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Por que os biomas brasileiros são fundamentais para o planeta?

Onça no Pantanal - Pedro Hélder da Costa Pinheiro/iStock
Onça no Pantanal Imagem: Pedro Hélder da Costa Pinheiro/iStock

Janaína Camelo

Colaboração para Ecoa, de Brasília

06/06/2022 06h00

Pode ser que já faça algum tempo desde a última vez que você assistiu às aulas de ciências ou geografia na escola, mas já reparou como aquelas matérias sobre meio ambiente parecem nunca ter sido tão importantes como agora?

Estudos vêm apontando com cada vez mais clareza que a crise climática é uma realidade e está avançando rapidamente. O relatório lançado este ano pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, está sendo considerado o mais sombrio já feito pela entidade. Entre os seus alertas está o de que os principais pulmões verdes do mundo, como a Amazônia, estão ameaçados — e isso coloca em risco a vida de milhões de pessoas e animais.

Para compreender melhor esse tema cada vez mais presente no nosso cotidiano e a importância do Brasil para o equilíbrio do planeta, é preciso relembrar aquelas aulas do colégio. O Brasil é composto por seis biomas diferentes: Amazônia, Pantanal, Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Pampa, cada um com sua importância na biodiversidade da Terra. E especialistas são unânimes em afirmar: todos eles estão interligados.

Amazônia

  • Ocupa 49,5% do território nacional;

  • é o mais extenso bioma em terras brasileiras;

  • faz parte de 93,2% da região Norte do país;

  • engloba a extensão total dos estados do Amazonas, Roraima, Acre e Amapá.

Floresta amazônica - Atelopus/Getty Images/iStockphoto - Atelopus/Getty Images/iStockphoto
Floresta amazônica
Imagem: Atelopus/Getty Images/iStockphoto

A Amazônia é o que os ambientalistas chamam de "grande estoque de carbono". Para se ter uma ideia, uma árvore na Amazônia, após ser derrubada, é capaz de liberar carbono na atmosfera por cerca de 30 anos enquanto se decompõe.

Já poderia ser trágico até aí. Mas lá, a derrubada geralmente antecede o fogo. "As pessoas colocam fogo para acelerar esse processo de decomposição e limpar logo o terreno. Quando fazem isso, aquele carbono que iria demorar 30 anos para chegar na atmosfera vai imediatamente. E aí é uma tragédia anunciada", explica a pesquisadora Ludmila Rattis, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Habitam hoje na Amazônia 30 milhões de espécies, formando a maior biodiversidade de todo o planeta. É a maior floresta tropical do mundo. São 6,9 milhões de km² de extensão que compreendem outros sete países — aproximadamente dois terços estão em território brasileiro.

Diariamente, uma árvore de médio ou grande porte na Amazônia chega a consumir cerca de 500 litros de água da terra, liberando essa umidade para a atmosfera e utilizando a energia do sol para dar conta do processo. "Uma vez que se corta essa árvore, é a água que deixa de ir para a atmosfera e virar chuva, e uma energia que não é dissipada. Então, tudo fica mais seco e quente localmente", detalha Rattis.

Quando há o desmatamento, a "borda" da floresta se torna mais vulnerável, resseca e sofre com os fortes ventos, morrendo aos poucos e afetando o interior da floresta — que, com o tempo, também não resiste. Essa morte "geral" é o que especialistas chamam de degradação.

"Manter a Amazônia conservada é importante para o Brasil e para o mundo por diversos motivos. Um deles é a regulação do clima", explica Paulo Barreto, pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).

Mas o que fazer para frear a degradação na Amazônia? "O Brasil precisa restabelecer políticas que foram descontinuadas e fortalecer os órgãos ambientais", diz Barreto. Os ambientalistas também defendem a regulamentação de áreas da Amazônia não designadas, que favorecem a grilagem de terra.

Pantanal

  • Ocupa 1,8% do território nacional;

  • é o menor bioma com participação na superfície do país;

  • está totalmente inserido nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul;

  • maior planície alagada contínua do mundo;

  • concentra a maior densidade populacional de onças pintadas, araras azuis e ariranhas.

pantanal - Getty Images/iStockphoto - Getty Images/iStockphoto
Vista aérea para o Pantanal
Imagem: Getty Images/iStockphoto

O Pantanal é o chamado ecótono, bioma influenciado ou que mantém contato com biomas diferentes. Em sua borda leste, sofre a influência do Cerrado, e na parte norte, da Amazônia. Já na região próxima à cidade de Bonito, a Mata Atlântica se faz presente. É impactado também pelo bioma paraguaio Gran Chaco, e pelo boliviano Bosque Seco Chiquitano.

"O Pantanal é um grande reservatório de espécies do Brasil. É um bioma relativamente pequeno quando a gente compara com Amazônia e com Cerrado, mas ainda assim tem densidades populacionais enormes. É um lugar perfeito para a vida", afirma Gustavo Figueiroa, biólogo e diretor de comunicação do SOS Pantanal.

A degradação no entorno é hoje a principal ameaça ao Pantanal, pois resulta em rejeitos nos rios que desaguam ali. Com isso, eles chegam com menos volume de água, mudando toda a dinâmica do bioma. Para piorar o cenário, a seca tem atraído produtores de soja, que têm desmatado grandes áreas na região.

Na tentativa de frear essa ação, o SOS Pantanal iniciou um projeto-piloto de restauração de áreas degradadas e também um programa de produção de dados. "Temos uma linha de comunicação muito forte dentro da instituição para mostrar o que realmente acontece no Pantanal, tanto de bom quanto de ruim", conta Figueiroa.

