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Como salvar as músicas do fim do mundo? Empresa quer 'congelar canções'

Imagem do Global Seed Vault (banco de sementes), que tem lógica semelhante ao Global Music Vault e está na mesma ilha.  - Global Music Vault
Imagem do Global Seed Vault (banco de sementes), que tem lógica semelhante ao Global Music Vault e está na mesma ilha. Imagem: Global Music Vault

Giacomo Vicenzo

De Ecoa, Em São Paulo (SP)

31/03/2023 06h00

A música é uma expressão e tanto da humanidade, esse tipo de arte guarda angústias, passagens históricas e eterniza compositores. Mas caso um grande desastre ambiental ocorra em caráter global ao ponto de termos que reconstruir as civilizações do zero - todo esse repertório musical terá se perdido?

Em janeiro deste ano a organização científica Bulletin of the Atomic Scientists divulgou que o Relógio do Juízo Final avançou 10 segundos, ficando o mais próximo do ponteiro do fim desde que foi inventando em 1947.

Esse relógio é um marcador simbólico que analisa o quanto a humanidade está próxima do fim pelo aquecimento global e outras devastações ambientais promovidas por humanos.

Foi pensando nesse cenário não tão otimista que a empresa norueguesa Elire Group, que trabalha na área de capital de risco, decidiu 'congelar música' em um cofre localizado em uma ilha repleta de gelo, de acordo com informações do jornal online britânico The Independent.

O projeto se chama Global Music Vault e pretende criar uma biblioteca de música para humanidade.

Banco de sementes, documentos e agora de música

Quem está por trás do cofre para músicas é Luke Jenkinson, empresário australiano, que agora vive na Noruega e é diretor administrativo da Elire Group. A empresa financia o projeto, mas também espera algum retorno financeiro do mesmo (o que possivelmente não tornará esse arquivamento gratuito).

Luke Jenkinson, diretor administrativo da Elire Group - Elire Group - Elire Group
Luke Jenkinson, diretor administrativo da Elire Group
Imagem: Elire Group

Jenkinson se inspirou nos bancos já existentes que guardam sementes de alimentos e arquivos da humanidade, como os manuscritos originais da Divina Comédia de Dante, e ficam na mesma ilha gelada - Svalbard, uma zona rochosa e desmilitarizada entre a Noruega e o Polo Norte.

"Eu queria explorar como poderíamos fazer o mesmo para a música. Como preservamos toda essa música que nos moldou por séculos?", declarou Jenkinson em entrevista ao The Independent.

Mas como se congela música?

Jenkinson explicou em entrevista ao The Independent que mantém uma 'parceria frouxa' com a Microsoft para usar a tecnologia do Project Silica, que armazena as músicas em blocos de vidro de quartzo, que podem durar até centenas de milhares de anos, de acordo com a empresa.

Blocos de vidro que armazenam música do Projeto Silica, da Microsoft - Elire Group - Elire Group
Blocos de vidro que armazenam música do Projeto Silica, da Microsoft
Imagem: Elire Group

Cofre sustentável

O empresário ainda enxerga a saída como sustentável e fora da lógica de lucro que existe atualmente, com empresas que estão armazenando digitalmente até 100 mil novas faixas por dia, mas utilizam datas centers convencionais.

"Estamos gastando muito dinheiro, esforço e energia apenas tentando resfriar os data centers globalmente", disse Jenkinson ao jornal britânico.

Por que congelar música?

A ideia de 'congelar sementes de comida', livros e documentos históricos da humanidade parece óbvia. Mas, então qual o motivo de congelarmos música?

Jenkinson revelou ao The Independent que uma de suas motivações foi o incêndio em 2009 no Universal Studios, que destruiu cerca de 175 mil cópias originais, e foi revelado pela The New York Times Magazine somente 10 anos depois, e não se tem claro exatamente quais masters foram perdidas na ocasião.

"Nosso trabalho é educar a indústria da música de que isso não é algo bom de se ter", diz Jenkinson. "Isto é obrigatório."

Atualmente, o projeto está numa fase que o empresário chama de fornecimento. "Estamos apenas chamando o mundo inteiro, dizendo: 'Encontre sua música mais valiosa e comece a digitalizá-la conosco", afirmou ao veículo britânico.

As primeiras músicas devem ser 'congeladas' no cofre ainda este ano. Entre os acervos selecionados estão contribuições dos Arquivos de Música de Ketebul do Quênia, da Orquestra de Instrumentos Indígenas e Novas Tecnologias e do Coro Fayha do Líbano

Jenkinson espera que o projeto tenha uma abordagem abrangente: "A indústria da música tem a chance de remover essas barreiras de descobrir o que devemos arquivar, quando, essencialmente, você pode arquivar tudo", disse.