoesporte.com, Lance, ESPN Brasil, Esporte Interativo e Editora Grande Área. Coautor dos livros ?1981? e ?É Tetra?. Acredita que futebol é mais que um jogo, mas o que acontece no campo é o que pauta todo o resto. Contato: anunesrocha@gmail.com

Colunista do UOL Esporte

29/07/2020 07h31

Jorge Jesus estagiou com Johan Cruyff, que treinou e foi mentor de Pep Guardiola, de quem Domènec Torrent foi auxiliar.

O catalão, que deve ser anunciado oficialmente como novo treinador do Flamengo ainda hoje, é uma incógnita como praticamente qualquer um seria na sucessão de um trabalho que teve mais títulos que derrotas. Junte a isso as dúvidas naturais em relação à adaptação a um novo país, diferença no idioma e, principalmente, à pouca bagagem no comando técnico: foi assistente de Guardiola nas passagens por Barcelona, Bayern de Munique e Manchester City, mas foi treinador apenas de times da Catalunha - Palafrugell, Palamós e Girona - além da experiência no New York City em 2018/19.

Quais suas credenciais para tamanho desafio no Brasil e na América do Sul? O aval de Rafinha, que trabalhou com ele no Bayern, e o "selo de qualidade" por ser o profissional responsável pela execução dos treinos de Guardiola, com este mais atento aos detalhes e correções. Certamente esse conhecimento de futebol foi considerado por Marcos Braz e Bruno Spindel, além do interesse em vir para um país ainda imerso na pandemia e assinar um contrato mais longo, de um ano e meio.

Também a ideia de mexer pouco na estrutura deixada por Jorge Jesus. Até porque as diferenças, na essência, já seriam pequenas. Nuances que fogem da interseção entre as ideias de Jesus adaptadas ao longo do tempo dentro da escola Cruyff e a construção de conceitos de Guardiola adicionando ao que aprendeu em Barcelona as vivências na Alemanha e na Inglaterra.

Em comum, a obsessão por retomar a bola no campo de ataque, a valorização da posse como controle, mas também intensidade nos passes mais rápidos e verticais, além do volume de jogo com muitos jogadores entrando na área para finalizar e linhas adiantadas. Foco também nas bolas paradas, responsabilidade de Torrent nos treinos de Guardiola.

Torrent acredita mais no jogo de posição, com jogadores ocupando espaços determinados para que o trabalho coletivo funcione. Jesus aposta na criatividade tática. Mas sem abandonar princípios de organização ofensiva, como amplitude, profundidade e apoio para o jogador que tem a bola. Se Rafinha está atacando por dentro, alguém vai abrir pela direita para dar opção - normalmente Everton Ribeiro ou Gabigol. O mesmo no lado oposto, com Filipe Luís, De Arrascaeta e Bruno Henrique. Sempre alargando o campo para criar espaços.

Mas, ao menos no início, devemos ver menos variações táticas, como um 4-2-3-1 com Everton Ribeiro centralizado, Arrascaeta e Bruno Henrique nas pontas e Gabigol no centro, desenho do jogo de volta contra o Internacional pela Libertadores 2019. Ou o 4-3-3 com o uruguaio como "falso nove", a dupla de ataque nos flancos e Everton Ribeiro se juntando a Gerson na articulação por dentro contra o Athletico na Supercopa do Brasil deste ano. O DNA ofensivo e a sintonia com os métodos e processos mais atuais de treinamento que se refletem nos jogos, porém, seguirão intactos.

Torrent não era a primeira opção de Braz/Spindel e sabe disso. Talvez ainda não faça ideia do que vai enfrentar aqui - rivais com sangue nos olhos, olhar torto dos técnicos brasileiros e desconfiança de muitos jornalistas. E não deixa de ser uma aposta, como qualquer estrangeiro que desta vez não terá o tempo que Jesus aproveitou bem em 2019 para se ambientar e trabalhar as ideias.

Pode dar certo, justamente pelo fio que liga a filosofia de jogo: De Rinus MIchels a Cruyff, deste para Jesus e Guardiola, que faz chegar a Torrent. Da Holanda, passando por Espanha e Portugal para desembarcar no Brasil. O objetivo segue o mesmo: manter o Flamengo vencedor e quebrando paradigmas no país.