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11 kg mais magro e com novo diagnóstico, Eder Jofre volta à vida e ao boxe

Maurício Dehò

Do UOL, em São Paulo

13/08/2014 06h00

Duas das maiores estrelas do boxe brasileiro passam por períodos complicados: Maguila e Eder Jofre. Enquanto o primeiro segue internado com avanços no mal de Alzheimer e um tumor no pulmão, o segundo evoluiu. Há quatro meses, a rotina de Eder Jofre por duas semanas foi ir da casa da filha ao hospital. Hoje, está 11 kg mais magro, mas, com um novo diagnóstico, voltou a se comunicar e, para seu deleite, já voltou a vestir luvas de boxe.

Já com 78 anos, o “Galinho de Ouro” desde o fim dos anos 1990 sofre com alguns esquecimentos e confusões. Nada que era considerado grave até que, em 2013, ele perdeu sua mulher. A ausência de Cidinha o levou à depressão e sua situação piorou. Tratado desde então como tendo mal de Alzheimer, o quadro do bicampeão piorou, até chegar à sua pior fase, há quatro meses.

Com dificuldades de deglutição e com uma pneumonia, Eder passou dias indo ao hospital. Foi quando recebeu indicações para se consultar com o médico Renato Anghinah, neurologista que já tinha experiência com casos de traumas na cabeça. Foi ele que, após uma longa bateria de exames, diagnosticou Eder com encefalopatia traumática crônica – antes conhecida como demência pugilística.

Antonio Oliveira, genro do ex-pugilista, conta que a mudança de tratamento trouxe de volta um pouco do velho Eder Jofre.

“Os remédios do Alzheimer podem causar alterações diversas. Ele chegou a ter alguns efeitos colaterais, com dificuldade para falar, para engolir e os médicos iam mudando os remédios. Quando começou a fazer o tratamento adequado, esses problemas se encerraram. Houve algumas mudanças nos cuidados, ele está com os medicamentos corretos e a evolução foi notável. Ver ele hoje e há quatro meses, nem parece a mesma pessoa”, explicou Oliveira.

“Precisamos deixar bem esclarecido que pra gente foi até melhor saber que o problema que ele tem é esse, porque o Alzheimer é muito mais destrutivo. Se tivesse Alzheimer, de fato, ele estaria numa situação pior. Como é a encefalopatia, progride mais lentamente e os remédios são mais leves. Por isso ele teve essa melhora”, adicionou ele, que mora com Eder e a filha do lutador, Andrea. O Alzheimer deixa um prazo de oito a 14 anos para o paciente.

Eder já tinha sintomas que poderiam indicar a doença há mais tempo, mas nunca viu o quadro evoluir em velocidade preocupante. Mesmo com os problemas dos últimos meses, ele diz que não há nenhum arrependimento em ter seguido os passos do pai no boxe, onde conquistou títulos nos galos e penas, os primeiros do Brasil na história.

“O que eu pude tirar do boxe, eu já tirei. Agora, é só acompanhar a carreira de algum pugilista que se destacou ou está se destacando. É gostoso acompanhar uma pessoa assim”, disse Eder, com certa dificuldade e a voz baixa, rouca.  Os olhos brilham mais quando fala do pai e técnico, que morreu ainda durante sua carreira no boxe, e das brincadeiras de infância, das pipas às bolinhas de gude.

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Ver boxe é um de seus passatempos prediletos. “Assisto todas as lutas que forem televisionadas”. Suas lutas também estão no cardápio das telinhas. O que ele sente ao rever suas glórias? “Uma certa emoção. Pouca, não muita. Mas é uma emoção que é gostoso eu ver que estou lutando lá e ganhando, por nocaute. Sem dúvida, eu me sinto orgulhoso de ter conseguido levar o nome do Brasil lá fora. Ir lá fora e representar o Brasil e levantar o nome do Brasil no boxe. Isso me deixou orgulhoso. Não convencido. Mas orgulhoso de poder ter defendido o Brasil lá fora.”

O habitat do campeão

A reportagem acompanhou uma tarde de treino de Eder Jofre em uma academia, que representa mais do que uma etapa a mais em sua evolução física. O condicionamento físico está trazendo a mobilidade do ex-lutador de volta, mas, mais que isso, tem efeito psicológico importante para ele.

Em casa, a TV e os videoteipes de lutas no computador fazem sua rotina. Na academia Central Park na região central de São Paulo, ele retoma uma velha rotina. Encontra-se com o personal trainer com quem trabalha há 15 anos, Harry Rosenberg. Expansivo e animado, Harry faz piadas, provoca o lado lutador de Eder em diversas “lutinhas” e o trata com muito carinho, abraçando e tocando o ex-pugilista.

Se antes eram horas pulando corda, batendo no saco de areia e fazendo manoplas, agora Eder faz 40 minutos de exercícios. Levanta peso, faz abdominais, reforça a musculatura da perna e, no fim, ganha um prêmio, os pontos altos de sua semana: alguns minutos com as luvas em punho, batendo firme nas manoplas. A felicidade de se ver no seu habitat natural é visível.

“Precisa até segurar um pouco, para ele não exagerar, se não ele já quer pular corda, derrubar os outros”, ri o personal trainer, que explica seu trabalho. “O trabalho é para melhorar a funcionalidade dele. Ele treina força, equilíbrio, e no finalzinho, como ele é um pugilista, fazemos um trabalho bem leve de manoplas, saco de areia, só para ele se sentir no boxe.”

E assim é a rotina. A família vê Eder com 60 ou 70% de seu potencial físico em dia e prevê uma melhora grande nos próximos dois meses. Com a idade e a encefalopatia, no entanto, algumas coisas não voltam e a evolução nunca será completa. Mas, tudo bem, Eder não se queixa. Como gosta de dizer, hoje ele só está aproveitando a vida, e tudo o que o boxe deu a ela. Para o mal, mas também para o bem.

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