Caatinga

  • Ocupa 10,1% do território nacional;

  • engloba toda a região Nordeste, exceto o Maranhão;

  • ocupa toda a extensão do Ceará e é encontrado também em Minas Gerais;

  • 50% do bioma já foi desmatado.

caatinga - iStock - iStock
Caatinga
Imagem: iStock

Já no semiárido da Paraíba, no coração da Caatinga, o problema vivido está diretamente ligado à sobrevivência humana. A escassez de água, consequência da seca extrema e longos períodos de estiagem característico do bioma que compreende 70% do Nordeste, atinge centenas de famílias.

A perda da vegetação, no entanto, torna tudo ainda mais preocupante. Cerca de 50% da Caatinga já foi devastada. Segundo pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), a degradação desse bioma, além de contribuir para o declínio populacional e extinção local de espécies, facilita a erosão, diminui a disponibilidade de água no solo e ajuda a promover alterações climáticas que podem acentuar os períodos de seca e levar à desertificação de algumas áreas.

Uma pesquisa desenvolvida pelo Centro de Biociências da universidade apontou que mesmo as áreas não desmatadas estão potencialmente degradadas por ações humanas acumuladas ao longo de séculos. O estudo mostrou ainda que regiões relativamente intactas do bioma poderiam servir como Unidades de Conservação.

Pampa

  • Ocupa 2,3% do território nacional;

  • bioma exclusivo do Rio Grande do Sul;

  • cobre 68,8% do estado;

  • abriga mais de 3.500 espécies de plantas e mais de 500 espécies de aves.

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Gramíneas e arbustivas caracterizam a vegetação do bioma Pampa, típico da porção meridional da América do Sul.
Imagem: Brasil Escola

Mesmo ocupando pouco mais de 2% do território nacional, e exclusivamente no Rio Grande do Sul, o Pampa, um bioma predominantemente campestre, possui uma biodiversidade alta e típica. Abriga mais de 3,5 mil espécies de plantas e mais de 500 espécies de aves.

A região tem muitos pecuaristas, e um dos desafios dos pesquisadores tem sido mostrar que é possível aproveitar os campos para essa atividade e ainda manter a biodiversidade do Pampa. Um estudo coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) mostrou que, quando o manejo da pecuária é realizado em carga adequada, o campo nativo contribui para o sequestro de carbono dos ecossistemas naturais, mitigando os efeitos das mudanças climáticas.

"Esse resultado significa que, nesse bioma, a produção de carne e de outros produtos animais pode ocorrer de forma sustentável", afirma o ecologista e professor do departamento de Botânica do Instituto de Biociências da UFRGS, Gerhard Overbeck.

O Plano Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa, do governo federal, prevê a recuperação de 300.000 hectares de áreas degradadas no Pampa até 2030. Outro programa, no âmbito da instituição FunBio, tem o mesmo propósito.

Mata Atlântica

  • Ocupa 13% do território nacional;

  • presente em 15 estados do país;

  • é o bioma que prevalece em toda a região sudeste;

  • está inserida na costa litorânea do sul ao norte do país.

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Mata Atlântica
Imagem: Luciano Candisani

Presente de norte a sul do litoral brasileiro, a Mata Atlântica é um dos biomas mais ricos do planeta. A regulação do clima e a purificação do ar são algumas das suas principais contribuições no momento.

Mas, assim como ocorre com o Pampa, a Mata Atlântica conta hoje com apenas 12,4% de sua floresta nativa intacta. Quase 90% desapareceram entre a exploração do pau-brasil e a industrialização das cidades. Segundo a Fundação SOS Mata Atlântica, ainda assim, 72% dos brasileiros habitam em áreas compreendidas pelo bioma, faixa que representa 70% do PIB nacional.

A ONG já conseguiu plantar quarenta milhões de árvores nativas e restaurar cerca de 23 mil hectares em nove estados, área equivalente à dimensão territorial da cidade de Recife.

Cerrado

  • Ocupa 23,3% do território nacional;

  • está presente em todas as regiões do país;

  • ocupa 56,1% da superfície do Centro-Oeste;

  • 70% do carbono estocado no Cerrado está abaixo do solo;

  • oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país nascem no Cerrado.

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Cerrado é a savana mais biodiversa do mundo e se originou há pelo menos 40 milhões de anos.
Imagem: Sedec/MT

Da mesma maneira que a Amazônia, uma das peculiaridades do Cerrado é sua capacidade de estocar carbono. E cerca de 70% desse carbono estocado está abaixo do solo. Se somado ao estoque aéreo, equivale às mesmas taxas encontradas na Amazônia. Assim, evitar a emissão de todo esse gás é o papel fundamental do Cerrado para o equilíbrio climático.

Além disso, o bioma é o grande berço das águas do Brasil: ali nascem oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país, o que o torna fundamental para a nossa segurança hídrica.

É também de grande relevância para a biodiversidade do mundo. "O Cerrado responde por 5% da riqueza de espécies que ocorrem no planeta e por um terço das que vivem no Brasil, com altíssimo grau de endemismo: 50% das espécies encontradas lá ocorrem somente lá", destaca Frederico Machado, especialista em conservação do WWF-Brasil.

Por outro lado, o Cerrado está ameaçado pela expansão do agronegócio, especialmente da pecuária bovina e da soja. Até agora, já perdeu 50% da sua cobertura original. "É um dos biomas mais ameaçados do mundo. A taxa de destruição é superior à da Amazônia", diz Machado.

A produtividade sustentável pode ser uma solução, já que é capaz de aumentar a produção sem a necessidade de desmatar mais hectares de floresta nativa. Segundo a WWF, o Cerrado conta hoje com mais de 40 milhões de hectares já "abertos" e aptos para culturas mais exigentes, como a soja.