Como jovens ajudaram secretário-geral da ONU a endurecer discurso

Ter jovens em cargos de poder não é algo tão comum. Nos plenários, nas grandes conferências mundiais e na política geralmente encontramos homens brancos e de meia-idade (acima dos 40 anos) ou mais velhos.

Mas a ativista e ambientalista brasiliense Paloma Costa, 30, é uma exceção e representa o nascimento de uma onda, que começa a mudar esse cenário.

Formada em direito pela Universidade de Brasília e coordenadora de clima da ONG Engajamundo, ela esteve entre os sete jovens ativistas escolhidos por António Guterres, secretário-geral da ONU (Organização das Nações Unidas), para compor o Grupo Consultivo da Juventude sobre Mudança Climática, montado em 2019.

No mesmo ano em que o Brasil ficou de fora das declarações oficiais de autoridades durante a Cúpula do Clima da ONU, pois não apresentou nenhuma proposta de aumentar o esforço no combate às mudanças climáticas, Paloma Costa esteve ao lado da ativista sueca Greta Thunberg, pressionando com um discurso em favor da Amazônia.

Pressão de jovens fez discurso da ONU ser mais forte

A missão de contar com um olhar jovem aconselhando o alto escalão da ONU e tendo suas ideias difundidas a um grupo com o poder de decisão foi algo novo.

"Essa foi a primeira vez em que houve um grupo de conselheiros jovens. Para ele [Guterres], foi muito chocante levar as demandas que a gente vinha trabalhando desde a base para o highlevel", conta Costa.

De acordo com a jovem, a influência dos jovens foi realmente efetiva e fez com que Guterres, inclusive, aumentasse o tom em seus discursos em defesa do clima.

"Ajudamos ele [Guterres] a ser muito mais duro nos discursos, com mais força e chamando para a ação. Tínhamos críticas estruturais" Paloma Costa, ambientalista

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A ativista Paloma Costa foi convidada a ser consultora sobre luta climática na ONU
A ativista Paloma Costa foi convidada a ser consultora sobre luta climática na ONU Imagem: Pryscilla K./UOL

Apesar do ativismo jovem ter crescido e ganhado holofotes nos últimos tempos, apenas 0,76% dos investimentos feitos pelas grandes fundações climáticas são para iniciativas lideradas realmente por jovens.

Costa identificou esse desafio e, junto com outros membros do conselho de jovens da ONU, criou o fundo de financiamento Youth Climate Justice Study,

Nosso objetivo é financiar iniciativas voltadas para a justiça climática jovem, englobando pessoas de até 35 anos, juventudes marginalizadas, que representem essa resistência, que vivam em áreas da América-Latina e Ásia. Trazer mais acesso para as juventudes ativistas Paloma Costa.

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A ativista enxerga um avanço em muitos campos do Brasil nos quais jovens, mulheres e indígenas já ocupam mais lugares de poder.

"Temos uma presidente da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) que é indígena. Ter pessoas nesses locais de tomada de decisão faz com que a gente avance nessa agenda, mesmo em um Brasil polarizado, em que também existe grilagem de carbono. A vitória de fato é quando vermos esses territórios demarcados. Pois a violência segue contra os corpos indígenas", diz Costa.

Levando o legado de luta

Rio Branco, Acre, 31.01.2023 - Junior Manchineri vem de uma família de luta. Seus avós paternos lutaram pelo reconhecimento e demarcação da Terra Indígena Mamoadate.(Foto: Odair Leal/UOL)
Rio Branco, Acre, 31.01.2023 - Junior Manchineri vem de uma família de luta. Seus avós paternos lutaram pelo reconhecimento e demarcação da Terra Indígena Mamoadate.(Foto: Odair Leal/UOL) Imagem: Odair Leal

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O acreano Júnior Manchineri, 22, coordenador da Coordenação Regional Alto Purus - Rio Branco (AC), é exemplo real desse avanço da juventude por espaços de poder.

Manchineri foi o candidato indígena mais jovem do Brasil, concorrendo ao cargo de deputado estadual em Rio Branco (AC), em 2022. Mas a busca por ocupar cargos estratégicos começou ainda na sua adolescência, quando foi eleito "deputado estadual mirim" em sua escola e pôde conhecer e acompanhar alguns projetos na Assembleia Legislativa do Acre, em 2018.

"É um pacto geracional, que começou com o meu avô, e mostra que o movimento indígena reconhece a importância da juventude no contexto de continuidade, mas preocupado com a responsabilidade e representatividade que se pode ter com a ocupação desse cargo", diz Manchineri.

Para Manchineri, os jovens já estão tomando para si a responsabilidade de serem atuantes nesses espaços de poder, e espera que as pessoas mais velhas depositem um maior voto de confiança na juventude.

"Quando você se depara com tanta violência de direito, é comum você querer entrar e participar. Hoje, sinto que inspiro jovens a quererem adentrar nesses espaços, que são estratégicos. Houve uma transição de olhares para juventude, instituindo responsabilidades, demandas e confiança", diz Manchineri.

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